INSTABILIDADE

932 Palavras
O aviso soou discreto, quase educado. Um leve sinal luminoso acendeu acima dos assentos, seguido pela voz calma do piloto informando que atravessariam uma área de instabilidade atmosférica. Nada sério. Apenas alguns minutos de turbulência. Magno reagiu automaticamente, levantando os olhos do tablet. — Melhor colocar o cinto — disse, num tom prático, mais para si do que para ela. Gabriella assentiu, mas demorou. Estava em pé, mexendo numa pequena bolsa próxima à poltrona, procurando algo que nem ela mesma parecia saber exatamente o que era. — Já vou — respondeu. — Só um segundo. O avião começou a vibrar levemente. Nada brusco ainda. Apenas aquele balanço quase imperceptível que mais se sente do que se vê. — Gabriella… — Magno insistiu, agora com uma nota de preocupação real na voz. Ela se virou para ele, dando dois passos em sua direção. Foi quando aconteceu. O avião deu um solavanco mais forte. Curto. Seco. Inesperado. Gabriella perdeu o equilíbrio. Não houve tempo para pensar, nem para se segurar. O corpo dela foi projetado para frente, e o único ponto de apoio possível era ele. Ela caiu diretamente sobre Magno. Não no chão. Não no braço da poltrona. No colo dele. O impacto foi contido, mas próximo demais. O peso dela se acomodou de forma desajeitada, as mãos buscando apoio no peito dele por reflexo, o rosto ficando perigosamente perto. Roçando levemente nele, não por querer, mas pela instabilidade da aeronave, fazendo ela chacoalhar um pouco. O mundo pareceu parar por um segundo inteiro. Magno congelou. O corpo reagiu antes da mente — uma resposta instintiva, involuntária, completamente fora do controle racional. O calor subiu rápido demais, a respiração falhou por um instante. E claro, uma ereçã0 se formou na calça dele. — Gabriella… — ele murmurou, tenso. — Ai… — ela sussurrou, mais surpresa do que machucada. Ela não se levantou imediatamente. Ficou ali por um segundo a mais do que o necessário. Tempo suficiente para perceber. Ela sentiu a rigidez. E viu aquele volume crescente. Não precisava olhar diretamente. O constrangimento dele era óbvio demais. O jeito como o corpo dele ficou rígido. A respiração contida. O olhar desviando para qualquer lugar que não fosse ela. Ela levantou devagar, como se estivesse apenas se recompondo do susto. — Desculpa — disse, num tom leve demais para a situação. — Não imaginei que ia balançar assim. — Você se machucou? — perguntou rápido demais. — Não… acho que não. Ela voltou para a poltrona, sentando-se com calma, prendendo o cinto agora. O avião continuava tremendo levemente, mas o verdadeiro abalo tinha sido outro. Magno passou a mão pelo rosto, visivelmente desconcertado. — Você devia ter sentado antes — disse, tentando recuperar o tom de autoridade, mas a voz saiu um pouco rouca. — Eu sei — respondeu ela. — Falha minha. Silêncio. Denso. Carregado. Incômodo. Ele ajeitou a camisa, cruzou os braços, depois descruzou. Não sabia o que fazer com as mãos, com o corpo, com os pensamentos. — Turbulência costuma pegar as pessoas desprevenidas — continuou, como se estivesse explicando algo técnico. — Nada demais. — Eu sei — ela repetiu, agora olhando diretamente para ele e as vezes para o volume exposto na calça. Havia algo diferente no olhar dela. Não provocação aberta. Mas consciência. Ela sabia exatamente o efeito que aquele acidente tinha causado. E escolheu fingir que não. Gabriella apoiou a cabeça no encosto, respirando fundo, como se estivesse tentando se acalmar. Mas os olhos permaneciam atentos, observando cada micro reação dele. Magno evitava encará-la. O corpo ainda não tinha voltado completamente ao normal, e ele estava dolorosamente consciente disso. Da própria fraqueza. Da resposta que não deveria existir. — Quer água? — perguntou, levantando-se rápido demais. — Já tenho — respondeu ela, erguendo o copo com um sorriso tranquilo. Ele assentiu, sem graça, e voltou a se sentar. O avião deu mais um pequeno solavanco. Dessa vez, Gabriella não se levantou. Apenas deixou a perna se mover um pouco, ajustando a posição. O vestido deslizou de leve. Nada exagerado. Nada que pudesse ser acusado. Mas suficiente. Magno fechou os olhos por um instante. Você está enlouquecendo, pensou. Ela não está fazendo nada. É só uma menina confortável no próprio corpo. Você é que está errado. — Você ficou tenso — ela comentou, com doçura. — Tá tudo bem? Ele abriu os olhos, encontrou o rosto dela. — Claro — respondeu. — Só… susto. — Entendo. Ela inclinou a cabeça, observando-o com curiosidade quase infantil. — Você sempre reage assim quando algo sai do controle? A pergunta atingiu mais fundo do que parecia. — Nem sempre — respondeu, depois de um segundo. — Mas tento não deixar que aconteça. — Deve ser cansativo — disse ela, sincera. — Carregar tudo sozinho. Ele não respondeu. Porque, naquele momento, tudo o que ele queria era distância. E tudo o que o voo oferecia era proximidade. Gabriella descruzou as pernas novamente, mexeu no cinto, ajeitou o tecido do vestido com movimentos calmos, deliberadamente neutros. Cada gesto parecia dizer: não estou fazendo nada. E isso era o mais perigoso. Magno se obrigou a olhar pela janela, fixar-se nas nuvens, na linha do horizonte, em qualquer coisa que não fosse o corpo dela tão próximo, tão presente, tão consciente de si. O avião começou a estabilizar. Mas dentro dele, a turbulência só aumentava. E Gabriella sabia. Sabia porque, mesmo sem tocar, mesmo sem dizer, mesmo fingindo inocência, ela sentia que tinha cruzado um ponto invisível. Não um limite físico. Mas um psicológico. E esses… Esses eram muito mais difíceis de desfazer.
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