CAPÍTULO 7:
Bastava Isso Para Meu Corpo Reagir
"Erick Teixeira"
Aquilo me inquietou de um jeito físico, quase irritante. Eu soube antes mesmo de ela dizer. Soube porque conhecia Laiz demais para notar quando alguém já tinha atravessado suas defesas.
E então veio a confirmação: Ela estava namorando, e ele se chamava Marcos.
Um nome que ela começou a pronunciar com cuidado. Sem exageros românticos, sem aquele tom performático ,que algumas pessoas usam para convencer o mundo, ou a si mesmas. Era simples. Seguro. O que, de alguma forma, tornava tudo pior.
Meses se passaram desde a volta dela, e às vezes eu a via em ligação com ele. Sempre discreta, sempre reservada. Bastava isso para meu corpo reagir antes da razão: tensão nos ombros, mandíbula travada, uma irritação que eu não sabia explicar sem parecer ridículo.
Eu precisava fugir daquilo. Precisava me distrair.
Ugo era sempre a pessoa que me ouvia nessas horas. — meu amigo, minha válvula de escape pra desabafar.
E quando não resolvia eu procurava alguém interessante, e álcool suficiente para silenciar pensamentos. E sexo casual como anestesia.
Isso funcionava por algumas horas. Depois vinha o vazio. E a culpa. Eu me sentia um merda.
Esse ciclo começou a se repetir desde a chegada de Laiz. Quase sempre coincidindo com o reaparecimento de Marcos — presencial ou virtual.
Era como se ele surgisse apenas para bagunçar minha paz, lembrar que havia um território que não era meu.
O bom ,é que ele nunca estava nos eventos. Nunca aparecia em lançamentos, exposições, reuniões sociais. Estava sempre ocupado. Distante. Ela nunca entrava em detalhes. E eu nunca perguntei.
A Lembrança de quando ela me disse que
estava namorando, foi abrupto. Em um fim de tarde qualquer no ateliê.
Naquele dia estávamos cercados por amostras de tecido, testes de luz, ideias ainda quentes demais para serem organizadas.
— Erick… — ela começou, prendendo o cabelo atrás da nuca. Um gesto automático. Nervoso.
— Existe uma pessoa. Foi só isso.
Mas foi suficiente para deslocar o eixo do meu mundo.
E quando Marcos apareceu pela primeira vez numa noite de finalização de campanha. Eu discutia paleta de cores com a equipe quando ouvi a porta abrir. Logo depois, um perfume estranho invadiu o espaço, madeira, algo cítrico, contido. Um cheiro que não pertencia àquele universo.
— Cheguei cedo? — perguntou uma voz calma, segura demais para pedir desculpa.
Laiz mudou instantaneamente. O corpo relaxou. A postura se reorganizou. Aquilo me irritou mais do que qualquer toque explícito.
— Não, nada disso – você está ótimo — disse ela, indo até ele sem perceber que todos estavam olhando.
Marcos era mais alto do que eu imaginava. Menos imponente também. Não ocupava espaço à força , ele simplesmente estava ali, e o ambiente se ajustava. Os olhos atentos, sorriso econômico. Não era bonito de imediato, mas tinha um magnetismo difícil de explicar.
— Erick, disse Laiz, virando-se para mim. — este é o Marcos.
Foi a primeira vez que o vi.
Ele estendeu a mão. Aperto firme, observando. Então Sorri com a eficiência treinada por um executivo.
— Prazer — ele disse.
O que me incomodou não foi o quase imperceptível toque da mão dele na lateral do corpo dela. Foi o fato de aquilo parecer ensaiado pela i********e. Natural. Antigo.
A equipe se dispersou aos poucos, como se sentisse que aquela cena não lhes dizia respeito. Marcos caminhou pelo ateliê, observando fotos, tecidos, sketches espalhados.
— Você tem um universo aqui — comentou.
— Ela tem vários — respondi, antes que Laiz pudesse.
Ele sorriu – Um sorriso curto. Inteligente. Entendeu o desafio implícito e escolheu não devolvê-lo. Aquilo me irritou ainda mais.
E foi ali que começou o martírio.
Marcos não era constante. Era recorrente. Aparecia de tempos em tempos. O suficiente para marcar presença. Às vezes trazia café. Às vezes só encostava na parede e observava Laiz trabalhar. Não interferia. Não opinava, só observava ela.
Já eu ,interferia demais. Organizava. Corrigia. Controlava. Pois tudo à minha volta, precisaria caber num relatório anual.
Certa noite, quando estávamos sozinhos, ele disse sem aviso:
— Você olha pra ela como alguém tentando decifrar um mapa.
Demorei um segundo para perceber que era comigo.
E minha resposta, foi rápida e respondi com uma pergunta.
— E você, como olha? — Ele deu um gole no café.
— Eu não olho pra entender – Olho pra não esquecer.
Laiz estava a poucos metros, ajustando a luz, aparentemente alheia.
O ciúme não veio como drama. Veio como falha técnica. Um erro de cálculo. Um elemento inserido na equação sem autorização.
Eu podia competir com investidores, criativos, com a própria Laiz. Mas competir com alguém que já tinha aquilo que eu nunca tive… isso era novo. Humilhante.
E então ele veio passar as férias com ela, e o incômodo virou dor constante.
Numa noite chuvosa, o prédio estava quase vazio, eu revisava orçamentos enquanto Laiz ajustava a luz sobre uma bailarina.
O corpo marcado, ossos desenhando partituras sob a pele.
Marcos entrou sem aviso. Sacudiu a água do cabelo, largou a sombrinha.
— Está chovendo o suficiente pra afogar os distraídos.
Laiz sorriu e o cumprimentou com um beijo rápido. O detalhe me atingiu como um soco: ela inclinou a cabeça de um jeito que nunca inclinou para mim. Um gesto que o corpo aprende com o tempo.
— Faltam quantas? — ele perguntou.
— Duas. Talvez três.
— Ela está ótima hoje — disse Laiz, referindo-se à bailarina.
A modelo sorriu, fascinada. Todos se fascinavam por Laiz.
— Quer ficar? — ela perguntou.
— Eu sempre quero — respondeu ele.
Foi ali que percebi: ela já notava a guerra silenciosa. Marcos desviou o olhar rápido demais. Três pessoas sabem quando estão num campo minado.
Depois da sessão, ficamos os três. E três é sempre uma geometria perigosa.
— Como vocês se conheceram? — perguntei, educado demais para ser inocente.
Marcos respondeu antes dela.
— Num curso de negociação.
— Ela não negociou nada — completou.
— Só questionou tudo.
– Laiz riu.
E naquele riso havia uma i********e que eu nunca consegui conquistar.