JOGO DE CIÚMES

1033 Palavras
O jantar seguia seu curso como se nada tivesse acontecido. Risos calculados, brindes elegantes, discursos vazios sobre oportunidades e futuro. Magno tentava se forçar a entrar naquele ritmo automático que conhecia tão bem — aquele modo em que ele desligava a parte humana e operava apenas como empresário, estrategista, anfitrião impecável. Funcionava quase sempre. Quase. Ele respondeu perguntas, fez comentários genéricos, ouviu investidores falando sobre cifras que já não o impressionavam. Manteve o rosto relaxado, a postura firme, o copo de bebida intocado por tempo demais. Mas os olhos… os olhos insistiam em traí-lo. Porque, em determinado momento, quando se virou para acompanhar um garçom servindo a mesa ao lado, ele viu. Gabriella estava novamente com Henrique. Não tão próximos quanto antes. Não ostensivos. Nada que alguém pudesse apontar como inadequado. E ainda assim, era óbvio. Eles conversavam inclinados um em direção ao outro, rindo baixo. Henrique gesticulava com confiança, encostando levemente na mesa, ocupando espaço demais. Gabriella ouvia com atenção exagerada, a cabeça levemente inclinada, aquele meio sorriso que ela sabia usar quando queria parecer interessada sem se comprometer. Magno sentiu o maxilar endurecer. — Claro… — murmurou para si mesmo. Ele desviou o olhar imediatamente. Não iria cair de novo. Não iria agir por impulso. Não iria dar a ela exatamente o que ela queria: reação. Respirou fundo. Foi então que decidiu mudar de estratégia. Se Gabriella queria provocar, ele sabia jogar esse jogo há muito mais tempo. Magno olhou ao redor do salão com mais atenção, como quem avalia um tabuleiro. Rostos conhecidos, sobrenomes importantes, alianças velhas e novas. Até que seus olhos pousaram nela. Sentada algumas mesas à frente, conversando com dois homens mais jovens, estava Aline Duarte. Milionária discreta. Investidora silenciosa. Conhecida por escolher bem com quem se envolvia — nos negócios e fora deles. Elegante sem esforço, presença firme, olhar inteligente. Não precisava chamar atenção; ela simplesmente tinha. Magno a conhecia de outros eventos. Conversas breves, respeitosas. Sempre cordiais. Sempre com uma tensão sutil que nunca havia sido explorada. Ele pensou em Bruna por um segundo. Bruna não estava ali. Tinha outro compromisso, outro evento, outra agenda. A ausência dela tornava tudo mais… solto. Magno hesitou apenas um instante. Depois se levantou. Caminhou até a mesa de Aline com naturalidade, como quem faz aquilo todos os dias. Cumprimentou os homens que estavam com ela, trocou algumas palavras rápidas e, sem esforço algum, acabou ocupando uma cadeira ao lado dela. — Não esperava te ver aqui — Aline disse, com um sorriso curioso. — Eu poderia dizer o mesmo — ele respondeu. A conversa começou leve. Comentários sobre o evento, o local, o cansaço de agendas lotadas. Magno relaxou um pouco — ou pelo menos fingiu relaxar. Aline era inteligente, articulada, direta. Não exigia esforço excessivo. E então, como se fosse atraída por um ímã invisível, Gabriella olhou na direção deles. Ela percebeu no mesmo instante. Magno notou o olhar de canto. Gabriella continuou conversando com Henrique, mas algo nela mudou. O riso ficou mais curto. A postura, um pouco mais rígida. Ela fez uma pergunta qualquer, mas os olhos voltavam, repetidamente, para a mesa de Magno. E ele viu. Viu o exato momento em que a provocação deixou de ser diversão. Gabriella sentiu algo diferente se formar no peito. Não era surpresa. Não era exatamente ciúme — ainda. Era indignação. Ela observava Magno inclinado na direção de Aline, sorrindo de um jeito que ele raramente usava com ela. Um sorriso solto, fácil, seguro. Aquele sorriso que dizia: estou confortável aqui. Isso a incomodou mais do que qualquer flerte explícito. — Você parece distraída — Henrique comentou, seguindo o olhar dela. — Não — Gabriella respondeu rápido demais. — Só estou observando o ambiente. Henrique sorriu. — Interessante… — disse, acompanhando o olhar. — Conhece aquela mulher? — Não — Gabriella respondeu. E o que mais a irritava não era Aline. Era a facilidade com que Magno parecia ter seguido em frente naquela dinâmica invisível entre eles. Ela apertou os dedos em torno da taça. — E você? — perguntou a Henrique, de repente mais interessada. — Sempre frequenta eventos assim? Henrique percebeu a mudança de tom e se animou. — Sempre que posso. Mas confesso que a companhia torna tudo mais… interessante. Gabriella sorriu. Mas agora era um sorriso diferente. Calculado. Ela começou a fazer perguntas. A rir um pouco mais alto. A se inclinar minimamente em direção a Henrique. Nada exagerado. Apenas o suficiente. Do outro lado do salão, Magno notou. Notou quando Gabriella virou ligeiramente o corpo na direção de Henrique. Quando tocou a borda da mesa com mais intenção. Quando sustentou o olhar por tempo demais. E, contra a própria vontade, sentiu algo se revirar dentro dele. Aline falava sobre um fundo de investimentos europeu, mas Magno precisou pedir que ela repetisse. — Você está bem? — ela perguntou, observadora. — Estou — ele respondeu. — Só um pouco cansado. Ela arqueou a sobrancelha, como quem não acredita totalmente. — Esses eventos fazem isso com a gente. Ele sorriu de volta. — Fazem. E então fez algo que não havia planejado. Riu de verdade de um comentário dela. Um riso solto, audível. Do outro lado do salão, Gabriella ouviu. E foi ali que a raiva se instalou de vez. Ela não esperava isso. Esperava incômodo, sim. Um olhar duro. Uma interrupção. Talvez até uma palavra atravessada depois. Mas não indiferença. Não aquele sorriso. — Você é sempre tão controlado assim? — ela perguntou a Henrique, de repente. — Só quando preciso — ele respondeu. — Mas gosto de pessoas que não seguem regras demais. Ela assentiu lentamente. — Eu também. Magno e Gabriella continuavam conectados por algo invisível. Um fio tenso que se esticava a cada gesto, a cada riso oferecido ao outro errado. Ele falava com Aline, mas pensava nela. Ela falava com Henrique, mas pensava nele. E nenhum dos dois estava realmente ganhando. A disputa não era sobre quem chamava mais atenção. Era sobre quem perderia o controle primeiro. E, naquela noite, enquanto o jantar seguia e o salão brilhava sob luzes artificiais, ambos começavam a perceber algo desconfortável: o jogo tinha passado do ponto da provocação. Agora, era pessoal.
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