OS CONFLITOS DEIXAM DE SER APENAS CORPORATIVOS

1313 Palavras
CAPÍTULO 6: Enxergava antes mesmo de saber explicar. "Erick Teixeira" E logo eu — Erick Teixeira. Filho da dinastia Teixeira. Herdeiro moldado como um projeto de poder. Talentoso. Disciplinado. Frio quando necessário. Criado sob expectativas que esmagaria homens mais fracos. Treinado para comandar, negociar e vencer — nunca para hesitar. Desde cedo aprendi que fraqueza é luxo. Que sentimentos atrapalham estratégia. Que perder não é opção — é falha de caráter. Meu sobrenome abre portas. Minha postura fecha negócios. Minha palavra impõe silêncio. Eu não fui criado para pedir. Fui treinado para tomar decisões que outros não têm coragem de assumir. E ainda assim… Entre contratos milionários e reuniões que definem destinos, existe algo que me desarma. Porque ninguém me ensinou a lidar com aquilo que não se controla. Impérios eu sei construir. Mas há batalhas que não se vencem com disciplina. E é exatamente aí que começa o meu problema. Ao contrário do que muitos acreditam, nunca fui frio. Fui apenas educado para não demonstrar fraqueza. Cresci entre tecidos nobres, campanhas publicitárias e salas de conselho. Aprendi cedo que o mundo dos negócios não perdoa hesitação — e que sentimentos, quando m*l guardados, custam caro. Muito caro. No fundo, eu sentia tudo com intensidade. Só nunca soube o que fazer com isso. A vida me moldou para o controle. Minha família, para o poder. E o amor… o amor me encontrou pelo caminho, sem pedir licença. A imagem dela atravessa minha memória desde a adolescência — primeiro como presença recorrente, depois como ausência insistente, até se tornar a mulher que marcou minha vida sem esforço algum. É uma lembrança que não envelhece. Apenas se aprofunda. Apaixonei-me cedo demais, antes mesmo de entender o que era amor. Naquela época, Laís frequentava nossa casa porque sua mãe era consultora criativa da marca da família. Ela caminhava pelos corredores do ateliê como quem entra num santuário — silenciosa, atenta, absorvendo tudo com olhos que pareciam guardar segredos. Eu fingia observar o trabalho dos adultos, parado à porta. Mas, na verdade, observava ela. Meu pai costumava dizer que Laís tinha “olhos de composição”: enxergava antes mesmo de saber explicar. Eu só sabia que minha vida havia se amarrado, de forma irreversível, àquela presença. Enquanto ela aprendia a olhar o mundo, eu aprendia a sobreviver nele. Anos depois, quando assumi o controle da empresa, eu já não era o rapaz que escondia sentimentos sem nome. Eu era o CEO. “Visionário”, diziam. “Implacável”, murmuravam. Mas a verdade é que meu olhar só se tornou preciso porque eu carregava Laís comigo — não em gestos, mas em ideias. Ela era a referência secreta por trás das minhas coleções: a cintura iluminada, a paleta inesperada, o corte ousado. Laís era minha musa oculta. A Minha inspiração proibida. Minha fuga para um mundo que o mercado jamais conseguiria decifrar. E então… ela voltou. Meus conflitos sempre foram internos. Mas o arco que se aproximava era inevitável: do autocontrole à exposição, do planejamento ao acaso, do silêncio à palavra. Talvez, pela primeira vez, o amor exigisse de mim algo que os negócios nunca exigiram: vulnerabilidade. Carregar um amor antigo e profundo pela minha melhor amiga nunca foi simples. Era perturbador. Uma paixão tão presente que se infiltrou na rotina: no café da manhã, no sorriso distraído dela, no perfume que permanecia depois que ia embora. Meu defeito nesse assunto, sempre foi a lealdade excessiva do próprio coração — a ponto de nunca ter me confessado. Nem de permitir amar outra pessoa. Aprendi cedo duas regras fundamentais: Poder não se ostenta — se exerce. Vulnerabilidade não se admite — se esconde. Fui criado para liderar. Estudei administração, design e negócios. Aos trinta anos, me tornei CEO do Teixeira Group. Um futuro brilhante e previsível — exatamente como minha família esperava. Exatamente como meu pai queria. Para o mercado, eu era impecável: competente, preciso, sensível ao design, com faro para talentos e leitura de tendências antes do tempo. Mas havia um problema essencial: eu sentia demais e falava de menos. Sempre gostei de estar bem apresentado — no universo da moda, isso é linguagem. Trajes que comunicavam poder e confiança. Camisa levemente aberta fora do expediente. Bons tecidos, bom corte, um perfume amadeirado que dizia mais do que eu jamais diria em voz alta. Corpo treinado, postura controlada, elegância discreta — daquelas que não pedem atenção, apenas a conquistam. Eu seduzia sem esforço. Mas nunca fui capaz de conquistar quem realmente queria. Com ela, sempre me faltaram palavras. Porque com Laís o desejo nunca foi apenas carnal — era íntimo. Queria entender seus silêncios. Saber por quem sorria numa ligação às três da tarde. Queria, acima de tudo, estar onde ela estivesse — mesmo que apenas como amigo. Tudo se intensificou depois que ela concluiu sua especialização e voltou ao país. Eu sabia que seria difícil tê-la tão perto. O amor cresce como as coisas perigosas: silencioso, inevitável, impossível de conter. Depois daquela noite — a única — ela se enraizou ainda mais em mim. E aquele foi o último dia em que me permitiu visitá-la. Anos depois, ela estava ali novamente. Não de férias. Mas para trabalhar comigo. Na minha empresa. Como sempre havíamos falado — e nunca realmente acreditava. Seu retorno foi uma decisão estratégica. Oficialmente. Mas, no fundo, eu sabia: além da presença, seu talento elevaria qualquer projeto a outro patamar. Ela entrou na sala de reuniões no dia em que eu apresentava uma nova coleção a investidores estrangeiros. O silêncio mudou quando ela cruzou a porta. Não porque estivesse vestida para impressionar — mas porque ali existia uma história que ninguém conhecia. Exceto Ugo. Meu tio sorriu com cordialidade. Ele sabia dos meus sentimentos por ela. — Senhores, apresento Laís Bonatti — anunciei. — A partir de agora, fará parte da equipe criativa estratégica. Ela me olhou. Não desviou. Não hesitou. E naquele olhar estava tudo o que tentei enterrar: desejo, saudade, medo… e algo novo. A partir dali, os conflitos deixaram de ser apenas corporativos. Ela não era mais a menina do ateliê. Era uma profissional brilhante, influente — e capaz de mover peças que ninguém jamais moveria sozinho. Nunca deixei de desejar tudo o que ela representava: o toque, a admiração, a cumplicidade silenciosa, a sensação rara de ser visto além do título — além da máscara. Laís sempre foi difícil de decifrar. Ou talvez eu nunca tenha sabido fazê-lo. E talvez esse fosse seu maior talento. Elegante sem esforço. Observadora antes de agir. Calculada — mas nunca fria. Seu cálculo era nostálgico, irradiava calor, estética e desejo. Ela criava beleza como quem respira. Tinha ambição. Mas, acima de tudo, curiosidade — essa força perigosa que não respeita limites nem hierarquias. Sempre fiel à própria visão. À fome por liberdade. À necessidade de existir sem ser explicada. Foi criada pela mãe — uma mulher extraordinária. Estar perto dela, mesmo à distância, sempre me fez bem. Eu a conhecia o suficiente para perceber quando algo estava fora do lugar. Nosso trabalho junto flui. E ela me supreendia cada vez mais. Mas depois de alguns meses na empresa, eu percebi uma diferença nela. Então veio a confirmação da minha suspeita. — Erick… — ela disse, prendendo o cabelo atrás da nuca, um gesto simples mas que era encantado. — E de repente ela soltou . – Erick ,existe uma pessoa. A frase me atingiu. Mas não sangrou para fora. CEOs aprendem cedo a disfarçar emoções mortais com expressões neutras. Aqui foi um impacto em mim.tentei disfaçar da melhor forma possivel. — Fico feliz por você — respondi, como se não estivesse mentindo. Laís sorriu. — Obrigada. E ali, naquele sorriso, eu entendi: o jogo mais difícil da minha vida havia começado. E eu teria que ser forte o suficiente pra suportar , a pora toda que viria na minha cara.
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