ALTITUDE

963 Palavras
O hangar ainda estava silencioso quando chegaram. O jatinho particular de Magno repousava ali como uma extensão do próprio dono: discreto, elegante, caro demais para chamar atenção. Nada de ostentação desnecessária. Tudo calculado para transmitir poder sem esforço. Gabriella parou por um instante antes de subir a escada. Observou o avião, depois olhou para Magno, que conversava rapidamente com o piloto, conferindo detalhes da rota, do clima, do tempo estimado de voo. Ele estava no modo automático. Profissional. Controlado. Era sempre assim antes de algo importante. Ela subiu os degraus devagar, sentindo o leve vento bater no vestido claro que usava. Um tecido fluido, simples demais para parecer planejado — mas que se movia com o corpo de um jeito impossível de ignorar. Magno entrou logo atrás. O interior do jatinho era silencioso, confortável, envolto naquele cheiro neutro de couro limpo e ar condicionado perfeito. Poltronas largas, iluminação suave, mesas discretas. Um espaço pequeno o suficiente para não permitir fuga. Gabriella escolheu sentar-se de frente para ele. Não por acaso. Cruzou as pernas com calma, apoiou o braço no descanso, observando a janela enquanto o avião começava a se mover lentamente pela pista. Magno sentou-se do outro lado, abriu o tablet, fingiu revisar documentos. Fingiu. O silêncio entre eles não era vazio. Era atento. O avião decolou com suavidade, e Gabriella sentiu aquela leve pressão no corpo, o estômago reagindo à subida. — Nunca me acostumo com isso — comentou, casual, sem tirar os olhos da paisagem lá fora. — A maioria das pessoas gosta — respondeu ele. — Dá uma sensação de controle. Ela sorriu de canto. — Engraçado… pra mim é o contrário. Ele levantou os olhos, curioso. — Por quê? — Porque, lá em cima, não importa quem você é. Se algo der errado… ninguém manda em nada. Ela virou o rosto para ele. — Nem você. Magno sustentou o olhar por um segundo a mais do que devia. — Prefiro não pensar nisso. Ela descruzou as pernas, abrindo lentamente, ajustando-se na poltrona. Não houve pressa. Não houve intenção explícita. Mas o movimento chamou atenção. Magno percebeu no mesmo instante, conseguindo ver a calcinha de renda — e se odiou por isso. Desviou o olhar rápido demais, como se tivesse sido pego fazendo algo errado. — Quer beber alguma coisa? — perguntou, levantando-se num reflexo. — Água tá ótimo — respondeu ela. Ele serviu, entregou o copo, evitando contato além do necessário. Os dedos quase se tocaram, e aquela proximidade mínima foi suficiente para disparar algo dentro dele. Ela agradeceu com um sorriso calmo. Inocente demais. Ou perigosamente consciente. Gabriella apoiou o copo na mesinha, recostou-se na poltrona, ajeitando o vestido sobre as pernas. O tecido escorregou um pouco mais do que antes. Nada escandaloso. Nada indevido. Mas o suficiente para existir. Magno sentiu o corpo reagir de novo, traiçoeiro, automático. A mente gritava para ignorar. Para focar em qualquer outra coisa. Em números. Em contratos. Em responsabilidades. — Você tá quieto — ela comentou. — Nervoso com o evento? — Não — respondeu rápido. — Só concentrado. — Hum. Ela inclinou levemente o tronco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, aproximando-se sem invadir. — Sempre que você fica assim, parece que tá lutando contra alguma coisa. Ele respirou fundo. — Você observa demais. — Eu convivo com você desde pequena — disse, com naturalidade. — Aprendi a perceber quando você tá… diferente. Essa palavra ficou no ar. Diferente. Ela se recostou novamente, descruzando e cruzando as pernas outra vez, agora do outro lado. O gesto foi lento, quase distraído, como se ela estivesse apenas tentando ficar confortável durante o voo. Magno sentiu o maxilar tensionar. — Gabriella… — começou, mas parou. — O quê? Ele hesitou. — Nada. Ela o observou com atenção. — Você parece cansado — disse. — Devia descansar um pouco. O voo é tranquilo. — Prefiro ficar acordado. — Por quê? — Porque… — ele suspirou. — Porque é mais fácil. Ela sorriu de leve, como se tivesse entendido algo que ele ainda tentava negar. O silêncio voltou a se instalar. O motor do avião fazia um som constante, quase hipnótico. Lá fora, as nuvens passavam devagar, um branco infinito que parecia apagar o mundo. Gabriella tirou os sapatos, puxou os pés para a poltrona, acomodando-se de lado. O vestido subiu um pouco mais com o movimento, revelando mais pele do que antes. Magno não queria olhar. Mas olhou. Foi rápido. Um segundo. Dois. O suficiente para sentir aquele aperto no peito, aquela mistura de culpa e desejo que o deixava sem chão. — Você sempre foi muito protetor — ela comentou, quebrando o silêncio. — Às vezes acho que você esquece que eu cresci. Ele fechou os olhos por um instante. — Eu não esqueço — respondeu, baixo. — Eu escolho lembrar do que importa. — E o que importa? Ele abriu os olhos. — Que você é importante. A resposta saiu sincera demais. Ela ficou em silêncio, absorvendo. Depois sorriu. Não de vitória. De paciência. — Eu sei — disse. — E gosto disso. O avião seguia estável. Mas dentro dele, Magno sentia como se estivesse perdendo altitude. Cada gesto dela parecia pequeno demais para justificar o impacto que causava. Cada olhar, cada movimento, cada frase dita com aparente inocência era uma provocação impossível de apontar, impossível de confrontar. Porque, se ele falasse algo… Teria que admitir que estava vendo. E admitir isso seria cruzar uma linha que ele jurava proteger. Gabriella encostou a cabeça no apoio, fechou os olhos, fingindo descansar. Mas não dormia. Sentia o olhar dele, mesmo quando tentava esconder. E sabia que aquela viagem… Aquela proximidade forçada… Aquela altitude… Não era apenas física. Era emocional. E quanto mais alto iam, mais difícil ficava manter os pés no chão.
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