Sob Pressão

1535 Palavras
Helena sentia o peso do dia desde o momento em que abriu os olhos naquela manhã. A reunião no evento da noite anterior havia rendido possíveis parcerias promissoras, mas a realidade era que a Costa Eventos enfrentava um turbilhão interno. Quando herdou a empresa de seu pai, sabia que não seria fácil, mas não esperava que, apenas dois anos depois, estivesse lidando com uma crise financeira tão profunda. Na sala de reuniões, Helena encarava os números na tela. Vermelhos. Sempre vermelhos. Ao seu lado, Amanda, sua fiel assistente e confidente, repassava as planilhas. — Precisamos de um milagre, Helena — disse Amanda, empurrando os óculos para cima do nariz. — Ou de um investidor com muito dinheiro e paciência. — Milagre ou investidor, ambos parecem igualmente impossíveis agora — respondeu Helena, massageando as têmporas. — Cancelar mais eventos não é uma opção, mas também não podemos bancar custos tão altos. Antes que pudesse terminar o raciocínio, seu celular começou a tocar. Ela bufou ao ver o nome da mãe piscando na tela. Sabia exatamente o que vinha a seguir. — Helena, precisamos conversar — disse Dona Márcia assim que a ligação foi atendida, ignorando completamente qualquer cumprimento inicial. — O que está acontecendo com a empresa do seu pai? Helena respirou fundo, tentando manter a calma. — Estamos passando por alguns desafios, mãe, mas estou lidando com isso. — Lidando? — A voz de Márcia subiu uma oitava. — O nome da nossa família está ligado a essa empresa. Você não pode simplesmente deixar tudo desmoronar! — Não vou deixar desmoronar! — retrucou Helena, já perdendo a paciência. — Estou trabalhando duro, mãe. Só preciso de tempo. — Tempo é algo que você não tem. Seu pai nunca teria deixado chegar a esse ponto. Helena fechou os olhos, sentindo a familiar onda de culpa se instalar. Desde que assumiu a empresa, sempre foi comparada ao pai. Ele era um homem visionário, admirado por todos, e ela sabia que não atenderia às expectativas dele — não importava o quanto se esforçasse. — Mãe, estou no meio de uma reunião. Podemos falar mais tarde? — Certamente, mas espero que você leve isso a sério, Helena. Talvez seja hora de considerar uma parceria mais... substancial. A ligação terminou antes que Helena pudesse perguntar o que a mãe quis dizer com "substancial". — Ela quer que você venda parte da empresa, não é? — Amanda perguntou, ao perceber o olhar sombrio de Helena. — Claro que quer. Sempre acha que a solução é jogar tudo para alguém resolver. Helena se levantou, caminhando até a janela de sua sala. A vista para a cidade geralmente a tranquilizava, mas hoje parecia apenas destacar o quão longe ela se sentia de encontrar uma saída. — E se sua mãe estiver certa, Helena? — Amanda sugeriu com cuidado. — Talvez trazer um investidor seja mesmo o caminho. — Eu sei — respondeu Helena, finalmente. — Mas não quero entregar o controle da Costa Eventos para qualquer um. O toque do telefone da mesa interrompeu a conversa. Amanda atendeu e, após uma breve troca de palavras, olhou para Helena com um misto de surpresa e preocupação. — É o senhor Almeida — anunciou. — Ele quer marcar uma reunião para hoje à tarde. Helena arregalou os olhos. Almeida era uma das figuras mais influentes do setor e o principal contato que ela havia feito na noite anterior. Se ele estava ligando tão cedo, era porque tinha interesse genuíno. — Agende para as três horas. E Amanda... — Já sei, preparar tudo impecavelmente — respondeu a assistente, com um leve sorriso. Helena assentiu, tentando ignorar a ansiedade que começava a borbulhar. --- A reunião com Almeida foi um sucesso inicial, mas ele deixou claro que exigiria mudanças drásticas para investir. — Gosto do seu espírito, Helena — disse ele, enquanto arrumava a gravata. — Mas as coisas precisam de uma direção firme. Sugiro que você busque parcerias estratégicas com empresas consolidadas. O conselho parecia razoável, mas Helena sabia que isso significava abrir as portas para pessoas que poderiam tomar o controle de tudo. Quando Almeida saiu, ela afundou na cadeira, exausta. Ao chegar em casa naquela noite, o jantar com sua mãe e o irmão mais velho, André, foi tenso. — Você precisa ser prática, Helena — disse André, enquanto cortava um pedaço do filé à sua frente. — Se não conseguir um investidor logo, tudo que o papai construiu vai desmoronar. — Não é tão simples, André — respondeu ela, tentando conter a frustração. — Talvez você devesse ouvir o Rafael Montenegro — sugeriu Márcia, de repente. Helena quase engasgou. — Ele? Aquele homem é insuportável! — Mas é um dos empresários mais bem-sucedidos da atualidade — retrucou a mãe. — E, com o histórico dele, seria uma aliança poderosa. Helena bufou, empurrando o prato para longe. — Eu prefiro falir a ter que me aliar a alguém como ele. Mas, no fundo, ela sabia que poderia não ter escolha. Na manhã seguinte, Helena chegou ao escritório com o humor ainda mais pesado. O jantar com a família a deixou exausta emocionalmente, e a ideia de lidar com mais um dia de decisões difíceis não era exatamente animadora. Logo ao entrar na sala, encontrou Amanda a esperando com um café e uma pilha de documentos. — Trouxe café forte. Achei que você fosse precisar — disse Amanda, colocando a xícara sobre a mesa de Helena. — Você é um anjo disfarçado de assistente — respondeu Helena com um sorriso cansado, pegando a bebida. — Antes de começarmos, tem alguém aqui para falar com você. — Quem? — Dona Rosa. Ela disse que é muito amiga do seu pai e que tem algo importante para tratar com você. Helena franziu o cenho. Dona Rosa era uma figura conhecida na empresa e na vida de seu pai. Uma senhora cheia de energia, sempre vestindo roupas chamativas e com um humor tão ácido quanto carismático, ela era a última pessoa que Helena esperava ver naquele momento. — Pode mandar entrar. Poucos minutos depois, Dona Rosa entrou na sala como uma tempestade, vestindo um casaco de estampa de oncinha e óculos de sol que parecia mais apropriado para uma celebridade do que para uma consultora. — Helena, minha menina, você está um caco! Esse cabelo precisa de um tratamento urgente, e essa postura... cadê a confiança? — disparou Rosa, tirando os óculos e analisando Helena de cima a baixo como se estivesse avaliando uma obra de arte inacabada. — Bom dia pra você também, Dona Rosa — respondeu Helena, tentando segurar o riso. — Bom dia nada, querida. Estamos aqui para salvar a Costa Eventos, e não há tempo para formalidades. Helena indicou a cadeira em frente à mesa. — Pode se sentar, Dona Rosa. — Sentar? Eu só sento quando as coisas estão sob controle, e claramente não estão. Mas já que você insistiu… — Ela se acomodou, cruzando as pernas e ajeitando o casaco com um exagero digno de um drama. — O que a traz aqui hoje? — Minha intuição de que você precisa de mim. E, como sempre, eu estou certa. Helena suspirou, já se preparando mentalmente para o que estava por vir. — Estou ouvindo. — Primeiro, vamos começar com o básico: sua empresa está em apuros, você está mais perdida que cebola em salada de fruta, e todo mundo sabe disso. — Obrigada pela sutileza. — É o que me torna indispensável — retrucou Rosa com um sorriso malicioso. — Agora, vamos ao ponto. Você precisa de um aliado. — Deixe-me adivinhar… Rafael Montenegro. — Ah, veja só, ela tem cérebro! — exclamou Rosa, batendo palmas como se estivesse assistindo a uma peça de teatro. — Não vou pedir ajuda a ele. — Claro que vai. Porque, querida, Rafael é exatamente o tipo de pessoa que você odeia… e exatamente o tipo de pessoa que resolve problemas. — Ele é insuportável, arrogante e… — Bonito, rico e esperto — completou Rosa, interrompendo. — Sério, Helena, precisa parar de pensar com o coração e começar a pensar com o bolso. Helena riu sem humor. — Você acha que ele aceitaria ajudar assim, do nada? — Claro que não! Ele vai fazer você suar, querida. Homens como Rafael adoram ver a gente se contorcer. Mas é aí que entra a sua inteligência. Se ele quer sua empresa, faça ele trabalhar por ela. — E se der errado? Rosa revirou os olhos dramaticamente. — Só dá errado quando você desiste, e eu não criei você para ser uma desistente. — Você não me criou, Rosa. — Detalhes técnicos. Agora, vai pensar na minha proposta ou prefere que eu arraste você até ele? Porque, sinceramente, estou considerando. Helena balançou a cabeça, mas não conseguiu evitar um sorriso. Por mais irritante que Rosa pudesse ser, ela tinha um jeito único de fazer as coisas parecerem menos assustadoras. Rosa se levantou, ajeitando o casaco com um gesto teatral. — Pense nisso, minha querida. E lembre-se: o orgulho não paga boletos, mas Rafael Montenegro pode. Com isso, Rosa saiu da sala, deixando para trás um rastro de perfume floral e uma Helena dividida entre o orgulho e a necessidade.
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