Dia 9 — por Milena.
Aquele domingo passou voando, pela manhã eu e Eduardo conversamos, ele disse que sua irmã conhece uma vidente e jura que a mulher é boa, ele propôs de eu me consultar com a mesma, no começo achei meio ridículo mas depois de pensar um pouco acabei concordando, então Eduardo ligou para Maria Eduarda e pediu que ela conseguisse um horário com a tal vidente, ele inventou uma história qualquer para justificar e a garota acreditou.
Na hora do almoço nos dois saímos com o Artur para comer alguma coisa e passamos o resto da tarde entretendo o garoto com jogos no apartamento mesmo. Por volta das três horas paramos para tomar café, Eduardo aproveitou para guardar os brinquedos e colocar um filme para distrai o menino.
— Terminei! — Artur falou para Eduardo que estava tomando café na cozinha, o mesmo veio até a sala para pegar o copo do garoto. — posso tomar sorvete agora?
— Você por acaso não tem fundo não? Vai acabar passando m*l.
— Mas eu tô com vontade. — falou manhosinho.
— A você está com vontade? — Eduardo perguntou rindo. — e sabe do que eu estou com vontade? — Artur balançou a cabeça negativamente demostrando que não sabia. — eu estou com vontade de te encher de cocegas. — falou e começou a fazer cocegas no menino, o mesmo caiu na risada até chegar a chorar.
— Pala, pala. — Artur implorou já não se aguentando mais.
— Ainda quer tomar sorvete? — Eduardo perguntou e o menino negou.
— Minha barriga doeu.
— Pensei que você gostasse de bagunça.
— Minha vez! — o menino se recuperou, gritou e pulou em cima do pai tentando a todo custo fazer cocegas no mesmo.
Eu, que permanecia sentada no outro sofá estava quase morrendo de rir da bagunça deles, uma coisa que notei nesses últimos dias é que Eduardo é um excelente pai e isso é encantador.
— Espera meu celular está tocando. — Eduardo falou enquanto tentava empurrar delicadamente o filho. — deixa eu atender. — ele conseguiu que Artur o soltasse e pegou o aparelho. —é sua mãe. —em seguida se afastou para atender. —o que você quer? —mesmo de longe eu ainda podia ouvi-lo. —tá, tudo bem, daqui a pouco estou indo. — e desligou em seguida.
— O que a mamãe queria?
— Ela disse que não vai poder vir te buscar e me pediu para levar você. —Eduardo explicou.
— Que horas a gente vai?
— Já tá querendo me deixar moleque? —Eduardo perguntou voltando a fazer cócegas no menino que por sua vez gargalhava alto. —agora chega, vai lá se arrumar, vou juntar suas coisas e te levar pra sua mãe.
— To com preguiça. —o menino falou manhoso. —posso ficar aqui até amanhã?
— E como você vai pra escola sem seu uniforme e material?
— Eu não vou na escola. —respondeu simples.
— Tu és muito sem vergonha. —Eduardo deu um t**a de leve no menino. —levanta daí e vai se arrumar logo.
Minutos depois Artur já estava pronto e Eduardo voltava do quarto trazendo a mochila do rapaz.
— Ai, você dá uma carona para a gente? — Eduardo perguntou mim.
— Eu?
— É. — respondeu.
— Eu... eu não sei dirigir. — falei um pouco envergonhada.
— Ta brincando? — Eduardo pareceu não acreditar. — quantos anos mesmo você tem?
— 20 anos.
— E ainda não sabe dirigir? Em que mundo você vive? — ele riu e aquilo me deixou incomodada. — vem com a gente, pelo menos se alguma blitz nos parar é mais fácil para mim explicar de quem é o carro.
— Tudo bem. — concordei me levantando. — só vou trocar de roupa rapidinho.
— Ok. — Eduardo disse enquanto eu seguia para meu quarto.
Assim que me vesti nos saímos, Eduardo foi dirigindo e nos afastamos ainda mais por um bairro do subúrbio, juro que fiquei com medo de ir parar em uma favela, mas por sorte não fomos, assim que estacionou em frente a uma casa, tanto ele quanto Artur desceram e entraram na residência, fiquei no quarto aguardando pacientemente, Eduardo demorou um pouco e quando voltou não estava com a melhor cara do mundo.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.
— Aconteceu, Felícia voltou com o ex dela. — falou amargo.
— Isso te incomoda tanto assim? — ele pensou um pouco antes de responder.
— Eu sei que não deveria, mas... — respirou fundo e de um jeito pesaroso.
— Algumas coisas são difíceis de esquecer. — completei olhando para o nada.
— Algo me diz que você já passou pelo mesmo que eu. — virei meu rosto na direção de Eduardo e o encontrei me olhando atentamente, por um instante me perdi em seus olhos negros, mas logo voltei a mim.
— É complicado. — me encolhi no banco.
— Não to com pressa nenhuma. — Eduardo se recostou no volante e continuou me encarando.
— Sábado passado eu estaria completando três anos de namoro.— comecei a falar.— então eu resolvi fazer uma surpresa para ele na sexta, ele disse que não poderia me encontrar mas mesmo assim eu continuei com meu plano.— dei uma pausa e respirei fundo.— só que no final da noite a surpresa acabou sendo para mim, eu encontrei ele com outra mulher, me traindo, as vésperas do nosso aniversario de namoro.— sorri friamente.— e pensava em me casar com ele.— meus olhos marejaram.— eu o amava!— completei e em seguida uma lagrima rolou, mas eu tratei logo de seca-la.— quando eu voltei a encarar Eduardo ele ainda mantinha o olhar fixo sobre mim.
— Eu nem sei o que dizer. — ele parecia tão perdido quanto eu. — acho que as pessoas não pensam antes de tomar decisões, elas simplesmente entram num relacionamento sem se importar se vai durar ou não, não existe mais aquele entrega, o comprometimento, a traição virou uma coisa comum e banal.
— Infelizmente é essa nossa realidade. — falei e sorri tristemente. — é melhor irmos ou sua ex vai achar estranho ainda estamos parados na frente da casa dela.
— Acho que ela estava ocupada demais para notar que ainda estamos aqui. — foi a vez dele rir. — precisamos de algo para nos distrair.
— O que você sugere?
— Tenho uma ótima ideia. — ele falou ao mesmo tempo que dava partida no carro e seguia por um caminho que não era o mesmo que tínhamos vindo.
— Pra onde estamos indo?
— Você vai ver.— respondeu vagamente, como uma pessoa curiosa que sou eu estava me correndo por dentro e só piorou quando Eduardo parou em uma estrada sem movimento.