REALIDADE

1445 Palavras
A mansão nunca foi silenciosa. Mesmo nos dias mais tranquilos, havia movimento. Funcionários atravessando corredores, vozes na cozinha, o som distante da piscina sendo limpa, portas abrindo e fechando. Mas naquela semana, o silêncio parecia maior do que o espaço físico permitia. Não era ausência de barulho. Era ausência de sintonia. Gabriella chegou primeiro ao quarto dela e fechou a porta com calma excessiva. Não bateu. Não fez drama. Não jogou bolsa em cima da cama. Ela apenas entrou. E respirou fundo. O quarto continuava impecável. Cortinas leves, luz suave entrando pelas janelas amplas, móveis claros, perfume discreto no ar. Tudo estava no lugar. Menos ela. Ela tirou os sapatos devagar. Colocou a bolsa sobre a poltrona. Desfez o coque, deixando o cabelo cair pelos ombros. O reflexo no espelho parecia controlado. Mas os olhos denunciavam cansaço. Não físico. Emocional. Ela caminhou até a varanda do quarto e ficou olhando o jardim lá embaixo. Magno também tinha acabado de chegar. Ela o viu atravessar o pátio em direção ao escritório externo. Postura reta. Passos firmes. Distante. Como se nada tivesse acontecido. Como se a água, os socos, as palavras, o “eu te amo” não tivessem mudado nada. Ela apertou os dedos contra o corrimão. Talvez não tivesse mudado mesmo. Os primeiros dias foram assim. Educados. Distantes. Calculados. Eles se encontravam na mesa do café da manhã. — Bom dia. — Bom dia. — Dormiu bem? — Dormi. Mentira dos dois lados. Gabriella ficava mais tempo no escritório dela, revisando contratos, estudando relatórios, participando de reuniões por vídeo com advogados e consultores. Ela precisava ocupar a cabeça. Porque quando a mente ficava livre, voltava para aquela noite. Para a ponte. Para o jeito que ele disse “eu te amo”. E para o jeito que ele segurou o queixo dela. Aquilo não parecia só paternal. E era isso que a confundia. Magno, por outro lado, passou a ficar mais no próprio escritório. Reuniões presenciais. Chamadas longas. Conversas estratégicas. Ele não forçava aproximação. Não batia na porta do quarto dela. Não insistia. Talvez porque estivesse respeitando. Talvez porque estivesse com medo. O clima era de trégua silenciosa. Mas não era paz. Helena voltou à rotina da mansão na terça-feira. Loira, olhos azuis claros, postura elegante, sempre impecável mesmo usando uniforme de chef. Ela tinha presença. E sabia disso. Ela entrou na cozinha como se nada tivesse acontecido no mundo exterior. — Bom dia, pessoal. A voz suave ecoou pelo ambiente. Gabriella desceu mais tarde naquele dia. Estava concentrada em um e-mail no celular quando entrou na cozinha para pegar café. Parou ao ouvir uma risada masculina. Ela conhecia aquela risada. Magno estava encostado na bancada de mármore. Helena estava de frente para ele, próxima demais para ser casual. O clima ali era… leve. Diferente do resto da casa. — Então você quase destruiu um evento inteiro — Helena comentou, com meio sorriso. Ele deu de ombros. — Já sobrevivi a coisas piores. — Sempre tão dramático. Ela tocou o braço dele. Não profissional. Não distante. Toque íntimo. Gabriella sentiu o corpo enrijecer. Ficou parada na entrada. Eles ainda não tinham percebido. — Você precisa parar de sair resolvendo tudo com soco — Helena disse. — Nem sempre funciona só conversa. Ela inclinou a cabeça. — Eu prefiro quando você usa outras habilidades. A frase foi baixa. Mas clara. Magno sorriu de canto. E ali estava um Magno que Gabriella não via havia dias. Relaxado. Provocado. Mas não tenso. Helena passou a mão pela gola da camisa dele. — Você está melhor hoje? — Estou. — Mesmo? — Estou. Helena aproximou-se um pouco mais. E beijou. Sem pressa. Sem culpa. Sem olhar ao redor. Gabriella sentiu o estômago afundar. O beijo não foi longo. Mas foi íntimo. Familiar. Helena segurou o rosto dele com naturalidade. Ele correspondeu. Sem hesitação. Sem peso. Sem conflito visível. Gabriella desviou antes que percebessem sua presença. Voltou pelo corredor com passos controlados demais. O coração batendo forte demais. Ela entrou no próprio escritório e fechou a porta. Apoiou as costas na madeira. Respirou fundo. Uma vez. Duas. Três. E tentou nomear o que estava sentindo. Ciúme? Talvez. Mas tinha mais. Frustração. Vergonha. Humilhação interna. Porque, no fundo, ela tinha se permitido imaginar algo diferente. Algo além. Mas ali estava a prova. Magno não estava dividido. Não estava lutando. Ele estava beijando outra mulher na cozinha da própria casa. Naturalmente. Como sempre fez. Ela se sentou na cadeira e encarou a tela do computador. As letras pareciam embaralhadas. Uma frase começou a se formar na mente dela. “Talvez eu esteja inventando coisa.” Outra veio logo depois. “Talvez ele seja só isso.” Um homem bonito. Bem-sucedido. Carismático. Que nunca se compromete. Que tem mulheres. Mas não tem ninguém. Ela apertou os dedos no braço da cadeira. Henrique tinha dito algo parecido. “Você nunca conseguiu manter uma.” Ela odiava admitir. Mas aquilo tinha ecoado nela também. Magno era intenso. Mas nunca fixo. Helena não era a primeira. Nem seria a última. Gabriella conhecia o padrão. Relacionamentos sem rótulo. Sem promessa. Sem futuro. Diversão. Companhia. E depois… troca. Ela fechou o notebook. Levantou-se e foi até o espelho do escritório. Ficou se encarando. — Você é só a afilhada. Disse em voz baixa. Como se precisasse ouvir. Ela riu, amarga. — A responsabilidade. Não a escolha. Ela tocou o próprio reflexo no vidro. Talvez tivesse confundido proteção com outra coisa. Talvez tivesse criado um sentimento onde não havia espaço. Talvez fosse infantil demais para entender que ele nunca a veria diferente. Porque, para ele, ela sempre seria aquela menina da manta rosa horrível. E para ela… Ele era o homem que nunca escolhia ninguém. Naquela noite, o jantar foi silencioso. Helena havia preparado um prato elaborado demais para uma terça-feira comum. Magno elogiou. Gabriella agradeceu. Helena manteve postura profissional à mesa. Mas o olhar dela e de Magno se cruzava com familiaridade. Pequenos gestos. Sorrisos discretos. Cumplicidade. Gabriella percebeu tudo. E fingiu não perceber nada. — Amanhã tenho reunião com os advogados do fundo — ela comentou, sem olhar para ele. — Quer que eu vá? — Magno perguntou. — Não precisa. Resposta rápida demais. Ele assentiu. Helena recolheu os pratos. E, antes de sair da sala, inclinou-se levemente para falar algo baixo no ouvido de Magno. Gabriella não ouviu o conteúdo. Mas viu o sorriso dele. Pequeno. Mas real. Aquilo doeu mais do que a briga na ponte. Porque a briga tinha sido explosão. Aquilo era confirmação. Mais tarde, Gabriella passou pelo corredor que levava à cozinha. Luzes baixas. A casa já silenciosa. Ela ouviu uma risada suave. Parou. Sem querer. Ou querendo demais. Helena estava próxima à bancada novamente. Magno em frente a ela. Dessa vez mais próximos. A conversa era baixa. — Você precisa relaxar — Helena disse. — Estou relaxado. — Não parece. Ela passou a mão pelo peito dele. Devagar. — Eu sei quando você está carregando o mundo nas costas. Ele segurou a mão dela. — Você não sabe de tudo. — Não preciso saber. Ela se aproximou. Outro beijo. Mais longo. Mais íntimo. Gabriella sentiu algo fechar dentro do peito. Não era só ciúme. Era compreensão dolorosa. Ele não estava esperando. Ele não estava confuso. Ele estava vivendo. Como sempre viveu. Sem se prender. Sem se comprometer. Sem assumir. Ela recuou silenciosamente. Subiu as escadas devagar. Cada passo pesado. No quarto, sentou-se na beira da cama. Olhou para as próprias mãos. Ela não era mais criança. Não era ingênua. Sabia como homens como ele funcionavam. E talvez estivesse tentando transformá-lo em algo que ele nunca quis ser. Ela deitou. Ficou olhando para o teto. E pela primeira vez, em vez de imaginar o toque dele… Imaginou a distância. Talvez fosse isso que precisava fazer. Criar distância. Porque, se ele era só mais um desses homens que colecionam mulheres… Ela não queria ser mais uma na coleção. Nem queria ser a exceção que ele nunca assumiria. E, acima de tudo… Ela não queria ser a única que sentia algo diferente. Lá embaixo, Magno se despediu de Helena com um beijo breve. Subiu para o próprio quarto. Passou pela porta fechada de Gabriella. Parou por um segundo. Como se pensasse em bater. Não bateu. Seguiu. Mas a imagem dela vendo aquele beijo — mesmo sem saber se ela tinha visto — ficou rondando. Ele entrou no quarto. Fechou a porta. E, pela primeira vez desde que Helena tinha entrado na vida dele… O beijo não tinha sido suficiente para calar o pensamento. Porque, enquanto beijava Helena… Era outro rosto que vinha à mente. E isso… Ele ainda não estava pronto para encarar.
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