Capítulo 11

2237 Palavras
Angelina A noite vai caindo, e as crianças começam a ficar cansadas e com sono. Eu já me deitei na canga, virando minha atenção para as estrelas. Elas estão especialmente bonitas hoje, parecem uma festa de luzes em uma noite escura e calma. Minha madrinha já foi se deitar, levando Eva junto com sigo. Dona Beth e Izabela também já entraram. Abigail se despede dos demais, e também leva seus filhos para casa, ela só precisou acordar Olívia, já que a pequena tinha dormido em sua canga. Dona Anahi aproveita para ir junto com elas. Noah e Linda estão agarradinhos em uma conversa sussurrada, um pouco mais afastados de nós. No final, onde nós estávamos, só resta eu, Marcelo e Emma, que conversam sobre algo que eu não dou muita importância, e os deixo em privacidade. Fico perdida em meus próprios pensamentos, até que Emma começa a se despedir, se levantando da areia, enquanto pega suas coisas para voltar pra casa. - Você já vai?.- pergunto levantando meu corpo do chão a encarando. - Sim, agora o sono bateu.- Emma diz limpando a areia de sua roupa. - Eu também vou.- digo sem fôlego, me levantando rapidamente do lugar. Não quero ficar sozinha aqui com ele, não sei como reagiria. Sinto uma enorme atração física por ele e não posso negar, isso pode ser perigoso. - Por que você não fica mais um pouco?.- diz Marcelo me surpreendendo, me encarando com seu olhar sério. Sinto todo o meu corpo formigar. Minha resposta fica presa na garganta, e me pego prendendo a respiração. Mas que merda é essa? - É Angel, fica aí, daqui a pouco você vai, se não, o Marcelo vai ficar aqui segurando vela.- Emma aponta com os lábios torcidos para Noah e Linda, que estão no maior love deitados na areia, e eu sorrio com a cena. Não consigo dizer mais nada, somente aceno com a cabeça, enquanto ela se despede indo embora. Tá bom, o que pode acontecer de errado, não é mesmo? Eu tenho um noivo, não posso fazer nada que comprometa meu relacionamento com Thomas, preciso me dá ao respeito. Ter uma boa conversa, e fazer novas amizades não é traição. Me sento novamente em minha canga, completamente tímida. Meu rosto pega fogo, e provavelmente pareço um tomate diante dele. Para a minha surpresa, Marcelo agarra na lateral da minha canga, e a puxa de uma vez só, arrastando ela pela areia para mais perto dele. Eu quase tenho uma convulsão… Meu corpo dá um tranco, se posicionando bem ao seu lado. Eu o encaro com os olhos arregalados e com a respiração ofegante. Puta* que pariu! Consigo sentir seu cheiro. Fecho meus olhos por um momento, e quando os abro novamente, Marcelo está me observando silenciosamente, bem de perto do meu rosto. Nós ficamos tão próximos, que consigo sentir seu hálito de menta quente, bem no meu nariz. Ele olha dentro dos meus olhos, e para minha boca entreaberta, enquanto puxo o ar meio desorientada, e depois, ele olha para os meus olhos novamente. Sinto como se fosse explodir a qualquer momento, meu peito está tão apertado pelo meu coração espaçoso e acelerado, que chega a doer. O medo dele fazer alguma coisa aumenta a cada segundo, sendo quase do mesmo tamanho do medo de que eu acabe fazendo alguma coisa também. Olho para a boca dele que parece muito convidativa nesse momento. Marcelo umedece seus lábios com a ponta da língua, e eu prendo a respiração, tentando reprimir um gemido, e os meus impulsos que gritam loucamente para que eu o beije agora. Seus olhos parecem um mar azul com gotas escurecidas, e parecem clamar por mim. - Respire Angelina.- ele sussurra bem próximo, e eu solto o ar dos meus pulmões, quase em um gemido. O jeito que ele fala meu nome me faz tremer inteira, e eu fico completamente perdida nesse som. Talvez ele esteja com saudades da sua mulher, e está me confundindo e se confundindo, se deixando levar pela nossa aparência tão idêntica. - Eu não sou ela Marcelo.- sussurro encarando seus olhos. - Eu sei.- ele responde imediatamente, sem romper nossa troca de olhar. - Eu tenho um noivo.- sussurro novamente, com o último pingo de juízo que ainda me resta. - Tudo bem.- ele diz, ainda sem se mover para longe de mim. Continuamos nos encarando por um bom tempo, até que ele diz.- parece que eu já te conheço há anos.- sussurra com a testa enrugada, perdido em meus olhos, trocando de um para o outro. - Talvez seja a minha aparência surreal com a mulher que ficou ao seu lado durante anos.- eu digo com um sorriso irônico em tom de sarcasmo o fazendo sorrir. - Sim, a aparência é um fator muito importante, mas seus olhos e o jeito que você me olha, é completamente diferente.- ele diz, e eu pareço ter entrado em órbita. Merda, o que eu estou fazendo? Viro meu rosto para frente de volta para o mar escuro, ainda sentindo seu olhar me queimar, e logo depois ele também encara a escuridão. - Quantos anos você tem?.- pergunto ainda sem o encarar. - 29.- ele responde sem hesitar.- e você?.- pergunta mexendo na areia. - 21.- respondo jogando meu cabelo dos ombros para trás. - De rosto você parece mais nova, mas pelo seu jeito, parece ser mais velha.- ele diz, e agora eu o encaro, fingindo estar magoada por seu comentário. Ele parece não perceber o que disse, até me olha de volta, e logo começa tentar se explicar, sem conseguir parar de sorrir nervosamente. - Não calma, eu não queria dizer que você parece velha, é que geralmente, as meninas da sua idade são meio ‘fúteis’, quero dizer, só dizem bobagens.- ele se explica ansioso, e eu acabo rindo ainda mais que ele. Ele ficou realmente sem graça. - Eu entendi o que quis dizer.- respondo ainda sorrindo.- conheço pessoas da minha idade, e sei o quanto elas podem ser irritantes.- falo tentando deixá-lo mais tranquilo.- mas você ainda não me conhece, como sabe que eu não sou uma pessoa irritante também?.- pergunto abraçando meus joelhos, e encarando ele com uma sobrancelha levantada. - Não sei, talvez pela postura que você mostrou a noite toda.- diz dando de ombros. - Talvez eu queria apenas chamar sua atenção.- sorrio de lado o provocando. - É, talvez queira.- ele olha para os meus lábios. - E consegui?.- pergunto baixinho, e ele sorri. - Eu diria que sim.- nós dois sorrimos.- a onde você mora?.- ele pergunta depois de um tempo me encarando. - Moro em Austin na baixada, acho que você não deve conhecer.- digo a ele. - Não, não conheço.- balanço minha cabeça. É lógico que ele não conhece! - Imaginei.- sorrio. - Mas posso conhecer, se quiser.- ele comenta e eu viro o rosto. O merda, o que que eu ainda estou fazendo aqui? Por que eu não consigo apenas me levantar e ir embora? Eu sei por que, porque todo o meu corpo quer está perto dele. Eu não quero ir embora, quero ficar bem aqui! Respiro fundo, e abaixo minha cabeça mexendo na areia. - Qual o nome dele?- Marcelo quebra o silêncio. - De quem?.- pergunto confusa. - Do seu noivo, qual o nome dele?- levanto as sobrancelhas concordando. - Thomas.- respondo suspirando. - Vocês estão juntos há quanto tempo?- pergunta novamente. - Dois anos. - E por que ele não veio com você?.- continua ele curioso, e eu suspiro mais uma vez. - É complicado.- sou evasiva, não querendo entrar nesse assunto. Eu gosto muito do Tomy, e sei que às vezes, a nossa mente nos prega peças, e não é por uma fase r**m que eu não irei reconhecer todas as coisas boas que já fizemos juntos. - Entendo.- Marcelo diz olhando para o mar, parecendo um pouco decepcionado. - E você? Não tem ninguém?.- pergunto encarando ele com curiosidade. Marcelo respira fundo, e volta a olhar para mim com um olhar indecifrável. - É complicado.- ele repete minhas palavras e nós acabamos rindo do seu comentário evasivo imitador. Não sei o porquê, mas me sinto bem ao lado dele, e a conversa flui naturalmente. Ele me pergunta o que eu faço da vida, e eu o conto sobre minha faculdade, como eu me encontrei na advocacia criminal, e pretendo fazer muitas pós para cumprimentar meu currículo. Ele também me conta algumas das suas experiências na medicina, e dentro dos hospitais. Conversamos sobre a vida, e por incrível que pareça, mesmo com as nossas vidas sendo totalmente diferente, nós temos ideias parecidas sobre muitas coisas. Ele é um homem alegre e divertido quando não está com aquele semblante sério e impetuoso, é tão inteligente que chega a me deixar de boca aberta, me fez se encantar pela medicina, somente pelo jeito que fala sobre ela. - Você fala de um jeito que me encanta.- eu confesso olhando para ele deslumbrada. - E você me encanta.- ele diz do nada, me deixando espantada. - Você é bem direto.- digo sem graça, colocando uma mexa de cabelo para trás da orelha, e desviando de seus olhos. - Desculpe.- ele pede sorrindo, também um pouco sem graça.- não sei o que você fez comigo, mas as palavras saltam da minha boca sem que eu perceba, não quero te deixar constrangida. - Não estou construída.- minto- é que eu não sou de receber muito elogios.- eu falo sorrindo. - Você deveria escutar muito isso, você é linda, inteligente, uma mulher impressionante.- continua dizendo, olhando dentro dos meus olhos. - Obrigada, é gentileza sua.- só consigo sorrir, sentindo minhas bochechas arderem. Nós continuamos conversando e rindo, trocando experiências e quando nos damos conta, o sol já está começando a surgir no horizonte, enquanto nós estamos deitados um ao lado do outro. Não vimos a hora passar, nem Noah e Linda indo embora. Parece que nós nos conhecemos desde muito tempo, e tenho a sensação que nos tornamos grandes amigos a partir de hoje. Resolvemos levantar acampamento, antes que o pessoal acorde e de falta de mim. Marcelo recolhe as coisas que sobrou e tiramos o lixo, o colocando ele dentro de um saco plástico. Eu enrolo minha canga na cintura, e penduro meu lençol nos ombros. - Foi bom te conhecer melhor.- ele diz enquanto caminhamos até o portão de casa. - Também gostei muito, eu me abri como nunca me abri antes para ninguém.- confesso para ele. Marcelo me passou total confiança para isso, coisa que poucas pessoas conseguem fazer, a ponto de eu contar toda a minha vida em poucas horas. Eu lhe disse coisas, que talvez nem Thomas saiba. - Você já foi em Arraial do Cabo?.- Marcelo pergunta quando chegamos no portão da casa da minha madrinha. - Ainda não, o tio Bem não sabe ir lá de carro, mas pretendemos ir um dia.- respondo subindo a rampinha do portão. - Tô pensando em ir pra lá hoje, talvez a gente possa reunir todo mundo e passa um ou dois dias por lá, temos uma casa próximo a praia do forno, vocês iam gosta.- propõe ele, e eu me ânimo. - Poxa eu ia adorar, vou falar com o pessoal.- Eu falo, mas depois penso melhor sobre isso. Eles podem achar estranho.- Não, na verdade, acho melhor você falar com eles.- sorrio para ele, e ele dá uma risada. Lindo! Ops! Concentra Angelina. - Tudo bem, mais tarde eu venho aqui então e faço o convite pessoalmente.- ele diz, eu concordo com a cabeça. Nosso, se estabelece um silêncio constrangedor por um tempo. Ficamos olhando um para o outro, claramente ele não querendo ir embora e eu não querendo entrar em casa. Marcelo me dá um sorriso e eu o devolvo outro. É estranho, algo parece crescer dentro de mim. Sinto meu corpo dormente e minha respiração um pouco ofegante. Os olhos do Marcelo parece pegar fogo, e eu sinto minha boca secar. Deus, isso é uma tortura. Engulo, tentando retomar minha consciência, e umedeço meus lábios. - Então, tchau.- falo com a voz um pouco rouca. Marcelo dá um paço na minha direção e eu fico completamente desesperada, imovel, com medo e ansiosa com o que ele pretende fazer. - Tchau.- ele me puxa para mais perto, e me dá um abraço que congela todo o meu sangue. Sinto seu cheiro maravilhoso e seus braços musculosos me apertam forte. Marcelo funga bem no meu cangote e minhas pernas perdem a força. Quase esqueço como se respira. Ele me solta antes de se afastar de mim, e me encara bem de perto mais uma vez. - Respire Angelina.- sussurra, percebendo que meu cérebro parou de funcionar.- espero que não demore pra que eu te veja novamente.- ele diz, e logo se afasta. Eu agradeço por fazer isso antes que eu possa dizer alguma coisa i****a, completamente perdida naqueles lábios carnudos e rosados. Fico presa no portão, sem ter forças para entrar, tentando controlar minha respiração novamente. Quando ele chega no portão de sua casa, ele me dá um pequeno sorriso, abre o portão. Só quando ele finalmente entra em casa que consigo respirar novamente, porém, meu coração ainda parece uma escola de samba em dia de carnaval. Santo Deus, que homem é esse?
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