Marcelo
Tomamos o nosso café, rindo e planejando como será o dia de hoje, tentando decidir se vamos para uma outra praia, ou ficamos por aqui mesmo. Depois de um tempo, optamos por ficar por aqui mesmo hoje, queremos conhecer melhor o local, e já que temos o privilégio de ter uma praia na esquina de casa, vamos curti-la.
Acabamos o café da manhã, e nos arrumamos para ir à praia.
- Os vizinhos estão saindo para algum lugar.- diz minha mãe reparando na movimentação do lado de fora.
- Deixa de tomar conta da vida dos outros dona Anahi.- implicou com ela, e ela me olha zangada.
- E eu tenho tempo pra tomar conta da vida dos outros rapaz? Me respeita.- eu começo a rir do jeito que ela fala, enquanto termino de pega as coisas que vamos leva para a praia.
- Vamos lá.- coloco a cadeirinha da Iza no ombro, pego as sacolas com os brinquedos, minha mãe traz uma cadeira para ela sentar, e dona Beth também vem atrás de nos com sua cadeira nas mãos.
Os carros dos vizinhos passam cheios por nós, em direção ao seu destino, e nós também fazemos nosso caminho. Paramos bem perto de um banquinho que já fica fincado na areia da praia, e colocamos as coisas no chão.
- Aqui está bom.- diz minha mãe olhando em volta, colocando sua cadeira na areia.
- Vou abrir o guarda-sol.- anúncio pegando da mão da dona Beth, e começo a abri-lo.
Passamos a manhã toda na praia, voltamos para casa somente pra almoçar, e retornamos novamente a praia.
O dia foi bastante agradável, eu consegui curtir o máximo com minha filha. Nós nadamos, corremos, fizemos castelo de areia, aproveitamos o sol, até comemos picolé. Quando o sol começou a se pôr, eu mudei a roupa de banho da minha neném para uma mais tampadinha, e continuamos brincando, cantando, e nos divertindo. Fazia tempo que eu nao me sentia assim, feliz. Ter minha filha, minha familía por perto, e o que me deixa em paz.
Logo meu celular toca, e vejo o nome da Mikaela na tela.
Santo Deus, espero que não seja mais problemas!
- Alô- atendo a ligação já receoso.
- Marcelo?- ela pergunta com certa cautela.
- Oi Mikaela, pode falar- tento lhe passar confiança, mesmo estando um pouco incomodado com essa ligação inoportuna.
- Por que você não me atende?
- Só vi tocar agora. Aconteceu alguma coisa?
- Não aconteceu nada Marcelo, mas meu pai perguntou por você, e eu também estou com saudades.- ela diz mais manhosa do que nunca, e eu respiro fundo.
Não quero que minha mãe perceba alguma coisa estranha nessa ligação. Mikaela não é de cobra atenção desse jeito, mas para ter feito isso, certeza que foi por influência de Smith.
- Entendi, eu só quero passar um tempo a sós com a minha família, mas logo estarei de volta.- tento ser cirúrgico, e mostra o mínimo de afeto nessa conversa.
- Está bem meu amor, espero que você esteja se divertindo muito, queria está aí com vocês.- Eu sei que o desejo de Mikaela é que eu a apresente formalmente para minha mãe e filha, mas eu ainda não estou preparado para esse encontro, e nem sei se um dia estarei.
- Sabe que é complicado.- começo a ficar nervoso, me sentindo pressionado por seu simples comentário.
- Eu sei, não quero apressar as coisas, só não quero que se esqueça que estou aqui, lhe esperando. Quero fazer parte da sua vida Marcelo.- ela diz com fervor, e eu suspiro mais uma vez, me sentindo culpado.
Querendo ou não, eu tenho um compromisso com Mikaela, e mesmo sendo a contra gosto, não posso culpá-la por isso.
- Eu sei, não se preocupe, prometo que resolverei isso assim que for possível.- tento dispensa-la, sabendo que minha mãe já percebeu minha irritação.
- Tá bom, eu confio em você. Boas férias.- finalmente ela desiste de marcar seu território.
- Obrigada, igualmente. Desligo imediatamente, passando a mão pelos cabelos exasperado.
Mikaela não é uma má pessoa, e até hoje não sabe do acordo que fiz com seu pai, e se depender de mim, nunca saberá. Porém, ela é uma menina, que sonha a muito tempo com um casamento de princesa, ela quer que esse casamento de certo e que finalmente consiga me prender de vez. Mesmo antes do acordo acontecer, ela já tinha esperanças de que um dia eu a notasse. Quando finalmente conseguiu, eu não pude dar a ela toda a atenção que queria. Eu sei muito bem que ela não teve culpa do que me aconteceu, mas era só olhar pra ela que me lembrava de tudo que eu estava sendo forçado a suportar.
Não sei se esse é o momento certo para oficializar esse acordo, minha filha ainda é muito pequena, e já passou por uma perda muito grande na vida dela, não quero confundir sua cabecinha pequena, fazendo-a conviver com uma outra mulher, e acabar apagando as lembranças que ela ainda tem de Emily.
- Olha o que eu fiz papai.- Izabela chama minha atenção, mostrando o montinho de areia que diz ser um castelo.
- Que lindo filha, parece a casa do João de barro.- eu falo sorrindo e minha mãe me dá um empurrão de leve.
- Não fala assim Marcelo, vai traumatizar a menina.- ela briga.
Vou pra perto da minha filha ainda sorrindo, na esperança de ajuda-la a fazer um castelo melhor.
◆◆◆
- Papai, a gente pode comer marshmallow hoje?.- Iza pede me encarando com aquela carinha mais linda do mundo.
- Se não tiver ventando muito, podemos sim meu amor.- digo a ela, enquanto pego nossas coisas.
Sempre que estamos de férias, gostamos de fazer fogueira à noite e queimar uns marshmallow à beira da praia, ou em algum acampamento.
Recolho nossas coisas, e começamos a sair da praia. A noite está começando a cair, e os vizinhos aproveitaram o tempo fresco para colocar cadeiras no portão, enquanto as crianças brincam na rua. Izabela já fica animada vendo um menino e uma menininha correndo pra lá e pra cá. Ela sempre foi muito sozinha, não temos contato com nenhum parentes, a não ser os da parte da mãe dela, porém, mesmo lá, quase não tem crianças, o único contato que ela tem com crianças da idade dela é na escola, e minha filha ama fazer amizades.
- Papai, papai? Eu posso brincar?.- minha filha pede pulando em seus pezinhos e eu fico com peninha. Não conheço essas pessoas, e também não sei se eles vão achar uma boa ideia.
- Filha, precisamos saber se eles vão querer brincar também.- falo enquanto vamos chegando mais perto das criança.
Izabela fica olhando para eles jogarem bola, com os olhinhos brilhando.
- Eva, chama a amiguinha pra jogar também.- uma jovem bem bronzeada, que está sentada ao lado de um rapaz n***o sem camisa, diz para a garotinha, que logo joga a bola no pé da Izabela.
Minha filha rapidamente coloca o pé, chutando de volta pras crianças, já indo correndo pra mais perto deles.
- Boa noite.- eu e minha mãe dizemos ao mesmo tempo, e todos eles nos respondem simpáticos.
- Boa noite.- todos dizem em um só som.
- Ela ficou toda empolgada quando viu eles brincando de longe.- diz minha mãe vendo os três jogarem bola.
- Ah, eles adoram uma farra.- uma outra senhora mais fortinha diz sorrindo.
- Iza também, ela quase não brinca com crianças, quando ela encontra uma, já fica toda empolgada.- minha mãe continua a conversa.
Eu fico olhando minha filha toda feliz, e fico pensando: Talvez se eu e Emily tivéssemos mais tempo, teríamos tido outros filhos, e nossa pequena não ficaria tão sozinha. Esse é um pensamento que me deixa cabisbaixo, ainda me culpo todos os dias, ainda mas quando olho para Izabela e imagino os momentos que não vamos mais ter com Emily. Tínhamos tantas coisas para realizar.
- Ela tem quantos anos?.- uma das moças que estava sentada de costas, se virou para olhar pra mim, e pergunta.
- Vai fazer três anos mês que vem.- respondo sorrindo sem mostrar os dentes.
- É a mesma idade da Eva.- a primeira moça diz balançando a cabeça.
- Vocês moram por aqui mesmo?.- uma moça de blusa listrada pergunta.
- Não, moramos em Washington, Estados Unidos, mas temos residência no Rio também. É a primeira vez que passamos as férias aqui, nossa casa acabou de ficar pronta, é aquela ali.- minha mãe aponta, e todos abrem a boca concordando.- por isso não conhecemos nada e nem ninguém por aqui ainda.- ela explica.
Tento disfarçar, mas fico cabreiro em dá tanta informação da nossa vida assim a pessoas que acabamos de conhecer, mas minha mãe não se incomoda nem um pouco.
A moça de cabelos curtos nos pede licença, ao levantar de sua cadeira, indo para dentro da casa, enquanto nós continuamos com o bate papo.
- A gente também é do rio, mas já temos essa casa aqui a alguns anos, viemos sempre para cá, eu particularmente gosto muito.- a senhora fortinha nós conta.
- Meu filho comprou o terreno a pedido da sua esposa, ela queria muito uma casa aqui. Ela era arquiteta e projetou a da casa toda de cabeça, antes mesmo de achar o terreno.- ela continua dando todos os detalhes a eles e todos concordam sorrindo.
- Poxa que legal, ela deve amar essa casa com todas as forças.- a mulher de blusa listrada diz.
- Ela amava.- eu sorrio meio sem graça.- Infelizmente ela não conseguiu vê-la pronta, minha esposa faleceu, já vai fazer um ano.- acabo contando a eles, e todos se assustam.
- Nossa, meus pêsames.- dizem meio sem graça, e eu agradeço.- poxa, mas a neném é tão pequena.- uma delas lamenta, e eu concordo.
Nesse momento a moça que se levantou, retorna lá de dentro, e senta no seu lugar novamente.
- Sim, foi uma barra, mas agora estamos nos reerguendo.- minha mãe conta, e eu concordo.
- Senta gente, vou pega uma cadeira pra vocês.- uma menina diz.
- Não, não se preocupe, nós já vamos entra.- eu falo tentando induzir minha mãe ir para casa.
Quero tomar um banho e deitar um pouco, Izabela levou toda as minhas energias, e eu ainda não me acostumei com o sol aqui do Brasil novamente.
- Ah poxa, a Iza está em uma brincadeira tão divertida.- a senhora fortinha diz sorrindo, e eu olho na direção deles sorrindo também. Agora eles já estão brincando de pique pega.
- Ah meu filho, deixa ela brincar.- minha mãe pede feliz em ver a neta fazendo novas amizades.
Eu não tenho argumentos quanto a isso, vê minha filha se divirtir daquela maneira não me dá outra opção a não ser deixar ela ser criança. Quando eu ia concordar, o barulho do portão de madeira tira a minha atenção, e uma mão feminina emerge de dentro dele.
Logo depois, meu coração parece quase sair pela boca. Eu não sei se estou vendo um fantasma, ou estou começando a delirar. Minha mente deve está querendo me pregar uma peça no meio de todas essas pessoas, ou Deus está querendo me punir de alguma forma.
Meu coração parece bater na garganta, me dificultando engolir a saliva.
Jesus, isso é real?
- Meu Deus.- o sussurro da minha mãe me tira do delírio, e me alivia em saber que não é só eu que estou vendo aquela mulher ali, parada com os olhos assustados pela maneira que a encaramos.