Capítulo 2. Heloisa

1326 Palavras
Quando meu pai me informou que minha irmã se casaria e que eu tinha a obrigação de estar ali, ao lado dela, não encontrei nenhuma desculpa que parecesse boa o suficiente para dizer que não iria. As palavras morreram na minha garganta antes mesmo de tentarem virar resistência. Não porque eu concordasse, mas porque aprendi, desde cedo, que discordar nunca foi uma opção real dentro da minha família. Meu pai sempre decidiu tudo por nós. Desde o que vestíamos até com quem falávamos, desde os passos que dávamos até o silêncio que precisávamos manter. E quando ele dizia que eu tinha que fazer algo, eu simplesmente fazia — porque, se não o fizesse, ele mandaria alguém me buscar à força. Não como ameaça vazia, mas como promessa cumprida. Na Famiglia Moretti, vontade própria era um luxo que eu nunca pude ter. Seria a madrinha do casamento da minha irmã. Estaria ao lado dela, sorrindo para as câmeras, sustentando uma imagem de união e felicidade enquanto Simone fazia juras de amor eterno ao homem que, sem saber, havia tomado o meu coração muito antes daquele dia. Ele nunca soube — e talvez nunca deva saber — que, desde o instante em que me salvou, meu coração passou a bater diferente só por ele. Que cada lembrança daquele abraço, daquela voz firme me dizendo que eu estava segura, se enraizou em mim de uma forma perigosa, silenciosa e profunda demais para ser arrancada. O vestido das madrinhas era azul-escuro, elegante e provocante, desenhado para valorizar curvas, com fendas calculadas e decotes estratégicos que misturavam sofisticação e poder. Um uniforme perfeito para mulheres que nasceram para serem vistas, desejadas e admiradas. Mas o meu… parecia ter sido feito para uma freira. Nenhum decote. Nenhuma curva aparente. Um tecido pesado, largo, fechado demais para um casamento luxuoso em pleno verão italiano. Era como se aquele vestido tivesse sido escolhido não para me vestir, mas para me apagar. Para esconder qualquer traço de feminilidade, qualquer indício de que eu era mais do que uma figura secundária naquele cenário. Odiei cada centímetro daquele vestido. Ele não me incomodava apenas no corpo — incomodava na alma. Era como se alguém tivesse decidido, deliberadamente, que eu devia desaparecer entre as outras. O que, vindo do meu pai, não seria surpresa. Eu sempre fui a filha que ele tentava manter fora do foco, fora dos holofotes, fora de qualquer história que pudesse sair do controle. Mesmo assim, engoli o desgosto e fiz o que ele mandou. Já havia deixado claro que, após o casamento, eu voltaria para minha cidade e não pisaria mais naquela casa. Queria terminar meus estudos, construir algo que fosse meu, longe da sombra da máfia, longe da sombra de Simone e longe do peso constante de um sobrenome que nunca escolhi carregar. Meu pai apenas assentiu, sem discutir. Mas sua voz fria ecoa até hoje na minha memória, carregada de um aviso velado: — Primeiro, o casamento. Depois, o resto. A entrada dos padrinhos foi um tédio absoluto. O homem que colocaram ao meu lado — um dos muitos capangas do meu pai — parecia achar que minha presença ali lhe dava algum tipo de permissão. Tentava, a todo custo, me levar para a cama, lançando comentários velados, sorrisos arrogantes e toques sutis que me faziam enrijecer por dentro. Mesmo com meus “nãos” explícitos, ele insistia, confiante de que a palavra de uma Moretti mais nova não significava nada. Agradeci a Deus quando ele finalmente se afastou, chamado por alguém mais importante do que eu. Então foi a vez de Enrico entrar. O som da música pareceu diminuir quando ele surgiu na porta da igreja. Seu terno perfeitamente alinhado moldava o corpo forte, a postura era confiante, e a gravata tinha exatamente a mesma tonalidade azul dos vestidos das madrinhas. Cada passo que ele dava parecia calculado, preciso, mas ainda assim natural — como se o poder estivesse entranhado nele, como se comandar ambientes fosse algo tão instintivo quanto respirar. Por um instante, tudo à minha volta desapareceu. Era como se o tempo tivesse desacelerado só para mim. Ele caminhava em minha direção, e por alguns segundos eu permiti que minha mente me traísse. Imaginei que aquele sorriso fosse para mim. Que aquele brilho nos olhos fosse o reflexo do sentimento que eu escondia tão bem. Um erro. Um devaneio perigoso. A realidade me atingiu com violência. Aquele sorriso era de um noivo apaixonado, e o destino o colocara não ao meu lado, mas ao lado da minha irmã. Eu não passava de uma coadjuvante naquela história, condenada a assistir de perto tudo o que nunca poderia ser meu. Eu seria apenas a cunhada. A sombra, como sempre. Então o inesperado aconteceu. A marcha nupcial começou. Todos se levantaram. As portas da igreja se abriram… e o lado de fora estava vazio. A noiva não estava ali. Um silêncio desconfortável se espalhou como uma onda. Os cochichos começaram, os olhares se voltaram para o corredor, esperando por Simone. Mas ela não veio. O celular de Enrico vibrou. Ele olhou para a tela, e em questão de segundos o semblante calmo se desfez. A tensão tomou conta de seus ombros, e sem dizer uma única palavra, ele desceu os degraus do altar e caminhou em direção à saída. Os convidados começaram a murmurar, tentando entender o que estava acontecendo. Eu também não sabia — até que meu telefone tocou. Era meu pai. — Sua irmã fugiu — disse, com a voz firme, desprovida de qualquer emoção. — Avise a todos que não haverá casamento. Por um instante, achei que não tinha ouvido direito. Minha irmã… fugiu? E ele queria que eu resolvesse aquilo? Pela primeira vez, senti raiva dele. Uma raiva quente, sufocante, acumulada por anos. Raiva por sempre me colocar em lugares que não eram meus. Raiva por esperar que eu consertasse problemas que não causei. Não. Dessa vez, eu não obedeceria. Sem dizer nada, virei as costas para o altar e saí da igreja, exatamente como Enrico havia feito. Deixei os cochichos para trás, os olhares julgadores e a confusão se espalhando. Eles entenderiam — ou não. Não era mais um problema meu. Andei sem rumo até um pequeno parque a poucos quarteirões dali. O silêncio era quase reconfortante. Crianças corriam, riam, e por um instante eu desejei ter a inocência delas. O tempo passou sem que eu percebesse. Quando o sol começou a se esconder, o parque ficou vazio. Levantei-me, pronta para ir embora, quando um carro preto parou diante de mim. Reconheci na hora: Enrico. — Entre — ele ordenou, a voz rouca, tensa. Abri a porta de trás. — Eu por acaso sou seu motorista, p***a? — ele rosnou. Congelei por um segundo. O tom agressivo despertou fantasmas que eu preferia manter enterrados. Ainda assim, não me deixei intimidar. Fechei a porta, caminhei até o lado do passageiro e bati no vidro. — Se você se esqueceu, sua noiva se chama Simone — falei, firme. — Pense duas vezes antes de usar esse tom comigo. Me virei para ir embora. Não cheguei a dar três passos. Enrico agarrou meu braço com força, falando rápido, em italiano, misturando raiva e palavrões. Até que suas palavras me atingiram como uma lâmina. — Se eu soubesse que você me daria tanto problema, teria deixado aquele moleque terminar o que começou. O mundo parou. Ele percebeu no mesmo instante. — Heloísa… — a voz dele vacilou. — Desculpa. — Me solte — pedi, com a voz calma demais para o caos dentro de mim. Ele soltou. E, contra toda lógica, eu entrei no carro. Não por confiança. Mas porque precisava entender. Minutos depois, fugi novamente. Quando o táxi arrancou, meu coração ainda batia descompassado. Não sabia se era medo, raiva… ou o simples fato de que, mesmo depois de tudo, uma parte de mim ainda tremia por Enrico. E essa era, sem dúvida, a parte que mais me assustava.
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