7 - Entre o poder e a Obsessão

1547 Palavras
Guilhermo D'Angelis Acordei com um peso esmagador no peito. O peso de um homem que precisa reunir a própria família para dizer: "Então... eu roubei a noiva do nosso aliado." Não sei quem seria o primeiro a arrancar meu couro—meu pai, meu tio, talvez minha mãe?—mas a verdade é que eu não tive escolha. Passarinha era minha. Nenhum outro homem teria aquele olhar dela. Nenhum outro veria suas bochechas coradas ou testemunharia aquele sorriso desafiador que ela me deu antes de entrar na casa. Era um caminho sem volta. Levantei, tomei um banho frio para espantar qualquer resquício de sono ou arrependimento (não que eu tivesse algum), e me vesti. O dia seria longo. Antes de sair, desci até a cozinha. Não sabia exatamente o que ela gostava no café da manhã, mas me certifiquei de deixar a mesa farta: pães, presunto, queijo, frutas, suco. Peguei um dos chocolates que sempre escondo na cozinha e o deixei ao lado de um bilhete. "Passarinha, fui encarar as consequências dos meus atos. Reze para que eu volte inteiro para você! Deixei a mesa posta, coma! — Guilhermo" Olhei para o papel por um momento, tentando imaginar sua reação ao acordar e encontrar isso. Talvez ela ficasse irritada. Talvez sentisse medo. Ou... talvez, só talvez, começasse a entender o que eu já sabia: ela não tinha para onde fugir. Saí da cozinha e caminhei até a ala dos meus tios. Aquela mesa cheia nunca me aterrorizou, mas hoje... hoje era diferente. Enrico, meu priminho de alguns meses, estava chorando no colo da mãe. Ou talvez sentisse o caos que estava prestes a se desenrolar, porque assim que entrei na sala, o pequeno calou a boca, atento como se entendesse que ia rolar fofoca da grande. — Família, antes do café, preciso falar com vocês. Silêncio. — Você não fez o que eu acho que fez, né, Guilhermo? — meu primo questionou, e de repente todos os olhares se voltaram para mim. Respirei fundo. Melhor arrancar o curativo de uma vez. — Se você está falando que eu impedi uma mulher de sair do nosso território, a pedi em casamento e a trouxe para casa, mesmo ela sendo noiva... então sim, eu fiz exatamente isso. Um som metálico ecoou quando meu pai largou a colher no prato. — Guilhermo, você ficou maluco? — O tom dele era um misto de incredulidade e fúria contida. — Guilhermo, que merda é essa? — minha mãe interveio. — Acho melhor você falar antes que eu arranque seu couro! Cruzei os braços, sustentando os olhares de todos. — Resumindo... eu a vi e fiquei louco. O pai dela é um canalha duvidoso e, em minha defesa, ela ainda não está noiva de fato. Pelo menos, não oficialmente. E o "noivo" dela é Domenico Rizzi. Sabemos muito bem o que isso significa. O silêncio caiu sobre a mesa como um raio. — Não tem defesa. Eles são nossos aliados, Guilhermo! Você vai arrumar uma guerra por uma mulher? — Meu pai me lançou um olhar gélido, o olhar de um chefe de família que vê um erro potencialmente catastrófico. Me inclinei na cadeira, olhando diretamente para ele. — Pai... se eu sou um obsessivo, a culpa é sua. Quem foi que viu minha mãe, a perseguiu por semanas e a convenceu a casar com você? Ele estreitou os olhos para mim. — Não atreva a me comparar contigo, moleque. — Olha, a merda tá feita — meu primo interrompeu, suspirando. — A garota já está aqui. Vamos tomar café e depois faremos uma reunião para alinhar a situação. Guilhermo fez a cagada, então que limpe e lide com as consequências. Por um segundo, pensei que esse fosse o fim da discussão. Mas então Antonella, minha cunhada, inclinou-se para frente e disse: — Não querendo ser advogada do d***o, mas já sendo... quase literalmente. — Ela ergueu uma sobrancelha. — Mas estamos falando de uma garota jovem. Sabemos o que acontece com as esposas do Domenico. Elas desaparecem misteriosamente, e ele sempre sai com um seguro de vida astronômico delas. Ele fez errado, sim, mas talvez esteja salvando a vida dela. — Amore, não dê asas para a cobra pelo amor de Dio — meu primo resmungou, mas era óbvio que também estava considerando o que Antonella disse. — A cunhada tem um ponto — Giulia, minha prima, concordou. — Se não é oficial ainda, é só um acordo verbal. Talvez o pai dela possa voltar atrás e evitar uma guerra. Dei um sorriso cínico, mas não disse nada. Ninguém ali admitiria abertamente, mas começavam a entender. Eles podiam me chamar de imprudente, inconsequente ou até de um louco apaixonado, mas no fundo sabiam: eu não soltaria Passarinha. O café da manhã continuou com menos ameaças diretas à minha vida, mas minha mente não estava ali. Eu só conseguia pensar nela. Em Aurora, sentada sozinha, talvez ainda confusa, talvez assustada. Mas um dia... um dia ela estaria aqui, comigo, à mesa da minha família. Ela só precisava entender que não tinha escolha. ••• Guilhermo D'Angelis Após uma longa reunião, os homens da minha família ainda insistiam em reclamar da minha atitude—como se, no meu lugar, não tivessem feito o mesmo. Ou pior. — Vamos falar com o pai da garota. Pelo que pesquisei, um belo dote fará ele desfazer o acordo com o Rizzi — Vincenzo disse, sério. — A questão é que ele pode retaliar, então teremos que estar preparados. Cruzei os braços, minha paciência já esgotada. — Ele pode tentar. Mas ninguém vai tirar Aurora de mim. Vocês sabem disso. Vincenzo soltou um suspiro pesado. — E isso que me preocupa. Mas vamos encarar a situação. Assim que os detalhes foram discutidos, partimos. Vincenzo dirigia, enquanto eu observava a cidade lá fora com indiferença. Não estava nervoso, nem preocupado. Eu era um peixe grande, e aquele verme nem chegava perto de me intimidar. Chegamos à casa do homem que teve a audácia de vender a própria filha para Domenico Rizzi. A construção era grande, mas decadente—uma metáfora perfeita para o tipo de homem que ele era. Bati na porta com firmeza. Momentos depois, ela se abriu, revelando o próprio anfitrião. Seu olhar era carregado de desconfiança, mas sua expressão logo se transformou em um sorriso falso. — Bom dia, Capo. Subchefe. O que os senhores desejam? Não perdi tempo. — Podemos entrar? O assunto é sério e será rápido. Ele hesitou por um instante antes de dar passagem. Vincenzo e eu entramos, enquanto nossos seguranças permaneciam postados do lado de fora. Assim que nos acomodamos na sala, fui direto ao ponto. — Quero me casar com sua filha. Ele arqueou uma sobrancelha, claramente surpreso com minha abordagem. — Sei que tem um acordo verbal com Rizzi. O que não entendo é como teve coragem de entregar sua filha a ele. Quero que desfaça. O homem me olhou incrédulo, então riu, como se tivesse acabado de ouvir a maior piada do século. — Eu sei que você é o subchefe, mas infelizmente terei que negar. Aurora quer se casar com Domenico, e eu, como pai, não vou interferir na escolha dela. Mentiroso desgraçado. Minha vontade era quebrar aquele sorriso cínico com as próprias mãos, mas permaneci impassível. — Tanto quer se casar que ontem à noite eu a encontrei tentando fugir do nosso território. O sorriso dele desapareceu. — Você está mentindo. Minha filha está em seu quarto, dormindo. Inclinei-me ligeiramente para frente, sustentando seu olhar com uma frieza implacável. — De fato, ela está dormindo. Mas no quarto de hóspedes da minha família. O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Eu podia ver a raiva crescendo no olhar dele, mas ele sabia que não tinha escolha. — Sabemos que este casamento é apenas um jogo de interesses. Então, independentemente do que Rizzi lhe ofereceu, eu dobro a quantia. Ele umedeceu os lábios, tenso. — Não posso simplesmente desfazer minha palavra. Ele retaliaria contra mim. Talvez fizesse m*l à minha filha. Inclinei a cabeça levemente, estudando-o como se fosse um inseto insignificante. — Aurora ficará comigo a partir de agora. Você, por sua vez, terá nossa proteção. Diga a Rizzi que a decisão foi tomada porque o subchefe a quer. Se ele tiver alguma questão a resolver, que trate comigo. Ele me encarou com ódio, mas havia algo mais em seu olhar. Medo. — Certo... Ele me ofereceu um milhão. Quase gargalhei. Um milhão não salvava um homem falido como ele. — Assim que falar com Domenico, me mande uma mensagem com sua conta. O dinheiro cairá na hora. Vou deixar um segurança para juntar os pertences de Aurora e levá-los para minha casa. Por um momento, ele pareceu prestes a dizer algo. Talvez uma última tentativa de negociação, talvez um insulto. Mas ele se conteve. O respeito que devia à minha família era maior que seu orgulho ferido. Sem mais nada a acrescentar, me levantei, Vincenzo logo atrás. Quando saímos, meu primo soltou um assobio, balançando a cabeça. — Conseguiu negociar sem quebrar nada. Que bonitinho, subchefe. Lancei-lhe um olhar de puro tédio. — Vá se ferrar, Vincenzo. Vamos embora. Ainda temos muito trabalho a fazer. E eu ainda tinha uma mulher para conquistar.
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