“Na sua idade diziam que nós podíamos ser policiais ou criminosos.
Hoje eu lhe digo o seguinte: com uma arma apontada para você, que diferença faz? “
Frank Costello (Os Infiltrados)
Hana Krasnova
Durante esses dois anos, a parte mais difícil é não lembrar do passado. Muitas das vezes eu prefiro fingir que nada existiu, mas não posso esquecer por completo das partes boas, porém, memórias ruins fazem parte desse processo. Oito dias desde aquele dia no voo para Moscou. Oito dias desde que contemplei a imensidão dos seus olhos azuis.
Sete horas.
É hora de despertar, preciso levantar da cama para seguir com a rotina rigorosa de uma bailarina do Bolshoi Ballet Academy. Afasto as cobertas, a minha casa é aconchegante e sou grata pela oportunidade que alcancei há dois anos quando a minha vida se transformou completamente. O apartamento é pequeno, porém suficiente para mim e a minha melhor amiga, Anastácia Antonov.
Há dois anos, quando finalmente cheguei a Moscou, na época em que a minha vida mudou completamente.
— Dobroye utro! [Bom dia!]
Anastasia disse quando me aproximei da mesma, enquanto ela preparava o nosso café. Ela usava algo costumeiro, assim como eu, meia calças grossa por baixo de quase todos os nossos looks. Anastasia sorriu servindo as nossas xícaras com café expresso, reparto a laranja em quatro pedaços e me sento na cadeira do balcão já segurando a xícara fumegante com as mãos.
— Bom dia. – Respondi sorvendo a xícara do café nos meus lábios. Nas próximas semanas iremos começar os ensaios para o evento em Madrid, mas minha cabeça só pensa naqueles malditos olhos azuis, suspiro pausadamente apoiando o meu cotovelo sob o balcão.
— Terra chamando Hana.
A minha amiga chama minha atenção, eu apenas sorrio. Nunca fui um tipo de garota romanticamente influenciável. Eu tive uma vida boa enquanto a minha mãe era viva e graças ao meu irmão Yosuke, eu tive alguma espécie de conforto até o dia que fui vendida pelo nosso pai ao Oyabun da Yakuza. Mesmo assim, eu sou humana e geralmente sou difícil de me impressionar. Eu não sei exatamente o motivo mas algo naqueles olhos azuis que me lembram as águas cristalinas, aquele olhar tem algo em especial que capturou a minha atenção. O seu perfume ficou impregnado na minha mente assim como o toque firme das suas mãos na minha carne. Naquela mesma noite foi impossível dormir sossegada, tanto que precisei me afogar em lascívia para aliviar a tensão.
— Eu estou prestando atenção Anastásia… é que.. você sabe, aquele cara não saiu da minha cabeça. --- Digo constrangida. Anastasia gargalha enquanto afundo o meu rosto na superfície do balcão. — Eu sei.. eu sei.. é uma bobagem e eu não deveria estar pensando num estranho, isso chega a ser ridículo. — falo como um sussurro.
— Ah amiga… isso é atração avassaladora, mas vindo justo de você me deixa surpreendida. É muito difícil você se impressionar com algum homem. — Anastasia diz cortando a sua laranja. — Ele deve ser um homem daqueles tipos capa de revista mesmo.
— Baka! [i****a] – Debochei.
— Não me chame de baka, Hime. [Princesa] – Anastasia retrucou. — Mas agora é sério, esse loiro cheio de tatuagens que você encontrou no avião, porque não trocaram contato se rolou um clima ? Você sabe que eu sou celibatária, mas você não né, amiga!
— Anastásia por Deus! – Rimos uma para a outra. — Só que.. tem alguma coisa naquele homem, ou melhor, naquele olhar que queimou todo o meu corpo e me fez sentir algo que eu nunca senti por outra pessoa. — digo derrotada roubando um pedaço da laranja da minha amiga,
— Por Deus Hana, você está fascinada pelo cara. – Maneio a cabeça negativamente e respondo de imediato:
— Não, tá maluca? Eu só achei ele bonito e intrigante. No fundo, eu gostei do que senti… eu gostei da forma como ele me tocou, me abraçou e me fez sentir um comichão no meu ventre. — digo mordendo os lábios recordando como o meu corpo pegou fogo quando ele me tocou.
— Nossa amiga, então o loiro com pinta de mafioso, te deixou excitada?
— ANASTÁSIA, POR DEUS!
— Calma amiga, isso é algo comum de acontecer, deve ser bom sentir algo assim, mas durante o meu celibato, preciso me manter firme ou irei estragar tudo. – falou mordiscando a sua fatia de laranja.
A minha amiga veste uma roupa assim como eu, meias grossas, saia, uma segunda pele na cor rosa, collants rosa tradicional e duas camisas por cima e claro, nos pés um par de meias grossas com a bota completando o look do dia. Quase todos os dias usamos a mesma roupa, afinal a nossa vida é regida mediante o ballet. Algumas pessoas podem imaginar que a vida de uma bailarina profissional é apenas ‘glamour’, mas muito pelo contrário.
Nós acordamos pensando em ballet.
Nós vivemos o dia pensando e respirando passos de ballet.
Nós vamos dormir pensando nos passos ensaiados durante o dia, para quando acordamos revisar tudo de novo e de novo.
— Mas… – Anastácia me fitou intensamente, mas hesita em continuar. Sirvo-me novamente com café, o combustível diário, e sorrio ladino pensando na provação que irei fazer digo:
— Deixando de falar sobre a minha vida, vamos falar sobre você senhorita Antonov. – Anastasia sorriu ladino sentando-se ao meu lado da bancada. — Quando a bailarina de cabelos cor de rosa e olhos de esmeralda vai dar uma oportunidade ao ruivo de olhos amendoados que tanto deseja você.
Ah! ah! ah! – Anastasia gargalhou e respondeu em seguida:
— Infelizmente ou felizmente, NUNCA! Minha querida amiga. – Começo a rir comendo uma maçã. — Você sabe que pratico o celibato há alguns anos Hana e mesmo tendo vinte e dois anos eu não tenho o mínimo interesse de me perder em luxúria. – Ergo a sobrancelha. — Os sábios sempre permanecem em silêncio e das práticas sexuais não se tira nenhum proveito.
— Os sábios dizem isso é? — pergunto em tom irônico.
— Dizem sim minha amiga, e mais, contra a vulgaridade humana, nós duas somos uma raridade, afinal ainda somos virgens. Eu com meus 22 anos e você com 18 aninhos bem distribuídos nesse corpinho de enlouquecer marmanjo. Numa sociedade corrompida duas beldades como nós, puras de mente e corpo é algo raro de se encontrar!
— Não usa a minha escolha com esse discurso ideológico não! – Argumentei exaltada e ela riu. — É sério.
— Não importa o motivo, senhorita Hana, somos iguais, aceite isso!
Ahahah!
Gargalhamos juntas.