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Calleo
Quando eu era criança, sempre ouvia as pessoas falarem que a vida era difícil às vezes.
Eu era muito novo, e ainda não entendia o que queriam dizer com tudo aquilo. Mas então eu cresci e entendi.
E agora entendo tão bem o significado que vivencio-o diariamente, no meu próprio e particular inferno.
Aliás, seja bem-vindo a ele. Sente-se e aprecie tudo o que irei lhe contar.
Me chamo Hwang Calleo, nasci na América Latina, precisamente no sul do Brasil, mas atualmente moro em Seul, capital da coreia do sul.
Vim para a Coreia quando tinha apenas quatorze meses. Minha mãe havia acabado de casar legalmente com meu pai lá e com apenas dezessete anos. Naquela época, ela dizia que não conseguia viver em paz com todos da família sempre opinando em sua vida ou coisa assim, e por isso decidiu vir para a Coreia, na cidade de Busan, tentar organizar os documentos para termos a dupla cidadania, e porque era mais fácil para o papai conseguir emprego e todas essas coisas de adulto já que era à terra natal dele. Eu nunca acreditei muito nisso, visto que nos anos seguintes, a vida parecia permanecer no inferno que ela sempre explicava.
Ela não era uma pessoa calma como aquelas mães de filmes, sempre era dura, com palavras curtas e o cenho franzido. Me colocava medo.
Mas como tudo que tem sua fraqueza, a dela, era meu pai. Infelizmente, vivenciei meus piores anos ao lado de ambos.
Sempre brigavam e sempre se ameaçavam. Quando tinha quatorze, ela decidiu deixá-lo, mas não foi como se já tivesse escolhas.
E para ser sincero, acho que ela só me levou consigo, porque teve medo de que ele me matasse no fim, mas ela nunca demonstrou que estava comigo porque queria. Era como se tivesse fazendo apenas um favor.
Naquela época eu não tinha amigos, então não fazia muita diferença se eu estava indo ou ficando. Eu tive uma vida parada em todos os aspectos. Antes de ir, ela só se agitava quando meu pai chegava em casa às quatro da manhã, bêbado, e eu tinha que servir de escudo para ela ㅡ por própria vontade e dever ㅡ quando decidia falar algo e eles sempre discutindo, comigo ali, bem no meio.
Era um saco, mas também era assustador.
Eu me lembro bem da primeira vez que vi os dois discutindo. E Infelizmente, para uma criança de apenas oito anos na época, aquilo foi algo grandioso em sentidos assustadores. Tão assustadores que me lembro de cada palavra ou gesto até hoje.
Meu pai havia saído, talvez numa sexta à noite e lembro que minha mãe esteve doente naquele dia. Ela não havia ido trabalhar, havia passado a semana toda em casa, deitada, apenas levantando para tomar seus remédios, e às vezes comer.
Eram realmente poucas às vezes em que a vi comer naqueles períodos.
E para uma criança de oito anos, lembro-me que estive preocupado com ela. Eu sempre tentava falar, perguntando o que eram todos aqueles remédios e o porquê dela estar tão triste sem nem querer sair da cama. Mas ela apenas dizia que estava indisposta, doente, e que não queria me ver naqueles momentos.
Lembro que até mesmo chegou a me expulsar do quarto, fechando a porta com tanta força, que me assustei com o som alto.
E eu só queria saber como ela estava...
No domingo daquele mesmo final de semana, ele retornou.
Havia passado todos aqueles dias sem sequer ligar e por volta das nove da noite daquele domingo, foi quando resolveu voltar.
Ele muito. Fedia a álcool e a lixo, e suas roupas estavam imundas.
Lembro-me que assim que ele adentrou a casa, minha mãe enfim ergueu-se, indo diretamente até a sala. Parecia brava, parecia querer entender porque ele estava daquele jeito, onde ele estava e porque havia nos deixado sem uma explicação.
Ela parecia realmente preocupada, mas acho que meu pai estava tão sem paciência que enquanto ela falava e chamava sua atenção, ele simplesmente fingiu que não havia ninguém falando consigo e tentou seguir até o quarto.
Era frustrante só de ver.
Ele tentou seguir, mas ela o impediu, segurando firme em seu braço e somente preciso aquilo, para que eu visse o ódio pintado nos olhos do meu pai pela primeira vez.
Ele não precisou nem dizer nada para que eu me assustasse com aquilo e que ficasse ainda mais próximo da minha mãe. Foi instantâneo, eu quis achar proteção, mas de alguma forma, continuei sendo proteção também.
Mas parecia que ela não me via ali, ela não recuou ou se assustou, talvez estivesse magoada, eu tentava entendê-la também. Sabia que tinha razão. Mas ela perguntou novamente onde ele havia ido e continuou segurando-o firme e a cada vez que o braço era chacoalhado, eu tremia.
Mas ele me olhou, por breves segundos, e puxou seu braço de volta, à pedindo para deixá-lo em paz.
Mas ela não o escutou, e eu não a culpo. Meu pai havia passado dois dias inteiros fora, eu sentiria tudo o que ela estava sentindo se tivesse em seu lugar. E chateava-a perceber que sua pergunta era repetida, não seria respondida. Ele mantinha-se quieto, em silêncio, encarando-a nos olhos.
E naquela hora, em que o silêncio preencheu tudo por completo, eu tive a mais pura demonstração de medo. Meu pai avançou os passos que os separavam, me empurrando para fora do caminho, e a prendeu contra a parede, segurando bem em seu pescoço.
Ela gritava para que a soltasse, desferindo tapas, estava desesperada, mas ele apenas gritava palavras horríveis em sua cara, a pedindo para que deixasse-o em paz.
Os olhos castanhos dela, ficaram cercados pelo vermelho. Eu vi quando eles cresceram de tamanho e sua voz já não mais saia. Estava sufocando.
Seus lábios estavam entreabertos, e ela parecia querer falar algo. Suas mãos ainda o tocavam, tentando soltá-lo de si, e eu era novo demais para saber como intervir naquele momento. Estava paralisado, assustado.
Aquela foi só a primeira vez que meu pai a agrediu.
Quando enfim seus dedos soltaram-na, ouvi o som alto de sua respiração falhada. Foi assustador, mas não mais do que o modo em como ele ainda permanecia ali. As marcas de seus dedos estavam sobre a pele do pescoço dela, arroxeadas como berinjelas, escuras, vívidas.
Ela correu para longe dele quando percebeu que estava livre e me olhou brevemente, como se pedisse ajuda. Eu quis ajudá-la, mas ainda não conseguia me mover. Outra vez ele foi na direção dela, segurando-a pelo pescoço até que erguesse seu corpo e jogasse-o sobre o sofá.
ㅡ Socorro! ㅡ lembro de ter ouvido sua falha voz.
ㅡ Calleonie! ㅡ ela gritou meu apelido.
Ela adorava me chamar de Calleonie, dizia que parecia o nome de um príncipe importante da realeza. Mas fazia tanto tempo que eu não ouvia-a me chamar daquele jeito.
Minhas lágrimas começaram a descer e sinto como hoje, o arrepio que percorreu por minha pele quando vi o corpo dele debruçar-se sobre o dela, voltando a apertá-la com as mãos sobre o pescoço.
Eu tentei gritar, mas até mesmo meu grito estava preso. Meu choro não tinha som, apenas dor.
Mamãe era forte, conseguiu gritar alto por ajuda, mas ele a silenciou com a mão.
Talvez o som que ela emitiu naquele momento tenha sido o pior. Se fecho os meus olhos hoje, consigo ouvi-lo bem, como se estivesse-o ouvindo hoje.
E foi aquele som ㅡ somente ele ㅡ, que me fez mover-se enfim.
Eu consegui me mover, assustando-me com o som que ficava mais claro com o que meus olhos iam vendo da cena. Quando a vi vermelha, corri e segurei pelo braço dele.
Mas não adiantou.
ㅡ Pare, por favor! ㅡ eu pedi, chorando.
Meu pai soltou-a naquele momento. A boca dela foi liberada e eu fui empurrado. Cai sentado no chão ao lado, minha mãe gritou mais uma vez, pedindo para que ele a soltasse.
Mas ele apenas levantou a mão, e deu um tapa em seu rosto, deixando sua marca ainda mais violenta lá quando pediu para que ela se calasse ou morreria.
E óbvio, assustada, minha mãe se calou.
Ele observou os olhos dela, naquela completa mansidão assustadora. Afastou-se ainda mantendo o olhar sobre ela.
Minha mãe se levantou rápido, ainda calada e correu para o quarto sozinha.
Me deixando bem ali com ele.
Eu me encolhi quando o olhei, com medo de que sua represália viesse porque eu quis o intervir.
Mas ele tinha que entender, eu era apenas um garoto de oito anos fraco e assustado, vendo seus pais no contrário do que todos diziam ser uma família. Família nunca machucava daquela forma.
Meu pai foi até a cozinha em silêncio, então aproveitei para correr até o quarto e ficar lá com ela.
Ela estava chorando, com a mão em seu rosto vermelho, e estava com o olhar que entregava completamente o seu medo.
Quando cheguei próximo dela, ela apenas me olhou com tristeza e pediu que eu fosse para o meu quarto.
Eu queria ter ficado lá com ela. Queria poder ter abraçado-a e mostrado que tudo já havia acabado, e se não, eu a protegeria outra vez.
Mas ela não me permitiu.
Lembrar disso me traz um certo desconforto nos dias de hoje, é inevitável, mas talvez apenas porque não gosto de violência. Ver meu pai bater em minha mãe outras vezes, em outros dias, depois daquela, ajudou a criar essa repudia que tenho. É enojador usar da força para resolver problemas ㅡ em sua maioria ㅡ, internos.
E eu guardava um ódio particular, pois, após brigas e agressões, tudo sempre voltava ao normal para eles.
Mas apenas para eles.
E eu não aguentava aquilo, a cada vez que brigavam, gritavam e se agrediam, eu saia machucado, fosse física ou psicologicamente. Era sempre eu, o invisível a tomar a maioria das porradas.
Com o passar dos anos vi com mais clareza que aquela família, já nunca havia sido uma de verdade.
Minha mãe estava cada vez mais abatida, com hematomas e olheiras, e meu pai passava mais dias fora de casa do que na nossa companhia.
Um ano depois que aquele inferno deu início, ela estava tomando mais e mais daqueles remédios ㅡ que fazendo uma pesquisa na internet, descobri serem tarjas pretas, que ela apenas comprava ilegalmente com uma colega no trabalho e ingeria-os em grande quantidade para dormir e ter que fugir daquilo que chamávamos "vida".
Eu tentava não ligar muito quando ela fazia aquilo na minha frente, sabia que era a única forma que ela tinha de "achar" a sua paz, e mesmo não concordando tentava me manter perto, intercalando os horários que tinha que ir para a escola sozinho ou quando tinha que cozinha com apenas dez anos, mas sempre tentava cuidar dela, já que só tínhamos um ao outro.
Mas ela começou a não permitir que eu ficasse no quarto como eu sempre ficava. Sempre fazia meus deveres de casa e escolares, atento a qualquer sinal que ela pudesse dar de que os remédios estavam a matando.
Para uma criança de dez anos, eu já sabia muito bem o estrago daquilo.
E eu diria que meu relacionamento com ela nunca foi realmente de mãe e filho. Eu não me sentia como filho. Só parecia que precisávamos nos ajudar em conjunto, mas como ela nunca estava lá por mim, ocupada demais acabando consigo mesma sem sequer notar, era apenas eu quem cuidava de tudo.
Quando fiz doze anos, comecei a estudar pelas manhãs. Acordava cedo, fazia o café para ambos e ia para a escola. Papai sempre saia para trabalhar em seguida, ela já não tinha mais seu trabalho, e tudo só piorava. Quando eu voltava para a casa, ela me olhava com certo desdém e apenas saía de perto, nunca permanecia no mesmo cômodo da casa que eu.
Naquela época ela começou a dizer que eu lembrava muito o papai. Que tínhamos hábitos parecidos, que meu rosto era idêntico ao dele, e que aquilo a fazia lembrar todas às vezes das burradas que cometeu.
Um dia, quando eu ainda tinha doze anos, lembro-me que estava em meu quarto ㅡ que era o único lugar da casa em que me sentia melhor ㅡ e minha mãe estava na sala. Não sabíamos onde o papai estava, havia saído e retornar já parecia algo como "tanto faz", ela já não ligava mais. Mamãe estava sentada no chão da sala e estava com as costas encostada no sofá enquanto segurava uma garrafa de vinho quase vazia.
Não passava das cinco da tarde, e ela já estava bebendo. Quando desci do meu quarto para ir até o banheiro que ficava no andar debaixo, tentei passar direto por ela, como se ela não estivesse ali, daquele modo tão deprimente.
Mas logo ela me viu, e me chamou de forma arrastada, quase sonolenta.
Não queria ir, queria poder continuar evitando-a, mas não conseguia. Quando me aproximei, ela parou os olhos sobre mim e me observou por muitos segundos.
Foi até mesmo assustador.
Ela me olhou e olhou, e enfim bufou, cheia de fadigas.
Eu tentei me afastar quando ouvi o som, dando-lhe as costas para seguir até ao banheiro, mas ela provavelmente já estava bêbada o suficiente quando disse as seguintes palavras:
ㅡ Seu pai foi um erro, mas ter um filho com ele foi o erro pior. Eu não aguento nem te olhar sem sentir ódio por ele...
Meu coração começou a bater forte naquele minuto.
Eu era muito novo, mas já sabia que aquilo era algo horrível de ouvir.
Mas ela continuou.
ㅡ Todas às vezes que te olho eu vejo ele. Você será como ele? Vai crescer, gritar e me bater quando ficar mais velho? Vai me deixar como um grande nada e sumir?
Ela disse em seguida, me olhando com um olhar bêbado e triste.
Seus olhos eram bêbados e tristes, mas eu apenas me virei novamente, e dessa vez, voltei para meu quarto, em silêncio.
No dia seguinte, ela parecia abatida demais ㅡ até mais do que nas outras vezes ㅡ, e parecia neutra, como se nada lhe importasse mais.
Eu fingi para mim mesmo que aquilo tinha ocorrido apenas por conta da bebida. Mas, no fundo, sabia que era uma mentira.
Os anos seguintes foram da mesma forma, eu quieto demais, minha mãe afastada e cada vez mais abatida e meu pai por aí, indo e vindo quando e como bem queria.
Mas um dia, não saberei jamais explicar o real motivo, eu a vi tomar atitude de deixá-lo.
Estava com quinze anos quando isso aconteceu. Ele já não voltava para a casa a quatro dias e provavelmente não voltaria tão cedo.
Ela apenas fez as malas, pediu para que eu reservasse o que eu achasse ser importante, mas que desse em apenas uma mala.
Então meu pai ficou em Busan, e minha mãe e eu viemos para Seul. Ficamos na casa de uma prima distante do papai, mas apenas no primeiro mês. Logo ela estava trabalhando numa lanchonete e parecia voltar a si aos poucos.
Entretanto, ela continuava me tratando com sua indiferença, e mesmo não ditando sempre, era como se ela me culpasse por tudo. Afinal, se ela não tivesse engravidado aos quinze, sua vida poderia ter sido completamente diferente.
Mas um dia ela me disse que só havia me levado junto consigo porque meu pai era desequilibrado o suficiente para descontar seu ódio completamente em mim, e que mesmo que eu tivesse o mesmo DNA, eu não tinha "cara" de desequilibrados, mas que se ficasse com ele, poderia me tornar um, e ter dois desequilibrados no mesmo ambiente não seria nada seguro.
Ela simplesmente me comparou a ele, continuando a me odiar por causa dele. Por alguém que eu nem sequer pedi para nascer tão parecido. Era injusto.
Mas eu sinceramente já não me importava mais com nada em relação ao que ela falava. Estava ficando cheio. Cansado.
Ainda poderia-se dizer que eu e ela estávamos vivendo como meros conhecidos.
Ela nunca dizia que me amava, e isso nunca havia me incomodado, porque para mim, isso já nem era mais possível de ser alcançado.
O amor não era algo real.
Era fantasioso, nunca o havia visto de perto ou sido agraciado por suas nuances, e me enjoava a forma em como definiam-no, somente porque eu nunca consegui defini-lo.
E não me chame de coração de pedra. Eu simplesmente não convivi com esse sentimento. As pessoas que me geraram e que me puseram no mundo nunca me mostraram como ele era de verdade, então não dava para simplesmente adivinhá-lo.
Seus olhares de desdém mantiveram-se firmes, e ela sempre me lembrava o porquê de todos eles. E quando ouvia aquilo, dizia para mim mesmo que não me abalava, mas, no fundo, sempre abalava.
Eu não havia pedido para nascer, eu sempre perguntava porque havia nascido, se tinha que viver uma vida na qual não era sequer um vida de verdade? Não fazia sentido nenhum para mim.
Eu não queria ter que acordar todos os dias, já sentindo angústia de simplesmente ter acordado. Não queria desejar manter-me em um sono eterno e me tornar o que ela era.
Não queria olhar para o relógio e ver que o tempo parecia ter congelado, fazendo minha vida parar naquela tormenta que era viver.
Mas, então, para me fazer questionar ainda mais a minha existência com apenas quinze anos, ela arrumou outro homem, colocando-o dentro de casa, me levando de volta a algo antigo, fazendo-me questionar: e se for igual a como era com ele?
Mas não parou naquele. E admito, fiquei feliz quando o primeiro se foi, nós não nos falávamos muito, mas então veio o segundo namorado, e o terceiro, o quarto, e os seguintes...
Era como se tê-los agora fosse a sua nova droga, fosse o que a fizesse bem, e ela parecia feliz assim.
De todos os seus namorados que adentrou a nossa casa, teve alguns que cheguei a conhecer. E não porque eu quis ou porque ela se deu o trabalho de me apresentar, mas apenas porque os via perambulando pela casa e alguns eram decentes e educados o suficiente para me estender a mão e me cumprimentar.
Aquilo me fazia sempre questionar que se voltássemos ao nosso país de origem, se tudo não fosse melhorar. Mas eu m*l falava outra língua além do coreano, eram poucas as palavras em português que trocávamos em casa, e depois que ela começou a me evitar, elas se foram completamente do meu cérebro.
Mas voltando aos namorados, alguns eu até lembro os nomes.
Eles eram homens comuns de meia-idade, na qual se desse certo talvez passassem alguns meses ao lado dela.
Lembro-me dos nomes de alguns, mas em especial dos nomes "Lee chugHee e Lee ChungJoog" ㅡ e sim, eles eram irmãos.
Mas também teve o Kim DaeHo e o Kang Hye.
Esses foram os que mais duraram com ela, variando entre cinco e oito meses. E que de algum modo, a fizeram se sentir melhor. Eu a vi sorrir muito nesses curtos intervalos.
E talvez hoje eu entenda que ela fazia isso apenas para se sentir completa. Mas também sei que ela nunca conseguiu se sentir completa naquela época.
E eu me sentia frustrado a cada dia que passava. Me sentia um lixo.
Eram poucas as vezes que a gente podia conversar como pessoas normais. A maioria das vezes na qual ela falava comigo era algo como "o jantar está no forno", ou, "Não sei quanto tempo demorarei ou se voltarei hoje, então lembre de fechar a porta com a chave".
Aquilo já era uma rotina para mim.
Eu estava sempre sozinho.
Ela saía e passava seus dias fora, sem dizer para onde estava indo, sem me dar notícias e me deixando preocupado.
Fazendo comigo, o que meu pai fez consigo.
Mas era assim que eu ia seguindo os dias.
Ela fazendo a vida dela da forma em como queria, e eu aprendendo a guiar a minha, mesmo que de uma forma tão precoce e solitária.
E após alguns anos vivendo assim, eu finalmente me formei no colégio e consegui arrumar um emprego como atendente numa cafeteria.
Aquele emprego foi uma das melhores chances que recebi na minha vida, e foi engraçado, pois, eu cheguei lá apenas perguntando se estavam contratando e um dos donos me perguntou se eu sabia trabalhar com recolhimento de pedidos e organização de bandejas, e é claro que eu disse que sabia, mesmo sendo notório que eu não fazia ideia do que fazer.
Naquele dia, ele me deixou trabalhar a tarde inteira para si, me ajudou com algumas dúvidas e me mostrou como as bandejas deveriam sempre parecer limpas e alinhadas. Foi simples. No final da tarde, eu tinha um emprego fixo.
E o melhor era que a cafeteria era bastante legal. Eu não falava muito com os outros funcionários no começo, pois não os conhecia bem para me sentir confortável, mas essa sensação durou apenas nas primeiras semanas. Depois de um tempo, conseguíamos trabalhar bem.
O salário não era muito alto, mas dava para me manter e pagar minhas próprias contas, e foi isso me fez tomar atitude de sair finalmente da casa da minha mãe antes mesmo de recebê-lo. Eu tinha um valor guardado de trabalhos de meio períodos que fazia nas férias, e como eu já morava praticamente já morava sozinho na casa dela, decidi ter o meu próprio lugar. Um lugar que julguei ser o meu essencial para recomeçar.
Ela não questionou o porquê de eu querer morar sozinho logo aos dezenove ㅡ quase vinte ㅡ, mas, no fundo, aquilo, somada a suas palavras verdadeiras para mim, ao dizer que me odiava por parecer com o papai, foi uma das piores coisas que já haviam acontecido.
Era somente eu e ela na vida, desde muito tempo, deveríamos nos apoiar e crescer como uma família, Juntos.
Mas o que aconteceu foi que eu saí de casa uma semana depois do anúncio, e ela nem fez questão de tentar mudar minha ideia ou de buscar o endereço.
Eu consegui alugar um apartamento bem apertado, só um quarto, sala/cozinha ㅡ com apenas uma meia parede de tijolos separando ㅡ, um, banheiro e uma janela que dava para improvisar e secar minhas roupas.
Era do tamanho que eu precisava. Era aconchegante.
Eu vivia tranquilo ali, saía todas as manhãs às oito da manhã para trabalhar, e voltava às quatro da tarde, sempre caminhando tranquilamente porque a cafeteria não era muito longe de onde morava.
Assim que chegava em casa, eu não tinha muito o que fazer, então sentava no chão, encostando minhas costas no sofazinho de dois lugares que eu havia comprado à vista, com meu notebook velho sobre as pernas, passando horas jogando online.
Isso era frequente, quase como uma rotina. O que me resultou em fazer um amigo online.
Isso. Apenas um. Meu primeiro amigo da vida era online.
Seu "username" era: Boleto_Vazio, mas descobri que seu verdadeiro nome era Min YeJun.
Ao menos foi isso que ele havia me dito durante uma partida em que nós dois ficamos como finalistas.
Naquela época eu ainda não confiava cem por cento em amigos virtuais. Eu era inteligente.
Eu estava ciente que YeJun poderia ser um maníaco assassino pervertido de quarenta e sete anos, então, nossa amizade era assim, online, dividindo apenas partidas de jogos.
Durante um tempo minha vida foi assim, eu não tinha muita perspectiva e não ligava muito pra nada, apenas vivia um dia após outro, dormindo, acordando, trabalhando e jogando.
E sinceramente, eu poderia viver para sempre nessa bolha, nesse meu mundo tão sem cor, no preto e branco, mas se fosse normal, não seria minha vida.
Eu estava realmente bem. Enfim me sentia um pouco feliz, mas eu recebi a ligação e tudo deixou de existir outra vez.
A ligação na qual foi até mesmo meio inusitada para falar a verdade, porque quem estava me ligando era minha mãe...
E eu nem sabia que ela tinha mais meu número!
Fazia mais de um ano e meio que a gente já não se via. Ela me ligou no meu aniversário de vinte e um, mas foi somente para me desejar um feliz aniversário de dezenove segundos e desligar em seguida.
Dezenove segundos... Ela claramente não estava nem aí, sequer perguntou como eu estava.
Então porque eu deveria me importar?
Recusei sua ligação, mas ela insistiu outra vez.
Desliguei pela segunda vez, e a terceira ligação veio. Preocupei-me instantaneamente, ela jamais insistia.
Busquei o aparelho, respirando fundo antes de atendê-lo.
Deveria ser bobagem.
Era para ser uma bobagem...