Angelina
Os dias foram passando normalmente. Eu ia para faculdade todos os dias de segunda a sexta, e com todo aquele gasto, eu decidi que queria arrumar um emprego. O custo da condução é altíssimo e eu não quero dar mais despesas para os meus pais. Mesmo morando em cima da casa deles, eu já não sou mais responsabilidade dos dois, mas mesmo assim eles fazem questão de me ajudar com as contas da faculdade. É uma ajuda e tanto, mas eu já não quero ser um peso na vida deles.
— Filha, eu faço isso com gosto, quero um futuro para você, é uma honra poder te proporcionar isso, assim como fiz para o seu irmão.- diz meu pai com seu jornal nas mãos.
Nós estamos sentados no quintal de casa em uma manhã de sábado. Conversávamos sobre coisas aleatórias, até que entrando nesse assunto.
— Eu sei pai, mas eu não quero dar mais trabalho.- falo me endireitando na cadeira ao lado da minha mãe.
— Não é trabalho nenhum querida.- ele diz intercalando sua atenção de mim para o jornal.
— Mas só a viagem que eu faço pra chegar até lá é muito cansativa, sabia? Pedi transferência faz um tempo, mas não tive nenhuma resposta. Eu estava querendo arrumar um emprego e alugar um apartamento pequeno lá por perto.- meu pai abaixa o jornal na mesma hora para me encarar.
Minha mãe gira a cabeça em minha direção igual o filme O Exorcista.
— Como?.- ele pergunta com a testa enrugada.
— Eu estava só pensando pai, queria arrumar um emprego e alugar alguma coisa perto da faculdade. Além de poupar o dinheiro de vocês, eu não ia mais fazer toda aquela viagem.- dou de ombros mexendo em uma florzinha que peguei no canto da parede.
— Bom.- meu pai começa a dizer se endireitando na cadeira.- acho que podemos alugar um apartamentinho pra você por lá, podemos pagar ele até o termino da sua faculdade e você ter condições de arrumar um emprego que te ajude a pagar suas dispensas sozinha. Mas, não tem como você arrumar um emprego estudando em uma faculdade de segunda a sexta, de 8 às 18 da tarde filha.- ele diz e minha mãe encara ele desacretitada em suas palavras.
— Jorge?.- ela brada incrédula.
— O que foi Luana?.- ele pergunta olhando para ela de volta.
— Essa ideia é absurda, Angelina tem a casinha dela aqui, perto da gente.- minha mãe diz sentida e se vira para mim.- filha, já não basta seu irmão que mora fora do país, não acho necessário você sair de perto de nós.- me olha preocupada e cheia de ansiedade.
Minha mãe é uma mãe muito coruja, ela não se conforma até hoje do Jonas ter ido embora de casa. Layla pelo menos mora na rua da frente, mas pela minha mãe, com certeza tinha feito uma casa pra ela aqui dentro do quintal também.
— Eu só estou encorajando minha filha a ser independente querida, ela tem que viver a vida dela, se é isso que ela deseja.- meu pai explica calmamente, e vejo nos olhos da minha mãe a sua preocupação.
— Mãezinha, lá eu vou ficar mais perto da faculdade, mas não significa que vou morar lá para sempre.- seguro na mão dela para lhe dar um conforto.
— Não gosto da ideia dos meus filhos indo para longe de casa.- ela reclama, meu pai balança a cabeça voltando a ler o seu jornal.
— Não dá pra manter eles aqui pra sempre mulher.- diz pra ela com a cara enfiada* no jornal mais uma vez.
Minha mãe me olha com os olhos brilhando, e vejo o quanto ela provavelmente queria me colocar dentro de um pouquinho de vidro agora e não me deixar sair nunca mais.
— Eu quero que você siga sua vida, mas não precisa ser longe de mim.- ela diz e eu a puxo para um abraço.
— É só por enquanto mamãe, eu vou está aqui todo final de semana, a senhora vai vê.- a tranquilizo.
◆◆◆
Já se passaram cinco meses e meio desde a minha viagem para Unamar. Eu e o Thomas estamos nos entendendo muito bem graças a Deus. Vejo o esforço dele para manter uma relação saudável, com o mínimo de desentendimento possível. Ele também tem sido mais paciente, e eu também tenho tentado dá o melhor de mim para que isso dê certo de verdade.
Não tive mais notícias do Marcelo, já faz quase seis meses e nada. Por isso sei que fiz a escolha certa, continuei o meu caminho, mas tenho ele guardado no meu peito* como uma boa lembrança e a minha maior saudade para sempre.
Assim que subo para casa, eu já começo a procurar apartamentos no rio perto da minha faculdade, estava muito ansiosa para esse momento. Não quero nada muito grande, que seja pequeno, ajeitadinho, que me dê um conforto e que caiba no meu bolso.
Passo horas navegando pela internet, e quando vejo a hora, corro para o guarda roupas para começar a me arrumar. Combinei de ir ao shopping com o Thomas e vou aproveitar para contar minha decisão para ele. Não sei qual vai ser sua reação, mas acho que talvez ele não goste muito da ideia.
Depois de um banho mais demorado do que pretendia, eu coloco uma calça jeans meio larga com a ponta de sino e um cropped rosa. Um óculos no rosto e faço um coque estiloso no cabelo. Minha maquiagem é bem basiquinha e já estou pronta para sair.
Desço as escadas com o meu celular na mais e espero pelo Uber no portão de casa.
Enquanto o espero chegar, eu fico navegando pelo i********: ou f*******: e me pego procurando pelo Marcelo.
Eu nem sei o sobrenome dele e na real, eu nem sei se realmente quero encontrá-lo. Mas nos últimos meses se tornou quase automático fazer isso. Fico me perguntando se ele faz o mesmo, se ainda pensa em mim ou ao menos se lembra de tudo que aconteceu nas nossas férias. Ainda é um pouco doloroso pensar na gente, em tudo que nós vivemos, ainda é bastante vivo em mim, todos os nossos momentos, ainda sinto meu peito* inchar quando lembro de seus beijos…
Meu Uber finalmente chega e eu empurro esses pensamentos para dentro da caixinha invisível que criei na minha cabeça especialmente para eles, e entro no carro.
A viagem não é muito longa, e dez minutos depois eu já estou descendo do carro. Marquei de me encontrar com Thomas na praça de alimentação, então vou para lá direto.
Hoje como é um final de semana e começo de mês, o shopping está lotado, tenho que passar me desviando das pessoas, reclamando do quanto a praça de alimentação está abarrotada de gente para todos os lados. Não vai ser tão fácil assim encontraria o Thomas no meio dessa multidão toda. Vou olhando em todas as direções, à procura de um rapaz n***o*, e provavelmente com uma blusa branca, pois o meu noivo adora sair de blusa branca. Às vezes dou uma levantada no pescoço para enxergar melhor e até fico na ponta do pé.
Mas a frente, vejo o Thomas com uma blusa azul gola polo e um boné branco virado para trás. Ele está ao celular e parece bem nervoso. Ele ainda não me viu, pois estamos em uma distância considerável. Vejo que ele passa a mão pelo rosto e depois apoia o cotovelo na mesa rosnando algo para o aparelho.
Quando ele me vê, parece ficar um pouco ansioso. Vira o rosto para falar mais alguma coisa e desliga a ligação. Eu fico um pouco preocupada e me aproximo com cautela.
— Oi.- digo quando chego na mesa dele.
— Oi amor, você demorou.- diz se levantando para me dá um beijo e depois nos sentamos um de frente para o outro.
— É eu sei, me desculpe, eu comecei a me arrumar tarde.- coloco minha bolsa em cima da mesa.
— Tudo bem, não tem problema.- diz sorrindo e segurando minha mão.
— Você está bem? Te achei meio nervoso no telefone.- pergunto o encarando e o vejo limpar a garganta antes de responder.
— Não é nada de mais, não precisa se preocupar com isso.- ele tenta disfarçar, mas eu sei que tem algo de errado acontecendo.
— Tem certeza amor? Como está sua tia?.- a tia do Thomas infelizmente continua internada, o estado de saúde dela é tão grave, que somente os familiares podem visitá-lá, e por isso eu ainda não pude dar essa força a ele.
— Está na mesma, mas graças a Deus também não piorou.- ele dá de ombros triste e eu aperto sua mão lhe confortando.
— Oh amor, sabe que estou aqui né? Você não está sozinho.- Thomas retribui o carinho com um sorriso amigável.
— Só de ter você por perto já me deixa melhor. Você sabe que você é tudo pra mim né? Se eu perder você eu acho que morro, é sério, eu não aguentaria. Você é a minha vida, a minha força.- agora quem aperta minha mão é ele, e eu sorrio.
— Não precisa se preocupar com isso, você sabe que sempre vou estar aqui por você.- ele sorri feliz agora.
— Mas me conta, como foi sua semana? Está com fome? Quer pedir alguma coisa agora? O que você quer fazer?.- ele pergunta tudo de uma vez só e eu começo a rir.
— Nossa, vamos com calma.- a gente ri.- tenho uma coisa para te contar.- eu começo.
Quero falar pra ele sobre a mudança, isso está me deixando muito nervosa. Mas talvez eu esteja me preocupando atoa, desde o final das férias onde ele prometeu que ia se controlar mais, e não ia mais ficar brigando por qualquer coisa, ele tem cumprido com sua promessa, e talvez fique até feliz por mim. É tudo o que eu quero.