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2085 Palavras
Pessoas conhecem novas pessoas todos os dias, é como um ciclo. Algo que ocorre na normalidade da vida. Para alguns isso pode ser uma das coisas mais fáceis que podem acontecer; talvez você possa estar sentado num banco de uma praça, com um desconhecido ao lado e de repente vocês começam a conversar e quem sabe até trocam seus números de celular e começam uma história a partir dali. Pode acontecer. Entretanto, também há casos em que pessoas simplesmente se trancam dentro de suas inseguranças, e por mais que vivam relativamente bem, não conseguem se aproximar e criar amizades ou vínculos com outras pessoas com facilidade. No meu caso, eu não saberia informar em qual situação me encaixaria. Possivelmente seria a segunda, porém eu odeio rótulos e títulos, então prefiro não me encaixar em nenhum. Mas admito que fazer amizades ou até mesmo me relacionar com outras pessoas pode ser um tanto complicado por eu ser muito reservado, então eu apenas não ligava se tinha amigos ou um namorado pelo simples fato de não saber se conseguiria levar algo adiante sem frustrações para ambas as partes. Uma vez, quando eu enfim decidi me abrir mais em questão a minha sexualidade, baixei um aplicativo de namoros e conheci uma pessoa. Ele era legal, dois anos mais velho, estava na faculdade e tinha um mar de coisas para contar. Eu apenas tinha a minha vida de sempre, com apenas acontecimentos na cafeteria para lhe deixar animado, e no começo até funcionou, a gente saía, ia ao cinema, e até fez amor. Ele foi o meu primeiro e único sexo. Mas não durou mais que algumas semanas, eu sempre ficava muito quieto, calado, sem ter muito o que lhe contar, então a frustração tomou conta e o relacionamento que sequer havia começado, teve seu fim. Foi lamentável. E eu comecei a perguntar se eu era realmente o problema, se deveria sair mais, talvez a boates, fazer amizades chulas e rasas e quem sabe, conseguir outra pessoa para beijar minha boca e meu corpo. Mas era claro que nada disso era para mim, então em algum momento, ficar sozinho se tornou algo normal para mim. Perceber que durante toda minha vida sempre fui somente eu, foi uma das percepções mais claras que já havia tido. Óbvio, isso foi antes de receber do destino, uma mãe de volta. Ela havia retornado para mim, e aquilo me fez sentir tantas coisas juntas que eu nem consigo explicar. Sempre achei que isso nunca iria acontecer, mas lá estava eu, novamente com uma mãe, e uma mãe na qual eu precisava cuidar de novo. O mundo é assustador, e eu aprendi isso muito cedo, tive que aprender forçadamente a viver e a sobreviver nele e comigo mesmo. Sem nunca ter recebido afeto algum de minha família, eu larguei mão durante muito tempo... até que ela retornou. E seu retorno, por mais que tivesse sido difícil por causa tudo que estava passando, foi muito importante. Minha mãe, ao contrário do que sempre se mostrou, me queria consigo. E mesmo que talvez pareça que eu fui um pouco ingênuo ao aceitá-la tão facilmente, eu sabia que, no fundo, isso era o que eu mais precisava fazer para me sentir bem comigo mesmo. Receber o tal amor, que eu sempre julguei inexistente, era novo, mas era imensamente bom. E de alguma forma, mesmo que um dia eu tenha me sentido abandonado, eu não iria conseguir não aceitá-la assim. Talvez, se fosse um amigo ou qualquer outra pessoa que fizesse isso comigo, eu com certeza não voltaria atrás, mas com ela, não sei, era diferente. Eu simplesmente a aceitei de volta. Mas é irônico comparar tal situação com amizades; eu nunca tive uma de verdade além da que existe em minha vida era virtual. E eu nunca sequer vi Yejun pessoalmente, então era muito estranho de qualquer forma. Mas não ache que eu realmente sou anti-social ou problemático. Talvez eu só seja mesmo um pouco inseguro, mas não era algo para relativamente achar que fosse um problema. Era apenas como eu era. E obvio, às vezes isso é solitário, mas eu sempre procuro me ocupar em outras coisas quando me sinto sozinho demais, e por isso, na maioria dos dias eu acabo jogando partidas longas e cansativas com Yejun. E é por isso que acho ele pode sim, ser considerado um amigo, mesmo sem nunca ter tido sequer um contato pessoal com ele. Ele sempre jogava comigo, nos falávamos todos os dias, era uma amizade estranha, mas me fazia bem. Quando nos conhecemos, em uma partida online como rivais, eu acabei derrotando ele, e ele me adicionou em seu chat só para me xingar de coisas estranhamente ofensivas. Foi uma forma engraçada de começar, mas eu retruquei todos os seus xingamentos. Ele é mais velho que eu, é o meu hyung, mas às vezes ainda parece uma criança birrenta, que xinga deliberadamente qualquer um por não ter o que quer. Mas após alguns dias de quando nos xingamos e também de ter decidido jogar mais algumas partidas para ver quem era melhor, nós já nos considerávamos amigos. E ele até começou a me ajudar com alguns códigos e truques nas partidas, o que deixou claro que era ele o melhor entre nós dois. Não conversávamos muito, mas eu tinha seu número salvo em meu celular e ele tinha o meu, o que resultava em algumas mensagens em diferentes horários no dia. E era estranho o fato de Yejun nunca ter me mostrado seu rosto, mas eu nunca me importei muito com isso, afinal, eu moro em Seul, e ele em Daegu, não achava que tinha necessidades de criarmos um vínculo maior. Bom, isso era o que eu achava até aquela linda manhã de sábado, quando eu estava me aprontando para ir trabalhar e recebi sua mensagem quase desesperada. Yejun: Calleo????? Franzi meu cenho, o hyung nunca havia me mandado mensagem naquele horário ou chamando por meu nome. Respondi sua mensagem com apenas um emoji de carinha pensativa e ri, vendo-o responder no mesmo instante. Yejun: Preciso que me ajude! Calleo: O que aconteceu? Está tudo bem? Yejun: Melhor do que bem, mas preciso da sua ajuda! Na verdade, é só um favorzinho, sabe?... Calleo: Ih... qual é hyung? Yejun: Então, eu consegui um emprego! Calleo: Isso é muito bom! Yejun: Não é? Mas então, o emprego não é aqui em Daegu, e sim em Seul... Calleo: Aqui? Caramba, hyung, isso é muito legal! Yejun: Enfim podemos nos conhecer. Calleo: Verdade, que legal. Mas não entendi no que eu vou ter que te ajudar. Precisa conhecer a cidade? Porque se for isso, preciso dizer que não sou muito bom com isso. Eu não saio muito. Yejun: Não é isso, o que acontece é que eu moro em Daegu... toda a minha família é daqui, meus poucos amigos também, o único que eu conheço aí. E eu preciso de um lugar para ficar até receber meu primeiro salário, então... eu pensei que, sei lá, você poderia me ajudar? Calleo: Como eu te ajudaria? Yejun: Posso ficar com você? É só por um mês, assim que eu receber meu primeiro salário eu arrumo um lugar. Calleo: Você quer ficar aqui, tipo, aqui? Yejun: É, mas, só se puder... Eu não tenho como pagar um lugar com o que tenho guardado. No máximo consigo me alimentar. Calleo: Eu não sei hyung... me desculpa, mas é que a gente nem se conhece pessoalmente ainda. Yejun: Mas a gente pode mudar isso. Tipo, deixa eu me apresentar. Espera só um minutinho, bele? Eu ri do modo em como ele digitou aquilo e sentei sobre a cama, ansioso. Calleo: O que você vai aprontar? Yejun: Prontinho... Vou te enviar a foto mais bonita que eu tenho! [FOTO] Yejun: Seguinte, eu me chamo Min Yehun, disso 'cê já sabe, que eu nasci em Daegu também, mas se liga, eu tenho vinte e quatro anos e 'tô indo para Seul porque recebi uma proposta boa pra c*****o, e 'tô esperando ansiosamente que meu lindo amigo diga que eu posso ficar um tempinho maroto com ele. Li o texto e caí na risada. Calleo: Hyung, você acha que isso foi o melhor que você poderia me mandar? Yejun: o quê? Você viu a minha foto? É A PRIMEIRA VEZ QUE VOCÊ VÊ MEU LINDO ROSTO, CALLEO!! Calleo: Eu sei, hyung, e você é realmente bonito. Yejun: Só não se apaixone, ok? Calleo: Claro que não! Quer dizer, você é muito bonito, mas ainda é meu hyung, e eu não me apaixonaria por você nunca! Yejun: Poxa, fiquei triste. Mas enfim, vou poder ir né? Calleo: Não sei. Você pode ser um assassino disfarçado. Yejun: Vai se f***r, Calleo! Calleo: é sério, ué, já vi vários casos assim. Yejun: Pra p***a então. Tchau! Eu ri alto, adorava tirar a paciência do hyung. Calleo: Espera, c****e, é brincadeira! Você pode vir, mas eu preciso de contar as regras! Yejun: Sério, mesmo?? Caraí, Calleo, pode mandar, eu juro que vou seguir todas. Calleo: Você sabe que eu 'tô com a minha mãe no hospital, certo? O apartamento é pequeno, então você vai ter que manter tudo em ordem! Eu saio cedo e volto tarde, então, você vai ter que cozinhar também, ou vai morrer de fome. Yejun: Tranquilo, pode deixar que vai ser tranquilo. Calleo: Precisa do endereço agora? Yejun: Pode ser. Calleo: É sério, hyung, por favor, não seja um assassino! Calleo: [Endereço] Yejun: Pode deixar, não vou ser. Eu ri, negando, mas bloqueei o celular quando olhei o horário. Não podia me atrasar. Calcei meus sapatos, correndo pelas escadas até estar na rua. A cafeteria era pertinho, então ainda me permiti buscar por meu celular, olhando mais uma vez as minhas redes sociais. Entrei no aplicativo do i********: e dedilhei as milhares de fotos padrões, entretanto, parecia que havia uma lâmpada sobre a minha cabeça e naquele instante, ela se acendeu. Cliquei na lupinha para procurar por novas pessoas e digitei o nome que veio à minha mente. ㅡ Han Minjae... Após buscar por aquele nome, não demorou muito para encontrar sua conta, assim que entrei vi seus inúmeros seguidores. Havia tantos números que me perguntei se ele poderia ser famoso ou coisa assim. No máximo eu tinha quarenta e seis, já ele, passava de quarenta mil. Li sua bio e que não havia nada além do que uma bandeira com o arco-íris. Aquilo me trouxe um sorriso grande, mesmo que inconsciente. Eu não poderia dizer qual a orientação s****l dele somente com aquilo, mas descendo as fotos, vi que haviam várias dele com bandeiras, frases em fotos com amigos e até fotos suas no movimento que acontecia anualmente em apoio a comunidade lgbtqia+. Mordi o lábio inferior, observando aquela foto em particular. Sempre tive vontade de ir, principalmente depois do meu primeiro garoto, queria saber e sentir como é ser acolhido, mas como eu não tinha ninguém para ir comigo, eu não conseguia ir sozinho. Eu sempre tive certeza quanto a gostar de meninos. A primeira vez que me apaixonei por um, eu tinha apenas quinze anos, mas eu não pude contar a ele, muito menos a minha mãe. Eu tinha medo, via o que faziam com pessoas como eu, e tinha certeza de que ela não me apoiaria. E é pensando assim, que penso em como vou contar essa parte minha para ela. Se devo contar, se preciso contar... Não minto, ainda me amedronta muito. Ela pode simplesmente me repudiar mais uma vez, e eu não sei se aguentaria. Mas descendo mais um pouco as fotos do Han, prestei atenção em como seu sorriso era mesmo bonito. Uma foto em especial me chamou atenção. Ele sorria espontaneamente, como se sequer tivesse noção de que estavam lhe fotografando, tão natural que hipnotizava. Realmente lindo. Possivelmente aquele sorriso tinha bastantes fãs, o que talvez explicasse seus seguidores. Ele é realmente lindo, e tendo essa percepção me vi encarar aquela foto por ainda mais tempo, tanto tempo que acabei deslizando o dedo e curtindo aquela foto; o desespero me tomou por completo quando eu lembrei que não o seguia e que ele poderia achar que eu estava o procurando na internet. E , ok, isso não é uma mentira, eu estava realmente procurando por ele, mas isso não significava que ele tinha que ficar sabendo, não é? Eu retirei o coraçãozinho da foto e sai da conta dele, como se nada tivesse acontecido. Por sorte, ele sequer iria notar...
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