Capítulo 3
HELEN NARRANDO
Momentos antes...
Até alguns dias atrás, minha maior preocupação era de não chegar atrasada na faculdade, discutir com meu pai sobre dinheiro que eu queria usar, escolher qual vestido usar numa festa que eu nem tinha certeza se queria ir. Eu vivia numa bolha confortável, cercada de luxo, segurança, motoristas e seguranças armados que fingiam que minha vida era normal.
Eu sempre soube que meu pai não era um empresário comum.
Eu só nunca quis saber até onde ia a sujeira dele.
Eu cresci em mansões, escolas caras, viagens internacionais, jantares com gente importante demais pra ser honesta. Eu fingia não ver as armas escondidas. Fingia não ouvir as conversas sussurradas. Fingia não perceber o medo que algumas pessoas tinham quando falavam o sobrenome da minha família .
Era mais fácil ser cega .
Agora, eu tava pagando por isso .
Acordei com a boca seca, a cabeça latejando e o corpo pesado como se eu tivesse sido atropelada.
Abri os olhos devagar .
Tudo girava .
O teto era baixo. Branco encardido. Uma lâmpada fraca piscava. O cheiro era estranho, mistura de mofo, cigarro velho e produto de limpeza barato .
Meu coração disparou .
Onde eu tô?
Tentei me mexer e uma dor subiu pelo braço. Meus pulsos estavam livres agora, mas marcados de roxo. Minha garganta ardeu quando engoli em seco .
A memória veio em flashes quebrados .
A estrada .
O carro freando bruscamente.
Homens armados.
Um tiro seco.
O corpo do segurança caindo.
Um rosto coberto por máscara.
A voz grave.
— Desce.
O capuz.
O cheiro de gasolina.
O balanço do carro.
O pânico tentando subir pela minha garganta e eu empurrando ele pra baixo com força.
— Não… — murmurei sozinha.
Sentei devagar na cama dura. O quarto era pequeno. Cama simples. Um banheiro minúsculo sem janela.
Cativeiro.
Meu estômago virou.
Meu primeiro impulso foi gritar. Bater na porta. Implorar. Chorar.
Eu não fiz nada disso.
Porque eu entendi na hora, que quem me trouxe até aqui queria isso.
Eles queriam me ver quebrar.
E eu não ia dar esse gosto.
Respirei fundo.
Uma vez.
Duas.
Três.
Se eu entrasse em pânico, eu perdia.
Se eu chorasse, eu perdia.
Se eu implorasse, eu perdia.
Levantei e testei a porta. Trancada. Grossa demais pra arrombär.
Fui até o banheiro. Joguei água no rosto. Olhei meu reflexo no espelho rachado.
Olhos vermelhos.
Cabelo bagunçado.
Rosto pálido.
Mas ainda era eu.
Ainda não tinham me tirado isso.
Sentei na cama de novo.
Esperei.
Não sei quanto tempo passou. Minutos? Horas? Dias? O tempo aqui dentro parecia uma coisa elástica, deformada.
Até que ouvi passos.
Pesados.
Firmes.
A chave girou na fechadura.
Meu coração acelerou, mas eu mantive o rosto neutro.
A porta abriu.
E ele entrou.
Alto. Largo. Ombros enormes. Camisa preta colada no corpo. Corrente grossa no pescoço. Tatuagens subindo pelo braço. Barba por fazer. Olhos escuros, fundos, cheios de ódio e alguma coisa pior.
Ele parecia um demôniö que saiu direto de um pesadelo.
Mas eu não desviei o olhar.
— Então você acordou — ele disse.
A voz era baixa. Controlada. Perigosa.
— Demorei? — respondi.
Ele franziu a testa, claramente não esperando ironia.
— Você sabe onde tá?
— Em algum buraco que você chama de casa — dei de ombros. — Imagino que não seja um hotel cinco estrelas.
Ele fechou a porta atrás de si.
O barulho ecoou no meu peito.
— Você acha que isso é engraçado?
— Não — respondi. — Mas eu sempre achei que humor ácido era melhor do que chorar feito uma criança.
Ele deu um passo à frente.
Meu corpo inteiro gritou pra eu recuar.
Eu não recuei.
— Você sabe por que tá aqui, Helen? — ele perguntou.
Meu nome na boca dele soou errado.
— Porque você é um psicopatä?
Ele sorriu.
Um sorriso frio.
— Você tá aqui por causa do teu pai.
— Eu já imaginava.
— E por causa da minha mulher.
Meu estômago afundou.
— Eu não fiz nada, nem sei quem é sua mulher — falei firme.
— Não importa — ele respondeu. — Sangue chama sangue.
— Então você vai me matar pra se sentir melhor?
— Matar você é fácil demais.
Ele chegou mais perto.
Muito perto.
Eu senti o cheiro de cigarro e álcool nele.
— Eu posso te fazer gritar. Posso te quebrar em pedaços. Posso te usar pra fazer teu pai implorar de joelhos.
Meu coração disparou.
Mas eu mantive o rosto impassível.
— Que romântico — murmurei. — Aposto que sua mulher ficaria orgulhosa.
Foi aí que eu vi.
O olhar dele mudou.
A mandíbula travou.
As mãos fecharam em punho.
Eu tinha acertado onde doía.
— Não fala dela — ele rosnou.
— Ou o quê? Vai me torturar? — inclinei a cabeça. — Já tava nos seus planos mesmo.
Ele avançou de uma vez.
Me prensou contra a parede.
O braço dele ao lado da minha cabeça.
O corpo dele a centímetros do meu.
Eu senti o calor dele.
O ódio dele.
O descontrole dele.
— Você não faz ideia do que eu sou capaz de fazer com você — ele sussurrou.
Meu coração batia tão forte que eu achei que ele ia ouvir.
Mas eu sorri.
Um sorriso pequeno.
Desafiador.
— Faz — respondi. — E mesmo assim não teve coragem.
Ele ficou imóvel.
Respirando pesado.
Os olhos dele me atravessando.
Eu percebi.
Ele queria me ver implorar.
Ele queria me ver chorar.
Ele queria me ver quebrar.
E isso dava poder a mim.
— Meu pai vai vir atrás de mim — eu disse. — Ele não vai deixar barato. Ele vai te caçar até te achar. E quando ele te achar, ele vai te matar.
Ele soltou uma risada baixa.
— Teu pai já tá morto.
— Você acha mesmo? — provoquei. — Ele construiu um império em cima de corpos. Você é só mais um que ele vai enterrar.
Eu vi a veia pulsar no pescoço dele.
— Cala a boca.
— Ou o quê? — ergui o queixo. — Vai me bater? Vai me estuprär? Vai me matar?
Ele fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, tinha algo diferente aqui.
Algo mais frio.
Mais perigoso.
— Você não vale a bala que eu gastaria agora — ele disse. — Eu vou te deixar apodrecer aqui até você implorar.
— Boa sorte — respondi. — Eu tenho mais paciência do que você.
Ele se afastou bruscamente.
Abriu a porta.
— Sem comida. Sem água. Sem nada.
— Já passei por dietas piores — ironizei.
Ele me olhou uma última vez.
Com ódio.
Com dor.
Com uma coisa estranha que eu não consegui identificar.
E saiu.
A porta se fechou.
A chave girou.
O silêncio voltou.
Eu escorreguei até sentar no chão.
Meu corpo começou a tremer.
Não na frente dele.
Mas agora.
Sozinha.
Eu abracei os joelhos.
Respirei fundo.
Não chorei.
Ainda.
Meu ódio cresceu.
Não contra meu pai.
Não contra mim.
Contra ele.
Eu não sabia o nome dele ainda.
Mas eu sabia que ele era o responsável pelo pior dia da minha vida.
— Eu vou sobreviver — sussurrei. — Só pra te destruir depois.