Entrei no táxi com o coração em pedaços. Não era apenas tristeza — era a sensação sufocante de que algo dentro de mim havia se quebrado de forma definitiva. Eu não conhecia aquele lado de Enrico. Ou talvez conhecesse, mas tivesse escolhido ignorar. Era como se meus sentimentos tivessem me cegado para tudo o que ele já havia feito desde o dia em que cruzou o meu caminho. Como se o homem que me salvou tivesse sido colocado em um pedestal tão alto que nada de r**m pudesse alcançá-lo.
Eu o conheci quando tinha apenas sete anos.
Ele havia acabado de completar dezoito. Foi naquele mesmo ano que ele e minha irmã mais velha foram prometidos em casamento, como se fossem peças de um acordo perfeitamente calculado. Simone tinha dezesseis anos e andava pela casa com um sorriso bobo no rosto, dizendo para quem quisesse ouvir que havia encontrado seu primeiro amor. Falava que, desde o momento em que viu Enrico pela primeira vez, seu coração batera diferente. Falava sobre sentimentos, sobre futuro, sobre destino.
Eu era nova demais para entender o que ela queria dizer.
Para mim, ele era apenas um homem mais velho, imponente, sempre sério, sempre observando tudo ao redor. Alguém que pertencia ao mundo dos adultos, distante do meu universo infantil. Jamais passou pela minha cabeça que meu coração pudesse, um dia, aprender a reconhecê-lo de outra forma.
Mas foi no dia em que ele me salvou que tudo mudou.
Foi naquele momento que o traidor do meu coração decidiu bater mais forte por ele. De forma silenciosa, proibida, c***l. Eu costumava acreditar que, quando me apaixonasse, seria como nos filmes. Eu estaria andando distraída pela rua, sentiria o vento bagunçando meus cabelos, e, ao afastá-los do rosto, encontraria um príncipe à minha frente. Um sorriso, um olhar, e pronto — amor à primeira vista.
Como eu era infantil.
Se a Heloísa de dez anos soubesse que seu coração bateria forte pela primeira vez justamente pelo homem que jurou amar sua irmã mais velha pelo resto da vida, ela sangraria de desgosto. Talvez tentasse arrancar aquele sentimento à força, antes que criasse raízes. Talvez aprendesse, cedo demais, que o amor nem sempre nasce onde deveria.
O táxi avançava pelas ruas silenciosas da cidade, e eu observava as luzes passando pela janela, borradas pelas lágrimas que insistiam em cair. Nunca tinha reparado o quanto minha cidade era silenciosa à noite. Um silêncio pesado, quase acusador. Enxuguei o rosto com as mãos, sentindo a testa latejar, o machucado pulsando em sintonia com a dor no peito.
Parecia que a rotina de carregar a culpa pelas burrices de Simone nunca me deixaria.
Eu não entendia como ela, sendo mais velha do que eu, conseguia fazer todos ao seu redor enxergarem nela uma eterna coitadinha. A frágil. A delicada. Enquanto eu, que m*l saía de casa, que sempre obedeci, que nunca causei escândalos, era automaticamente responsabilizada por tudo que dava errado.
Lembrei-me de uma frase do meu pai, dita anos atrás, com a naturalidade c***l que só ele possuía. Ele disse que, como irmã mais nova, eu tinha a obrigação de admirar Simone. De cuidar dela. De protegê-la. Aquilo sempre me pareceu uma piada de mau gosto, mas era exatamente isso que ele e minha mãe esperavam de mim.
Da mesma forma que acharam natural que fosse minha obrigação anunciar a todos, naquela igreja lotada, que o casamento tinha sido cancelado.
Eu já me preparava mentalmente para a bronca que levaria. Para ouvir que eu deveria saber o motivo de Simone ter abandonado o casamento dos sonhos. Que, de alguma forma, a culpa também seria minha. Mas a verdade era simples e c***l: eu não fazia ideia do que havia acontecido. m*l tinha trocado duas palavras com minha irmã desde que voltei para a cidade.
O táxi parou em frente à casa da minha família.
Assim que coloquei os pés para dentro, m*l tive tempo de fechar a porta.
— Sua desgraçada!
Algo duro veio em minha direção e me atingiu em cheio na testa. A pancada foi tão forte que minhas pernas cederam, e eu caí de joelhos no chão. Levei a mão à testa e senti o sangue quente escorrer entre meus dedos. A visão ficou turva por um instante.
Virei o rosto para o objeto que me acertara.
Era um porta-retrato.
E, como se o destino estivesse debochando de mim, a foto dentro dele era de Simone e Guilherme, sorridentes, perfeitos, apaixonados.
Lembro de pensar, naquele momento, que talvez o destino estivesse mesmo me castigando por ter permitido que meu coração se rendesse ao noivo da minha irmã.
— Levanta logo desse chão e para de drama — meu pai ordenou, com a voz autoritária de sempre.
Obedeci. Mas antes que ele pudesse continuar, fiz questão de amarrar o cabelo, deixando o sangue escorrer livremente pelo meu rosto. Se ele queria drama, eu daria a ele a realidade.
— Onde está Simone? — ele exigiu. — Tenho certeza de que você sabia que ela pretendia fazer isso e nem teve a decência de nos avisar.
Respirei fundo, sentindo o gosto metálico do sangue na boca.
— Não sei se o senhor se lembra, mas eu cheguei há três dias — respondi, com a voz firme. — E os poucos momentos em que vi minha irmã foram sempre com todos juntos. Então, respondendo à sua pergunta, eu não sei onde está a sua filha. E, mesmo que soubesse, como o senhor esperaria que eu conversasse com você, se há meses não consegue nem me olhar nos olhos?
— Do que diabos você está falando, menina?
O rosto do meu pai estava vermelho, os maxilares tensos. Eu conhecia aquele sinal. A tempestade estava chegando.
— Estou falando, pai, que desde o dia em que eu quase fui abusada pelo Patrício, o senhor não consegue mais me encarar. Só fala comigo por mensagens ou ligações frias.
— Não entendo por que você sempre quer chamar a atenção para tudo — minha mãe interveio, segurando o braço dele, como sempre fazia para controlá-lo. — Toda vez que algo bom vai acontecer na vida da Simone, você faz de tudo para estragar. Sempre foi assim. Nos aniversários, nas festas, no noivado…
Senti algo se partir dentro de mim.
— Vocês acham que eu escolhi ser abusada para chamar atenção?
— O que você quer que a gente pense? — minha mãe rebateu. — Aquele menino era praticamente grudado em você. Viviam juntos. E, pelo que sabemos, ele nem chegou a encostar em você.
Não consegui acreditar no que estava ouvindo.
Comecei a gargalhar. Uma risada quebrada, histérica. Eu chorava, sorria, e o sangue continuava descendo pelo meu rosto.
— Então, mamãe — falei, entre lágrimas — quando um homem tira a roupa de uma mulher contra a vontade dela, coloca a boca e a língua em lugares que ela nunca permitiu, quando está a um passo de forçá-la… isso é só carinho de amigos?
Eles me encararam, chocados. Era a primeira vez que eu falava tudo em voz alta.
— E quando uma mulher passa meses sem conseguir dormir, com medo de que o “amiguinho” apareça para terminar o que começou… a culpa também é dela?
Minha mãe tentou se aproximar, os olhos marejados, mas eu dei um passo para trás.
— Sabem por que eu fui embora daqui? — continuei. — Não foi por estudo. Aqui tem ótimas faculdades. Eu fui embora porque não suportava mais ouvir as pessoas dizerem que a culpa era minha. Porque não aguentava mais a frieza com que você me tratava, pai.
Respirei fundo, sentindo tudo transbordar.
— Talvez Simone tenha fugido para escapar de um noivo que não passa de um monstro. E desse cuidado sufocante que vocês têm com ela.
Foi então que senti o cheiro do perfume dele.
Enrico.
Virei o rosto lentamente, encarando-o por um instante.
— Eu não sei onde Simone está — disse, exausta. — E agora, depois de ter a testa e o coração quebrados, vou sair enquanto ainda me resta dignidade.
Passei por eles, ignorei as tentativas de me impedir e fui até o meu quarto.
— Amanhã volto para Nova York — anunciei. — E espero que não me liguem mais perguntando sobre Simone. Vou fazer com vocês o mesmo que farei com ela: bloquear qualquer contato.
Fechei a porta.
Do outro lado, ouvi minha mãe dizer que tudo aquilo era culpa minha. Que eu nunca tinha contado nada do que aconteceu com Patrício.
Foi então que percebi.
Não importava o que eu dissesse.
Não importava o quanto doesse.
Eu sempre seria a culpada.