O escritório de Rafael Montenegro era um reflexo da sua personalidade: sofisticado, moderno e impecavelmente organizado. O grande painel de vidro permitia uma visão panorâmica da cidade, enquanto a mobília minimalista exalava poder e elegância.
Naquela manhã, porém, Rafael não estava no clima de apreciar a vista ou organizar seus pensamentos. Sentado em sua cadeira de couro preto, ele massageava as têmporas enquanto o som agudo de vozes exaltadas ecoava pela sala de reuniões ao lado.
A porta se abriu, e Henrique, seu braço direito e conselheiro financeiro, entrou com uma expressão grave.
— Eles estão ficando impacientes, Rafael.
— Como se isso fosse novidade — respondeu, com um suspiro. — O que querem agora?
Henrique puxou uma cadeira e se sentou de frente para ele.
— Garantias. Mais do que isso, querem estabilidade emocional.
Rafael ergueu uma sobrancelha, surpreso e irritado.
— Estabilidade emocional? Desde quando isso faz parte do jogo de negócios?
Henrique deu de ombros.
— Desde que os investidores começaram a se preocupar mais com imagens públicas e menos com os números. Um dos líderes do grupo até mencionou que você precisa mostrar que está em um “compromisso estável”. Eles acham que sua fama de solteiro inveterado não combina com a visão de longo prazo que querem para os projetos.
Rafael riu, mas sem humor.
— Então, agora eu preciso de uma esposa para fechar contratos? Isso está indo longe demais.
— Não necessariamente uma esposa, mas algo que transmita a ideia de que você está equilibrado, focado.
— Como se uma aliança no dedo resolvesse o problema de todo o mercado financeiro.
Henrique o encarou com seriedade.
— Não podemos ignorar isso, Rafael. Estamos em um momento crucial. Esse acordo com os investidores vai definir os próximos passos da Montenegro Corporation.
Rafael ficou em silêncio, refletindo. Ele sabia que Henrique tinha razão. A empresa estava em expansão e precisava daquele capital para solidificar sua posição no mercado. Mas a ideia de ceder à pressão dos investidores o irritava profundamente.
— E o que você sugere, Henrique? Que eu arrume uma noiva de mentira?
— Não seria a primeira vez que alguém faria isso.
— Não sou “alguém”, Henrique. Sou Rafael Montenegro.
Henrique sorriu de canto.
— E é exatamente por isso que eles esperam que você encontre uma solução criativa.
A conversa foi interrompida por uma batida na porta. Juliana, a secretária de Rafael, entrou com um tablet em mãos.
— Senhor Montenegro, os investidores pediram para falar com o senhor novamente.
Rafael se levantou, ajeitando o paletó com um gesto automático.
— Que comecem os jogos.
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A sala de reuniões
O clima na sala era tenso. Cinco investidores sentados em torno da mesa olhavam para Rafael com expressões que variavam entre a paciência forçada e a expectativa.
— Montenegro, acreditamos no potencial da sua empresa — começou um dos homens, um senhor de cabelos grisalhos e terno impecável. — Mas precisamos garantir que você esteja completamente comprometido com a estabilidade que buscamos.
Rafael manteve a calma, embora por dentro quisesse revirar os olhos.
— Entendo suas preocupações, senhor Fontes. Mas posso garantir que minha vida pessoal nunca interferiu nos resultados da empresa.
— E é isso que precisamos mudar — rebateu Fontes. — Estamos falando de grandes cifras, e queremos confiar não apenas na sua habilidade de negócios, mas na sua imagem.
— Qual exatamente é a sua sugestão? — perguntou Rafael, tentando não soar irônico.
Uma mulher, que até então havia ficado em silêncio, interveio.
— Talvez algo que demonstre que você está estabilizado, com planos concretos para o futuro. Não apenas no profissional, mas no pessoal. Isso inspira confiança.
Rafael se inclinou levemente sobre a mesa, com um sorriso cortês, mas frio.
— Então, para vocês, estabilidade emocional é mais importante que resultados financeiros?
Fontes sorriu, como se já tivesse preparado aquela resposta.
— No mercado atual, ambas são essenciais.
Rafael se recostou na cadeira, respirando fundo.
— Muito bem. Vou pensar na questão e dar uma resposta em breve.
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De volta ao escritório
Depois da reunião, Rafael voltou ao seu escritório e encontrou Henrique o esperando com duas xícaras de café.
— E aí? — perguntou Henrique.
Rafael tomou um gole do café antes de responder.
— Eles querem que eu vire um modelo de estabilidade emocional.
— Não parece tão complicado.
Rafael riu.
— Para você, talvez. Mas eu não sou o tipo de homem que gosta de exibir uma vida que não tem.
Henrique olhou para ele com uma expressão pensativa.
— Talvez você só precise de alguém que consiga acompanhar seu ritmo e esteja disposta a fazer parte de um plano.
Rafael arqueou uma sobrancelha.
— Um plano, é?
Henrique assentiu.
— Algo que atenda às exigências dos investidores, sem comprometer sua liberdade.
Rafael ficou em silêncio, considerando as palavras de Henrique.
— Parece que preciso começar a pensar em possibilidades.
Henrique sorriu.
— E eu tenho certeza de que você encontrará a pessoa certa para isso, mesmo que seja a mais improvável.
Rafael não respondeu, mas a imagem de Helena, com seu temperamento explosivo e olhos que brilhavam de raiva durante o evento, passou pela sua mente.
...
Rafael estava sentado em sua cadeira de couro, girando o celular entre os dedos enquanto observava a cidade pela janela. A proposta de Henrique ainda martelava em sua mente. "Algo que atenda às exigências dos investidores, sem comprometer sua liberdade." Ele odiava a ideia de se prender a qualquer coisa fora do seu controle, mas sabia que sua empresa estava na linha.
O toque do interfone o trouxe de volta à realidade.
— Senhor Montenegro, Henrique já está na sala de reuniões, aguardando o senhor — informou Juliana com profissionalismo.
— Obrigado, já estou indo — respondeu, endireitando a postura antes de sair do escritório.
Caminhando pelos corredores da sede da Montenegro Corporation, Rafael sentia o peso de cada decisão recente. Sabia que estava sendo observado por todos: a equipe, os sócios e, principalmente, os investidores. Ele sempre transmitiu a imagem de confiança inabalável, mas naquele momento, tudo parecia prestes a desmoronar.
Ao entrar na sala de reuniões, encontrou Henrique debruçado sobre uma apresentação em seu laptop.
— Finalmente, Rafael. Achei que tivesse fugido — brincou Henrique, mas o tom sério não escapou a Rafael.
— Estava refletindo sobre o "brilhante" plano que você sugeriu mais cedo — retrucou Rafael, com um tom levemente sarcástico.
Henrique fechou o laptop e se inclinou para frente, cruzando os dedos sobre a mesa.
— Não é um plano brilhante, Rafael. É uma necessidade. Os investidores estão nervosos, e você sabe como eles funcionam. Eles querem estabilidade, tanto na empresa quanto na sua imagem pessoal.
— Isso é ridículo, Henrique. Eu sou CEO de uma empresa de tecnologia, não um astro de cinema. Minha vida pessoal não deveria estar em debate.
— Concordo. Mas o que deveria ser não é o que estamos lidando. Eles estão procurando desculpas para pressionar, e sua imagem de "playboy" tem sido um alvo fácil.
Rafael suspirou e passou a mão pelo rosto, frustrado.
— E qual seria a solução prática para isso?
Henrique abriu um sorriso que Rafael reconheceu imediatamente como o prelúdio de algo audacioso.
— Um relacionamento estável. Alguém que possa estar ao seu lado, trazendo a tal "estabilidade emocional" que eles tanto exigem.
— Isso soa como uma piada — disse Rafael, balançando a cabeça.
— Pode até parecer, mas é funcional. Pense nisso: você já é visto como um homem de negócios brilhante. Imagine se eles acreditassem que você também tem um "lar estável".
Rafael se recostou na cadeira, considerando as palavras de Henrique. A ideia ainda parecia absurda, mas ele não podia negar a lógica por trás dela.
— E como exatamente você sugere que eu faça isso? — perguntou, com um tom de desafio.
Henrique deu de ombros.
— Simples. Encontre alguém disposto a entrar nesse acordo. Pode ser um contrato temporário, algo que beneficie os dois lados.
— Você está me sugerindo um casamento de fachada?
— Casamento, namoro, qualquer coisa que funcione. A questão é que precisa parecer real.
Rafael soltou uma risada amarga.
— E onde exatamente eu encontraria alguém disposto a isso?
Henrique abriu um sorriso enigmático.
— Isso, meu amigo, é com você. Mas acredito que a pessoa certa pode estar mais próxima do que você imagina.
As palavras de Henrique ecoaram na mente de Rafael enquanto ele deixava a sala de reuniões. Apesar de toda a sua resistência à ideia, uma imagem insistente invadia seus pensamentos: Helena Costa.
Ela era tão irritante quanto fascinante, e o confronto recente entre eles ainda estava fresco em sua memória. Uma aliança com alguém como ela parecia impossível... e, ao mesmo tempo, estranhamente promissora.
Enquanto retornava ao seu escritório, Rafael pegou o celular, olhando para a agenda de compromissos. Ele sabia que precisaria agir rápido, mas ainda não estava certo de como dar o primeiro passo nesse plano ousado.