Capítulo 4. Enrico

1242 Palavras
Monstro. Nunca, em toda a minha vida, alguém havia usado essa palavra para se referir a mim. Já tinham dito de tudo: que eu era um homem frio, sem coração; que eu era controlador; que vivia cercado de violência e não sabia amar de verdade. Já me chamaram de arrogante, de tirano, de produto da máfia. Muitas dessas acusações eu aceitava em silêncio, porque, em partes, eram verdadeiras. Eu fui criado para ser duro, para não hesitar, para mandar e ser obedecido. Mas monstro… Essa palavra me atingiu de um jeito que nenhuma outra jamais conseguiu. Ela atravessou minhas defesas, passou pelas armaduras que eu construí ao longo dos anos e cravou fundo na minha alma. Doeu porque veio justamente da pessoa que eu sempre enxerguei como a mais doce naquela família. Heloísa. Desde pequena, ela era diferente. Tinha um sorriso que iluminava qualquer ambiente, um jeito quieto, quase tímido, que contrastava brutalmente com a presença dominante da irmã mais velha. Onde Simone ocupava espaço, Heloísa se encolhia. Onde Simone falava alto, Heloísa observava. Sempre considerei Heloísa uma menina gentil demais para aquele mundo sujo em que todos nós estávamos mergulhados. Simone, por outro lado, sempre foi minha noiva antes mesmo de ser, de fato, minha escolha. Ela se tornou oficialmente prometida a mim no dia em que completei dezoito anos. Cresci apaixonado por ela — ou pelo menos acreditava que era amor. Simone era madura para a idade, segura de si, decidida. Aos meus olhos de adolescente criado dentro das tradições rígidas da máfia, ela representava exatamente o que se esperava de uma futura esposa: postura, força, elegância e controle. Durante anos, ouvi Simone reclamar da irmã mais nova. Dizia que estava cansada de resolver os problemas dela, que os pais viviam brigando com Heloísa porque ela sempre fazia tudo errado. Eu nunca questionei. Nunca parei para ouvir o outro lado. Apenas aceitei aquela narrativa como verdade, porque era mais fácil acreditar que a menina silenciosa era o problema do que admitir que aquela família inteira estava doente. Eu nasci em uma família que seguia tradições como leis sagradas. Palavra dada era palavra cumprida. Votos não eram promessas românticas, mas contratos de sangue. Então, no dia em que pedi a mão de Simone em casamento, eu sabia, no fundo, que aquele compromisso seria honrado até o último dia da minha vida — independentemente das circunstâncias. Lembro de me sentir um homem de sorte. Convencido de que teria um futuro estável, respeitado, poderoso. Acreditei, com a arrogância típica de quem nunca teve escolhas reais, que seria feliz apenas porque tudo estava decidido. Na noite do nosso noivado, preparei uma grande surpresa para Simone. Queria algo perfeito, digno dela. Convidamos apenas as pessoas mais próximas. Da família dela, apenas os pais. Não convidamos Heloísa. Naquela época, corria na família um boato c***l: diziam que a irmã mais nova tinha o dom de estragar os momentos felizes. Que sempre havia algo errado quando ela estava por perto. Eu acreditei nisso. Mas, ironicamente, naquela noite, não foi Heloísa quem estragou tudo. Foi Simone. Pedi Simone em noivado no restaurante favorito dela. Havia um piano no salão, e pedi que tocassem a música que ela mais gostava. Cada detalhe havia sido pensado exclusivamente para agradá-la. Quando fiz o pedido, ela aceitou. Sorriu. Chorou. Todos aplaudiram. Depois, sugeri que fôssemos até o jardim para ficarmos a sós. O clima estava bom, leve. Até que, do nada, Simone começou a chorar. Disse que queria que tudo fosse diferente. Que, ao longo dos anos juntos, muitas coisas haviam mudado. Tentei entender. Perguntei o que ela queria dizer. Ela não respondeu. Simplesmente saiu correndo. Fui atrás dela, mas não consegui alcançá-la. Entrei no carro, tentei seguir o táxi, mas perdi. Então fiz o único caminho possível: a casa dela. Entrei sem bater e fui direto em direção ao quarto de Simone. Foi então que ouvi um grito. Um grito de desespero. Um pedido de socorro que gelou meu sangue. Parei no meio do corredor, tentando identificar de onde vinha. Quando ouvi novamente, mais alto, reconheci a voz. Era Heloísa. Corri até a porta do quarto dela e tentei abrir. Estava trancada. O grito cessou de repente, e isso me deixou ainda mais apavorado — como se algo pior estivesse acontecendo. Não pensei. Chutei a porta. Já vi cenas brutais ao longo da minha vida. Já vi morte, tortura, traição. Mas nada me causou tanto nojo quanto o que vi ali. Heloísa estava sendo forçada por um rapaz. Ele estava completamente nu. Ela sem a parte de cima da roupa, a calcinha caída até os joelhos. O rosto dela estava tomado pelo terror mais puro que já vi em alguém. Corri até eles e agarrei o pescoço do desgraçado, jogando-o no chão com toda a força que tinha. Foi só então que percebi quem ele era. Patrício. Os gritos de Heloísa ficaram abafados, como se ela tentasse calar a própria boca, como se já tivesse aprendido que gritar não adiantava. — Você enlouqueceu, seu desgraçado? — gritei. — Ela é sua amiga! — Ela é minha — ele respondeu, com um sorriso doentio. — Sempre foi. Sempre será. Aquelas palavras apagaram o pouco de razão que ainda me restava. Soquei o rosto dele sem parar. Um golpe atrás do outro. Patrício e Heloísa se conheciam desde pequenos. Eram inseparáveis. Ele era filho de um homem de confiança do chefe. O chefe… era o pai de Simone. Mas, naquele momento, eu tinha certeza absoluta: se dependesse de mim, ele morreria ali. — Some dessa casa — rosnei, empurrando-o para fora do quarto. — Se eu te pegar perto dela de novo, não vou pensar duas vezes antes de te castrar e te enterrar vivo. Quando voltei minha atenção para Heloísa, o ódio deu lugar a algo muito pior. Ela estava encolhida na cama, em posição fetal, chorando baixo, como se tivesse medo até do próprio som. O corpo dela tremia incontrolavelmente. Aproximei-me com cuidado e a puxei para meus braços. — Não… por favor… me solta — ela suplicava, quase sem forças. — Eu estou aqui, minha menina — falei, com a voz mais baixa que consegui. — Ninguém vai te ferir. Ela estava nua nos meus braços, e, pela primeira vez na vida, não senti desejo algum. Nenhuma excitação. Nenhuma intenção errada. Tudo o que existia em mim era um instinto feroz de proteção. Ela encostou a cabeça no meu peito e chorou, segurando minha camisa com força. Em algum momento, percebeu a própria nudez e me empurrou, assustada. Vi quando puxou um cobertor para se cobrir, envergonhada. Eu não tive tempo de pensar em mais nada. A porta foi aberta com violência. Simone entrou no quarto. Naquele instante, lembrei-me do motivo pelo qual eu estava ali. Contei tudo o que havia acontecido. Ela pediu que eu saísse, dizendo que cuidaria da irmã. Obedeci. Do lado de fora, tive que relatar tudo aos meus sogros. A única coisa que minha sogra disse foi: — Eu sabia que Heloísa daria um jeito de estragar o momento feliz da Simone. Fiquei em choque. Mas fiquei calado. Hoje, ao ouvir Heloísa me chamar de monstro, entendo que talvez eu tenha sido mesmo. Não pelo que fiz naquela noite — mas por tudo o que deixei de fazer depois. Pelo silêncio. Pela covardia. Pela forma como permiti que ela fosse culpada por algo que quase a destruiu. E essa culpa… Essa eu carregarei para sempre.
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