Capítulo 2

1201 Palavras
Capítulo 2 CORVO NARRANDO O silêncio depois da guerra é pior que o barulho dos tiros. Ele não vem limpo. Não vem leve. Ele vem pesado, sujo, grudado na pele igual sangue seco. O morro voltou a respirar, as crianças voltaram a correr, os vendedores abriram as barracas, os bailes voltaram a tocar funk de madrugada. Mas dentro da minha casa, dentro da minha cabeça, tudo continuava em ruínas. Amanda morreu. E eu fiquei. Eu acordava todo dia com o cheiro de pólvora no nariz. Às vezes era só café queimado na cozinha. Às vezes era o escapamento de uma moto subindo a ladeira. Mas meu cérebro não aceitava. Ele me jogava de volta naquele dia. O rojão. O tiro. O corpo dela voando pra trás. O buraco vermelho no peito. Eu via o rosto dela em tudo. Na escova de cabelo esquecida em cima da pia. Na caneca com o nome dela escrito em canetinha. Na camiseta minha que ela usava pra dormir, jogada no fundo do armário. Eu não chorava. Chorar não mudava nada. Chorar não ressuscitava ninguém. Chorar não apagava guerra. Eu fumava. Bebia. Matava. Era isso que eu fazia. Na primeira semana depois do enterro, eu executei três caras que eu achava que podiam ter dedo na invasão. Um deles implorou. Outro jurou pela mãe que não tinha nada a ver. O terceiro nem teve tempo de falar. Nenhum deles me trouxe paz. Nenhum deles trouxe Amanda de volta. O caixão dela ainda tava fresco na terra quando Sapo entrou na minha sala, pálido, com o celular tremendo na mão. — Corvo a gente confirmou. Eu não tirei os olhos da parede. — Fala. — Foi o PCC mesmo. Ordem veio de São Paulo. Do Carlão. Meu maxilar travou. Carlão. O nome bateu dentro de mim como martelo em osso quebrado . — Responsável direto? — perguntei, com a voz baixa demais . — Ele mesmo. Mandou limpar teu território pra te dar recado. Não era pra matar tua mulher mas mataram . Eu ri. Uma risada sem humor, sem alegria, sem alma . — Eles sempre dizem que “não era pra matar”. Engraçado como sempre morre alguém que não era pra morrer. Sapo engoliu em seco. — O que a gente faz? Eu levantei devagar. Caminhei até a janela. Olhei o morro lá embaixo. Olhei o lugar onde Amanda morreu. — A gente não faz o que eles tão esperando. — Como assim? — Eu não vou matar soldado. Não vou invadir favela em São Paulo. Não vou trocar tiro com moleque ganhando quinhentos reais por semana pra segurar fuzil. Virei pra ele. — Eu vou atingir onde dói. O olhar dele mudou. — Família? — Sangue por sangue. Hoje eu decidi duas coisas: Primeiro: Carlão ia sofrer mais do que morrer. Segundo: eu não ia ter pressa. Guerra feita com raiva é guerra perdida. Então eu esperei. E assim se passou um ano. E enquanto eu esperava, eu virei um monstro. Eu fechei a casa. Fechei o coração. Fechei qualquer coisa que ainda lembrava humanidade. Passei um ano inteiro dormindo três horas por noite. Treinando tiro até minha mão sangrar. Batendo em saco de pancada até os nós dos dedos abrirem. Matando qualquer um que cruzasse meu caminho errado. Meu nome virou a lenda mais feia do que já era. Corvo não perdoava. Corvo não falava. Corvo não sorria mais. E enquanto todo mundo achava que eu tinha engolido a morte da Amanda eu estudava. Carlão tinha três casas. Uma em Osasco, uma em Alphaville, uma no litoral. Tinha dois filhos homens, metidos no corre. Tinha uma filha. Helen. Vinte anos. Faculdade particular. Vida limpa. Foto sorrindo em rede social. Vestido branco em formatura. Viagem pra Europa. Jantares caros. Carro blindado. Princesinha do tráfico. Ela não tinha nada a ver com o que o pai fazia. Perfeito. Porque gente inocente dói mais. Eu acompanhei a rotina dela por meses. Horário que saía de casa. Rota até a faculdade. Amigas. Segurança. Escolta. Esperei a falha. Ela veio num sábado chuvoso, numa rodovia federal, voltando do interior. Um carro só de escolta. Motorista novo. Segurança distraído. Celular na mão. Foi aí que eu decidi: é hoje. Nada de tiroteio longo. Nada de chamar atenção. Nada de erro. Eu fui pessoalmente. Carro preto sem placa. Três homens comigo. Arma com silenciador. Máscara. Quando o carro dela reduziu por causa de um buraco na pista, eu joguei o nosso na frente. Travei a estrada. — AGORA. Tudo durou menos de trinta segundos. O segurança morreu com um tiro na testa. O motorista desmaiou com coronhada. A porta de trás abriu. E eu vi ela. Helen. Ela tava de cinto. Bolsa no colo. Olhos arregalados. Ela não gritou. Isso me irritou na hora. — Desce — mandei. Ela me encarou. Não chorou. Não implorou. Não tremeu. Saiu do carro com as mãos erguidas. — Quem é você? — perguntou. A voz firme. Isso me deu vontade de bater nela aqui mesmo. — Eu sou o homem que vai fazer teu pai pagar — respondi. Amarrei os pulsos dela. Coloquei capuz. Joguei no banco de trás. Nenhum escândalo. Nenhum vídeo. Nenhuma testemunha viva. Perfeito. A viagem até o Rio foi longa. Ela ficou em silêncio quase todo o tempo. Quando o capuz saiu, já era noite. Já era morro. Já era minha casa. — Onde eu tô? — ela perguntou. — No infernö — respondi. Levei ela até o quarto no fundo da casa. Porta grossa. Tranca por fora. Cama simples. Banheiro pequeno. Joguei ela lá dentro . — Fica aí. Ela caiu sentada na cama . E ainda assim não chorou . Eu fiquei parado do lado de fora por alguns segundos . Meu corpo tremia . Não de medo . De ódio . De expectativa . De vontade de ouvir ela gritar . Pensei em tortura . Pensei em arrancar unha . Pensei em choque . Pensei em cortar devagar . Pensei em ligar pro Carlão e deixar ele ouvir cada som . Isso me deu um tesãö de ódio . Mas eu segurei . Não era ainda . Primeiro eu queria quebrar ela por dentro . Voltei até onde ela estava, e vi ela dormindo. Vadiä quem dorme em uma situação dessa? Ou ela está fingindo. Fodä-se! Voltei para sala . Passei horas bebendo na sala, andando de um lado pro outro, ouvindo ela se mexer no quarto, respirar, chorar baixinho só uma vez, bem baixo, achando que ninguém ouvia. Eu ouvi. E isso me deu mais raiva ainda. Peguei a arma. Carreguei. Caminhei até a porta. Minha mão tremia na maçaneta. Não de medo. De präzer. De antecipação. De justiça torta. Eu abri. Ela tava sentada na cama, costas retas, olhos vermelhos, mas secos. Me encarou. Sem pedir nada. Sem suplicar. Isso me enfureceu. — Então você acordou — Demorei? — Você sabe onde tá? — Em algum buraco que você chama de casa. Imagino que não seja um hotel cinco estrelas. — Você acha que isso é engraçado? — Não. Mas eu sempre achei que humor ácido era melhor do que chorar feito uma criança. — Sabe por que você tá aqui Helen?
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