CINQUENTA POR CENTO

1410 Palavras
A distância de Gabriella deixou de ser emocional. Virou comportamento. Virou agenda cheia. Virou reuniões marcadas sem consultar. Virou respostas objetivas demais. Virou “senhor Magno” em ambiente corporativo. E isso começou a incomodar. Não de imediato. Magno, nos primeiros dias, interpretou como orgulho ferido. Deu espaço. Ficou na dele. Esperou que o tempo fizesse o que sempre fazia: acomodasse as coisas. Mas o tempo não acomodou. Ele percebeu na segunda-feira seguinte. O prédio da empresa — vidro espelhado, arquitetura moderna, 28 andares no coração financeiro da cidade — sempre foi território dele. Funcionários o cumprimentavam com respeito imediato. Diretores ajustavam postura quando ele passava. Naquela manhã, porém, algo estava diferente. As pessoas também estavam cumprimentando Gabriella com outro tipo de postura. Não era só simpatia. Era deferência. — Bom dia, dona Gabriella. Dona. Ele franziu levemente o cenho ao ouvir. Ela respondeu com um sorriso elegante. — Bom dia, Cláudio. Sem olhar para Magno. Entraram no elevador privativo. Silêncio. O painel refletia os dois. Ela impecável em um tailleur claro, cabelo preso, postura firme. Ele de terno escuro, expressão controlada demais. — Reunião às dez com o jurídico — ela comentou, mexendo no tablet. Ele ergueu os olhos. — Qual reunião? — Reestruturação societária. A palavra ecoou. Ele manteve a voz neutra. — Eu não fui informado. — Agora está. O elevador subiu. O ar ficou mais pesado a cada andar. O escritório de Magno ocupava metade do último andar. Vidros amplos, vista para a cidade, mesa de madeira escura, obras de arte discretas. Gabriella entrou sem bater. Ele estava terminando uma ligação. Ela esperou. Braços cruzados. Postura firme. Ele desligou. — Algum problema? Ela fechou a porta atrás de si. — Sim. Ele se recostou na cadeira. — Fala. Ela caminhou até a mesa dele. Não pediu para sentar. Não sentou. — Eu não vou mais atuar como sua assistente. Ele ficou alguns segundos em silêncio. — Você nunca foi só minha assistente, eu te ensinei tudo e você teve acesso à tudo. Ela arqueou a sobrancelha. — Não oficialmente. O tom estava diferente. Não era a Gabriella magoada da mansão. Era a herdeira. — Eu quero um cargo executivo. Direto. Sem rodeio. Ele apoiou os antebraços na mesa. — Você nunca trabalhou aqui. — Eu acompanhei tudo desde que meu pai era vivo. — Acompanhar não é gerir. — Eu tenho formação. — Formação não substitui experiência. O maxilar dela tensionou. — Você começou sem experiência. Ele não respondeu de imediato. — Eu construí isso — ele disse, firme. — Junto com meu pai. Silêncio. A frase caiu pesada. — E cinquenta por cento disso é meu — ela completou. Ele ergueu os olhos devagar. — Você está usando isso contra mim? — Estou usando o que é meu por direito. O tom dela tinha algo que ele nunca tinha visto antes. Orgulho. Talvez soberba. Talvez defesa. — Você não sabe o que está pedindo — ele disse. — Eu sei exatamente. Ela se inclinou levemente sobre a mesa. — Eu não quero mais ser vista como a menina protegida. — Isso não é sobre proteção. — É sobre controle. Ele se levantou. Devagar. — Você acha que eu controlo você? — No trabalho? Sim. Ele respirou fundo. — Eu não posso colocar você em um cargo alto só porque é herdeira. — Então coloca porque eu sou capaz. — Você ainda não provou. Ela riu, incrédula. — Você não me dá espaço para provar. A voz começou a subir. Ele manteve firme. — Empresa não é laboratório para testar maturidade. — Não me trata como imatura! — Você está agindo como uma! A frase saiu mais dura do que ele pretendia. O silêncio ficou cortante. — Eu sou sócia — ela disse, cada palavra separada. — Não funcionária. Ele passou a mão pelo rosto. — Você não tem vivência de mercado. — Meu pai confiava em mim. — Seu pai te protegia. Ela deu um passo para trás, como se tivesse levado um tapa. — Não fala do meu pai assim. — Eu estou falando da realidade. — A sua realidade! O tom dela já não era baixo. A porta estava fechada. Mas vozes altas atravessam vidro. — Você quer poder porque está com raiva — ele disse. Ela o encarou como se aquilo fosse insulto. — Eu quero poder porque é meu. — Você quer provar alguma coisa para mim. — Eu não preciso provar nada para você! Ele bateu levemente a mão na mesa. — Então para de agir como se isso fosse disputa pessoal! — É disputa, sim! Silêncio abrupto. Os dois perceberam. Mas ninguém voltou atrás. — Você sempre decide tudo sozinho — ela continuou. — Sempre acha que sabe o que é melhor para mim. — Porque eu tenho mais experiência! — Você tem mais idade! A frase cortou. Ele respirou fundo. — Eu não vou entregar uma diretoria para você sem preparo. — Então me prepara. — Isso leva tempo. — Eu tenho tempo. — Não desse jeito. — Que jeito? — Impositivo. Ela cruzou os braços. — Você está com medo. Ele estreitou os olhos. — De quê? — De perder o controle da empresa. Ele deu uma risada seca. — Eu não tenho medo de você. — Devia. O silêncio que veio depois era perigoso. Não era mais só empresarial. Era pessoal infiltrado na discussão. E foi nesse momento que a porta se abriu. Sem bater. Bernardo entrou. Alto, postura elegante, olhos azuis claros, terno impecável. Uns trinta e poucos anos, um dos tantos advogados da empresa. Segurança tranquila. Ele parou ao perceber a tensão. — Desculpem interromper. O olhar dele passou de Magno para Gabriella. — Eu ouvi a discussão do corredor. Magno não gostou do tom. — Isso é uma conversa privada. Bernardo manteve a postura calma. — Quando envolve estrutura societária, deixa de ser só privada. Gabriella respirou fundo. — Está tudo bem, Bernardo. Ele olhou para ela. — Não parece. Magno cruzou os braços. — Você veio defender quem? Bernardo manteve os olhos nele. — Eu vim garantir que nenhuma decisão seja tomada no calor da emoção. O clima ficou ainda mais denso. — Eu não estou emocionado — Magno disse, firme. Bernardo inclinou levemente a cabeça. — O tom sugere o contrário. Gabriella quase sorriu. Pequeno. Quase imperceptível. Magno percebeu. E aquilo o irritou mais do que a interferência. — Gabriella tem direito à participação ativa — Bernardo continuou. — Legalmente, ela detém cinquenta por cento das cotas herdadas. Magno respondeu sem hesitar. — Participação não é gestão automática. — Concordo. Bernardo manteve a calma. — Mas negar espaço de crescimento pode ser interpretado como restrição indevida. A palavra “indevida” ficou no ar. Magno deu um passo à frente. — Você está insinuando algo? — Estou lembrando que existe contrato e testamento. Gabriella ficou em silêncio. Observando. O equilíbrio de forças mudando. — Eu não estou impedindo nada — Magno disse. — Estou preservando a empresa. — E ela — Bernardo rebateu — também é a dona da empresa. O olhar de Magno foi para Gabriella. Ela sustentou. Fria. Controlada. Mas havia algo ali. Determinação. E talvez… vontade de confronto. — Eu só quero o que é meu — ela disse. Bernardo assentiu. — E isso inclui acesso à diretoria estratégica. Magno respirou fundo. — Isso não é tribunal. — Ainda não — Bernardo respondeu, sem elevar o tom. O silêncio ficou pesado. A disputa agora tinha testemunha. E um advogado bonito defendendo Gabriella. Magno percebeu isso. Percebeu a postura dela ao lado de Bernardo. Percebeu o alinhamento. E algo dentro dele não gostou. Não era só questão societária. Era território. — Nós vamos discutir isso formalmente — Magno disse, mais controlado. — Ótimo — Gabriella respondeu. Fria. Profissional. Ela se virou para sair. Bernardo abriu levemente espaço para ela passar. O gesto educado. Natural. Mas a proximidade incomodou Magno. Antes de sair, Gabriella parou na porta. Olhou para Magno. — Eu não sou sua protegida aqui. E saiu. Bernardo permaneceu alguns segundos. O olhar azul firme. — Sugiro que conversem com calma — ele disse. Magno não respondeu. Bernardo saiu. A porta fechou. E, pela primeira vez desde que tudo começou… Magno sentiu algo novo. Não era só preocupação. Era receio real de perder espaço. Não na empresa. Mas nela. Porque agora ela não estava só distante. Ela estava crescendo. E, se ele não acompanhasse… Talvez ficasse para trás.
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