CHEGADA

1125 Palavras
O pouso foi suave demais para o turbilhão que ainda reverberava dentro de Magno. O jato tocou a pista privada do resort como se deslizasse sobre seda, e o silêncio que se seguiu ao desligamento dos motores trouxe uma sensação estranha de realidade. Aquele tipo de silêncio que não alivia — apenas expõe. Magno permaneceu sentado por alguns segundos a mais do que o necessário, os olhos fixos em um ponto qualquer à frente, enquanto ajustava o nó da gravata com movimentos lentos, quase mecânicos. Do outro lado da cabine, Gabriella se espreguiçou com naturalidade demais. Um gesto simples. Um alongar de braços acima da cabeça, o tronco arqueando levemente para frente, o vestido acompanhando o movimento como se tivesse vida própria. Nada indevido. Nada explícito dessa vez. Ainda assim, suficiente para fazer Magno desviar o olhar de imediato, o maxilar travando por um segundo antes de ele se obrigar a respirar fundo. — Chegamos — ela disse, a voz clara, casual, como se nada tivesse acontecido antes. Como se o voo tivesse sido apenas… um voo. Magno assentiu, sem encará-la. — Temos um cronograma apertado — respondeu, profissional. — Assim que descermos, o staff do resort vai nos conduzir direto para a ala reservada aos investidores. Ela inclinou a cabeça, observando-o com atenção demais para quem apenas escutava. — Sempre tão sério quando trabalha — comentou, com um meio sorriso que parecia inocente demais para ser só isso. Ele se levantou primeiro, ajustando o paletó, recuperando a postura que o mundo conhecia: Magno Carvalho, empresário sólido, figura respeitada, dono de uma presença que impunha silêncio em qualquer ambiente. Aquele Magno não vacilava. Não se desconcertava. Não pensava em coisas que não devia. Gabriella levantou logo depois. Quando desceram a escada do jato, o impacto foi imediato. O resort era um espetáculo arquitetônico cravado entre o verde exuberante e o azul quase irreal do mar. Colunas de pedra clara, madeira polida, jardins impecavelmente desenhados. Funcionários alinhados, sorrisos treinados, roupas claras que contrastavam com o luxo discreto do lugar. Mas nada ali chamava mais atenção do que eles. Magno percebeu no segundo em que pisaram no chão. Os olhares. Primeiro curiosos. Depois avaliadores. Em seguida, declaradamente interessados — especialmente nela. Gabriella caminhava ao lado dele com passos seguros, como se estivesse acostumada a ambientes assim desde sempre. O vestido claro marcava sua silhueta de forma elegante, nada exagerado, mas impossível de ignorar. O cabelo preso de maneira simples deixava o pescoço à mostra, e a maneira como ela sorria para os funcionários, agradecendo, cumprimentando, parecia… desarmante. — É ele — alguém murmurou mais adiante. — Aquele é o Magno Carvalho. — E a jovem com ele…? — A afilhada, acho. — Bonita demais, não é? Magno ouviu. Não porque quisesse, mas porque sempre ouviu. O comentário não deveria incomodá-lo. Não fazia sentido incomodar. Gabriella era jovem, bonita, chamava atenção. Natural. Mesmo assim, sentiu algo se fechar no peito. Um aperto breve, incômodo, que ele não nomeou. Um dos investidores mais velhos aproximou-se com um sorriso largo. — Magno! Que prazer revê-lo. — Apertou sua mão com entusiasmo antes de olhar para Gabriella. — E esta jovem encantadora…? — Gabriella — Magno respondeu antes que ela dissesse qualquer coisa. — Minha afilhada. Ela estendeu a mão, educada, o sorriso perfeito. — Prazer. O homem demorou um segundo a mais do que o necessário para soltar seus dedos. Magno percebeu. E não gostou. O grupo começou a caminhar em direção à recepção exclusiva. Conversas sobre mercado, fundos de investimento, projeções internacionais. Gabriella acompanhava em silêncio, atenta, como quem absorvia tudo. Às vezes fazia uma pergunta simples, inteligente, o suficiente para impressionar sem parecer pretensiosa. Cada vez que falava, mais olhares se voltavam para ela. E cada olhar arrancava de Magno uma pontada de algo que não combinava com sua racionalidade. Ciúmes. A palavra surgiu na mente dele com uma clareza desconfortável. — Você está bem? — Gabriella perguntou em voz baixa, quando perceberam o silêncio dele prolongado demais. — Estou — respondeu automaticamente. Ela o observou por um instante, depois sorriu de canto. — Parece tenso de novo. Ele lançou um olhar rápido para ela. — É um evento importante. Natural ficar focado. — Claro — ela respondeu, suave. — Totalmente natural. Mas havia algo no tom. Uma leveza provocativa. Como se ela estivesse testando limites invisíveis. Na recepção, flashes discretos. Fotos institucionais. Comentários elogiosos. — Que dupla elegante. — Ele sempre impecável. — Ela… impressionante. Gabriella manteve-se próxima de Magno o tempo todo. Não grudada. Apenas… próxima. O suficiente para que o braço dela roçasse o dele ocasionalmente. O suficiente para que o perfume dela se misturasse ao ar ao redor. Magno sentia tudo. Cada roçar. Cada aproximação casual. Cada sorriso dirigido a outros homens. E, contra toda a lógica, isso o incomodava mais do que deveria. Quando chegaram à ala reservada, um funcionário explicou os detalhes da estadia, enquanto outro se aproximava com as chaves dos bangalôs. — Reservamos unidades separadas, conforme solicitado — disse. Magno assentiu. — Perfeito. Gabriella inclinou-se levemente para frente para ouvir melhor, e o funcionário — jovem demais, bonito demais — sustentou o olhar por tempo demais. Magno pigarreou. — Alguma dúvida? — perguntou, direto. O rapaz se recompôs, visivelmente. — Não, senhor. Está tudo certo. Quando finalmente ficaram a sós por alguns segundos, caminhando pelo corredor externo cercado de jardins e luzes baixas, Gabriella quebrou o silêncio. — Você ficou estranho desde que chegamos. — Não fiquei. — Ficou — insistiu, tranquila. — Você não gosta quando olham pra mim? Ele parou. Virou-se para ela com calma calculada. — Gabriella… — É uma pergunta sincera — completou, erguendo as mãos em rendição. — Só curiosidade. Magno sustentou o olhar por alguns segundos longos demais. — Você chama atenção. As pessoas olham. É normal. — Mas você não gosta — ela concluiu, quase divertida. — Não é uma questão de gostar — respondeu, controlado. — É… responsabilidade. Ela se aproximou um passo. — Responsabilidade? — Você está comigo. Em um ambiente cheio de interesses. Pessoas observam tudo. Gabriella sorriu de leve, inclinando a cabeça. — Engraçado… — murmurou. — Porque não parece preocupação profissional. Ele sentiu o golpe. — Vá descansar — disse, encerrando o assunto. — Temos compromisso daqui a pouco. Ela não discutiu. Apenas assentiu, dando dois passos para trás. Quando ela se afastou pelo caminho até o bangalô dela, Magno ficou parado por alguns segundos, observando-a desaparecer. O desejo não vinha como impulso bruto. Vinha como algo mais perigoso. Silencioso. Persistente. Civilizado demais para ser ignorado. E, enquanto caminhava para seu próprio quarto, Magno teve uma certeza desconfortável: A viagem m*l havia começado. E ele já estava perigosamente perto de perder uma batalha que nunca quis travar.
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