O QUE NÃO SE DIZ

993 Palavras
Gabriella não dormiu. Ela tentou. Deitou de lado. Virou para o outro. Enterrou o rosto no travesseiro. Contou respirações. Tentou distrair a mente lembrando de qualquer coisa banal — compromissos, roupas, conversas. Mas toda vez que fechava os olhos, os sons voltavam. Não exatamente como haviam sido. Mas como ela imaginava que tinham sido. O riso grave dele. O tom seguro. A confiança. Aquela autoridade natural que ele usava nos negócios — e que, agora, ela sabia, também existia fora deles. Ela se odiava por ter ouvido. Se odiava por ter gostado. E se odiava mais ainda por ter sentido ciúme. Quando o céu começou a clarear por trás das cortinas de linho, Gabriella já estava sentada na cama, os joelhos dobrados contra o peito, encarando o nada. Era o último dia do evento. Última chance de manter as aparências. Última chance de não deixar o jogo sair totalmente do controle. Ela tomou um banho demorado, mas diferente do da manhã anterior. Não era para se organizar. Era para esfriar a cabeça. Funcionou por poucos minutos. Quando saiu do bangalô, o resort estava calmo, ainda naquela transição entre silêncio e movimento. Funcionários organizavam as mesas do café da manhã ao ar livre. O mar tinha um azul quase c***l de tão perfeito. E então ela o viu. Magno vinha caminhando na direção dela, de camisa clara, mangas dobradas até o antebraço, óculos escuros apoiados no colarinho. Relaxado demais para alguém que, horas antes, tinha feito exatamente o que ela não queria que ele fizesse, se não fosse com ela. Ele parou diante dela. Sorriu. Um sorriso leve. — Dormiu bem, princesa? A palavra caiu como uma provocação involuntária. Gabriella piscou. Ele estava… diferente. Não distante. Não tenso. Não defensivo. Carinhoso. Mas não daquele jeito que ela imaginava. Não havia malícia. Não havia peso. Era quase… paternal. — Dormi — ela mentiu. Ele inclinou levemente a cabeça, observando. — Você está com olheiras. — Obrigada por notar. Ele riu baixo. — Vem cá. E, num gesto natural demais, tocou de leve o queixo dela, erguendo o rosto para examinar melhor. — Está se alimentando direito? O toque foi rápido. Mas suficiente. Gabriella sentiu um choque interno. Porque o gesto era gentil. Cuidadoso. Familiar. Nada a ver com o homem que ela imaginara do outro lado da parede. — Estou, sim. Ele assentiu. — Último dia. Depois disso, você descansa. — Você também? — Talvez. Eles caminharam juntos até o café da manhã. Magno puxou a cadeira para ela. Serviu suco antes que ela pedisse. Perguntou se queria frutas, se tinha dormido m*l por causa do barulho do mar. Atencioso. Protetor. Quase excessivo. Gabriella não sabia como reagir. Porque parte dela gostava. Gostava da palavra “princesa”. Gostava do jeito como ele ajeitou discretamente uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. Gostava da atenção exclusiva. Mas outra parte ardia. Porque aquela versão dele parecia ignorar completamente o que havia acontecido na noite anterior. Como se ele não tivesse dividido o quarto com uma desconhecida… e agora fosse apenas o padrinho exemplar. — Você está muito quieta hoje — ele comentou. — Só pensando. — Pensando demais costuma ser perigoso. Ela sorriu de lado. — Depende do pensamento. Ele segurou o olhar dela por um segundo a mais. Mas desviou primeiro. E foi exatamente nesse momento que Henrique apareceu. — Bom dia, Gabriella. A voz dele tinha aquele tom confiante de quem não aceita derrota. Magno não reagiu imediatamente. Mas o maxilar travou. — Henrique — disse, formal. — Magno. Silêncio breve. Henrique voltou-se para Gabriella. — Eu estava esperando uma oportunidade de conversar com você sem interrupções. O comentário não era inocente. Gabriella sentiu o clima mudar. Olhou para Magno. Ele estava imóvel. Controlado demais. — Acho que posso te dar essa oportunidade — ela respondeu, levantando-se. Magno ergueu os olhos lentamente. — Gabi. O tom foi baixo. Aviso. Ela inclinou a cabeça. — Já volto. E saiu com Henrique. Magno não os seguiu. Mas ficou observando. Gabriella caminhava ao lado de Henrique pela área externa do resort. Ele falava animado, apontando para a vista, comentando algo sobre um projeto futuro. Ela ouvia. Mas não estava ali por interesse. Estava testando. Sabia que Magno estava olhando. Sentia. Henrique se aproximou um pouco mais. — Você sumiu ontem. — Eu precisava pensar. — Sobre mim? Ela riu. — Talvez. Do outro lado do jardim, Magno continuava observando. A expressão neutra demais. Mas os olhos atentos. Henrique tocou o braço dela. Dessa vez, Gabriella não afastou. Ela sustentou o toque. Henrique percebeu. — Você está diferente hoje — ele comentou. — Diferente como? — Mais decidida. Ela olhou rapidamente para onde Magno estava. E viu. Ele ainda observava. Então tomou uma decisão impulsiva. — Talvez eu esteja. Henrique aproximou o rosto. Devagar. Tempo suficiente para que ela recuasse, se quisesse. Mas ela não recuou. O primeiro beijo foi rápido. Quase um teste. Escondido entre duas palmeiras, parcialmente protegido pela arquitetura do jardim. Mas não totalmente invisível. Magno viu. Não todo. Mas o suficiente. Viu o movimento. Viu a proximidade. Viu o rosto dela inclinado demais. E entendeu. O segundo beijo não foi tão breve. Henrique segurou o rosto dela com as duas mãos. Gabriella respondeu. Não porque queria Henrique. Mas porque queria ferir. Quando se afastou, o coração batia forte demais. Ela virou levemente o rosto. E encontrou os olhos de Magno. Fixos. Sem óculos escuros agora. Sem sorriso. Sem controle disfarçado. Algo havia mudado. Henrique percebeu a tensão. — Está tudo bem? Gabriella engoliu seco. — Está. Mas não estava. Porque Magno já caminhava na direção deles. E o jeito que ele vinha não era o mesmo de antes. Não era o padrinho carinhoso. Não era o empresário controlado. Era outra coisa. E Gabriella sentiu — tarde demais — que talvez tivesse ido longe demais. O sol continuava brilhando. O resort seguia tranquilo. Mas o ar entre os três estava prestes a incendiar.
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