Pré-visualização gratuita Capítulo 1. Heloisa.
Eu costumava acreditar que, ao ir embora e deixar tudo para trás, finalmente encontraria um lugar onde pudesse respirar. Um lugar onde o ar não pesasse nos pulmões, onde o silêncio não fosse ameaçador, onde o passado não me alcançasse com suas garras afiadas. Eu sonhava com um lugar onde as lembranças não tivessem o poder de me sufocar no meio da noite, nem de me fazer acordar com o coração disparado e a sensação de que ainda estava presa.
Achei que, ao fugir dos olhares de pena, do peso do meu próprio sobrenome e da constante sensação de ser sempre a segunda opção, eu me libertaria. Acreditei, com uma ingenuidade quase desesperada, que distância era sinônimo de cura. Que bastava cruzar oceanos para deixar para trás a dor, o medo e tudo aquilo que me quebrou em pedaços.
Mas eu estava errada.
Porque, ali estava eu — em pé, no altar da igreja mais luxuosa de Ravena, a mesma cidade que jurei nunca mais ver nem de longe — sentindo o passado se enroscar nos meus tornozelos, puxando-me para trás, arrastando-me de volta para o mesmo inferno do qual tentei escapar.
As paredes altas da igreja pareciam se fechar lentamente, como se quisessem me esmagar. O cheiro das flores brancas, escolhidas para simbolizar pureza e novos começos, me causava náusea. Nada ali me parecia bonito. Tudo soava como ironia.
Simone, minha irmã mais velha, brilhava como sempre brilhou. Seu vestido cintilava sob as luzes douradas dos lustres de cristal, moldando seu corpo com perfeição calculada. O sorriso que ela exibia — impecável, treinado, estrategicamente ensaiado — parecia feito sob medida para fotografias, manchetes e aplausos. Simone nunca precisou tentar. Ela simplesmente era.
Era assim desde que me entendia por gente: admirada, respeitada, temida.
A princesa da máfia.
O símbolo vivo do que significava ser uma Moretti.
Simone tinha tudo o que o dinheiro, o poder e a influência podiam comprar. Vestidos exclusivos, sapatos feitos sob encomenda, joias que valiam mais do que muitas vidas. Tinha os olhares cobiçosos de homens poderosos, as reverências silenciosas daqueles que conheciam o peso do seu nome e o respeito automático que vinha antes mesmo de qualquer palavra.
E eu?
Eu era apenas Heloísa Moretti, a filha mais nova.
A sombra discreta da irmã perfeita.
Aquela que quase ninguém notava… até que fosse conveniente notar.
Desde cedo aprendi a ocupar pouco espaço. A falar baixo. A não incomodar. Enquanto Simone era preparada para liderar, negociar e comandar, eu era ensinada a sorrir, a ser gentil, a não questionar. Diziam que eu era sensível demais para aquele mundo. Fraca demais. Ingênua demais.
Quando decidi ir embora, inventei uma história bonita. Disse que havia conseguido uma bolsa de estudos fora do país. Contei que era para investir no meu futuro, nos meus sonhos, para construir algo que fosse só meu. Eles acreditaram — ou fingiram acreditar.
Mas a verdade era bem mais simples e dolorosa: eu só queria desaparecer.
Queria ser uma desconhecida em algum lugar distante, onde o nome Moretti não ecoasse em corredores de mármore, onde eu não precisasse fingir força todos os dias, nem carregar cicatrizes escondidas sob roupas longas e sorrisos educados. Eu queria um lugar onde ninguém soubesse quem eu era… porque nem eu mesma sabia mais.
Mas a máfia não solta ninguém.
E laços de sangue, quando rompem, machucam — e quando não rompem, aprisionam.
Meu telefone tocou no meio da madrugada. O som estridente cortou o silêncio do quarto como uma sentença. Eu soube, antes mesmo de atender, que não era uma ligação qualquer.
Era meu pai.
Sua voz fria, autoritária, sem espaço para contestação, atravessou a linha como uma lâmina recém-afiada. Ele não perguntou se eu estava bem. Não perguntou se eu viria.
Ele ordenou:
— É o casamento da sua irmã. Quero você aqui.
Eu podia ter dito não. Podia ter desligado. Podia ter sumido de vez, trocado de número, de país, de identidade. Mas a obediência é um hábito difícil de quebrar quando se cresce dentro de uma família como a nossa. O medo se infiltra nos ossos e vira parte de quem você é.
E foi assim que acabei ali, cercada por flores que zombavam da minha dor, ouvindo murmúrios vazios de felicidade e encarando o altar onde minha vida parecia se repetir como uma maldição c***l.
Porque o homem que esperava minha irmã no altar…
Era o mesmo homem que salvou a minha vida.
O mesmo homem que arrancou meu corpo do chão e minha alma do abismo.
O mesmo que, desde aquela noite, nunca mais saiu da minha cabeça.
Meu nome é Heloísa Moretti, segunda filha do chefe da Famiglia Moretti.
Por muito tempo, fui uma menina cheia de esperança. Eu via beleza onde só existia escuridão. Acreditava que o bem sempre encontraria um jeito de vencer, mesmo nos cantos mais podres do nosso mundo.
Minha mãe costumava dizer que eu era “a luz da casa”.
Mas a minha luz se apagou no dia em que o homem que eu chamava de melhor amigo tentou me destruir.
Patrício era homem de confiança do meu pai. Por isso passava tanto tempo na nossa casa que quase parecia parte da família. Crescemos juntos. Treinamos juntos. Ele me ensinou a atirar, me acompanhou em eventos, me defendia de comentários maldosos. Eu confiava nele com a pureza de alguém que nunca imaginou que o perigo pudesse vestir um rosto familiar.
Nunca imaginei que seria justamente ele a me marcar para sempre.
Eu tinha acabado de completar dezoito anos. Lembro daquela noite com uma clareza c***l, quase doentia. A chuva batendo forte do lado de fora, o silêncio estranho dentro da casa grande demais, o perfume amadeirado de Patrício que sempre me trouxe conforto… até aquele dia.
Meus pais tinham saído para comemorar o noivado de Simone com Enrico, herdeiro de uma das famílias mais poderosas da máfia italiana. Ficamos sozinhos.
E, de repente, o homem que eu via como protetor deixou de existir.
Suas mãos me prenderam com força. Seus lábios buscaram os meus de uma forma que me fez querer desaparecer. Eu gritava. Chorava. Implorava. E ele sussurrava, com uma loucura que até hoje me arrepia:
— Você sempre foi minha. Eu sempre cuidei de você. Sempre.
O toque que um dia significou segurança virou prisão.
O perfume que eu gostava se tornou nauseante.
E, a cada segundo, eu sentia minha voz sendo arrancada de mim.
Quando ele abriu o zíper da calça, o pânico tomou conta do meu corpo de forma absoluta. Eu tremia inteira. Achei que ia morrer. Que nunca mais veria a luz do dia. Que ninguém viria me salvar.
Mas alguém veio.
A porta foi arrombada com violência.
O som da madeira quebrando ecoou como um milagre no meio do inferno.
Patrício foi arrancado de cima de mim como um animal.
Eu me encolhi, em choque, sem conseguir distinguir rostos ou vozes. Quando uma mão tocou meu braço, eu me debati desesperada — até ouvir:
— Eu estou aqui, minha menina. Ninguém vai te ferir.
Enrico.
O noivo da minha irmã.
O homem que se tornaria minha ruína silenciosa.
Ele me envolveu nos braços com um cuidado quase reverente, como se temesse me quebrar ainda mais. Senti o coração dele bater rápido contra o meu, e me permiti chorar ali, sem medo, sem vergonha.
Por um instante, desejei ficar ali para sempre.
Por um instante, quase acreditei que tudo ficaria bem.
Até Simone entrar no quarto.
O grito dela rasgou o ar. Seu olhar, carregado de raiva e confusão, caiu sobre mim como uma acusação muda. Ela pensou que eu… que Enrico…
Eu tentei falar, mas nenhuma palavra saiu. Meu corpo ainda tremia. Meu coração sangrava.
Enrico contou tudo. Com firmeza. Sem hesitar.
Simone me abraçou. Prometeu que eu nunca mais teria medo. Que Patrício pagaria.
E ele pagou.
Mas nada disso me trouxe alívio.
Porque eu já não era mais a mesma.
A menina sonhadora morreu.
E, no lugar dela, nasceu uma mulher cheia de medos, tentando aprender a sobreviver.
Entre todas as coisas que passei a evitar, Enrico se tornou a principal.
Eu precisava manter distância.
Eu tinha que manter distância.
Mas como ignorar o homem que me salvou?
Como apagar o refúgio que seus braços se tornaram?
Como esquecer o único olhar que não me tratou como frágil?
Foi então que fugi.
E, ali, naquele altar, vendo Simone caminhar até Enrico, percebi que nenhuma distância é grande o suficiente para fugir de certas verdades.
Eu, Heloísa Moretti, ainda estava aprendendo a sobreviver às minhas.