Capitulo 5. Enrico.

1414 Palavras
Os planos para o casamento estavam a todo vapor. Depois do jantar de noivado — a mesma noite em que Simone fugiu, deixando-me sozinho em meio a olhares constrangidos e perguntas sem respostas — tivemos uma conversa longa e séria. Foi uma conversa que, na época, considerei honesta. Hoje, olhando para trás, percebo o quanto eu queria acreditar em cada palavra que saiu da boca dela. Simone explicou seus motivos com lágrimas nos olhos. Disse que, naquele momento, havia dado um branco. Que o medo tinha tomado conta dela de forma inesperada. Falou que sentia que tudo estava acontecendo rápido demais e que isso a apavorou. Eu ouvi em silêncio, tentando não demonstrar a frustração que se acumulava dentro de mim. Eu disse que ela tinha todo o direito de sentir medo. Disse que não queria que ela se sentisse obrigada a nada. Que eu estava ali porque escolhia estar. Que meus votos não eram fruto de pressão, mas de convicção. Eu tinha certeza absoluta de que cumpriria cada palavra até o último dia da minha vida, mas não queria que ela vivesse ao meu lado apenas sustentada por certezas alheias. Queria que ela tivesse dúvidas, sim — do mesmo modo que eu tinha certezas. Achei que aquilo fosse amor maduro. Achei que compreender fosse prova de força. Talvez tenha sido apenas cegueira. Houve algo, porém, que me incomodou profundamente nos dias seguintes. No dia em que reunimos familiares e amigos para anunciar oficialmente os planos do casamento, todos reagiram como esperado: sorrisos, abraços, congratulações. A união de duas famílias poderosas era motivo de celebração. Tudo parecia perfeito demais. Tudo… exceto um detalhe. Enquanto todos nos parabenizavam, notei algo estranho nos olhos da irmã mais nova de Simone. Heloísa não sorria. Não havia alegria, nem surpresa, nem sequer indiferença. O que vi foi dor. Uma dor silenciosa, contida, quase desesperada — como se aquela notícia tivesse arrancado algo dela à força. Aquilo me marcou. Simone também comentou, mais tarde, que sentira a irmã diferente. Estranha. Distante. Mas, depois do que havia acontecido com ela e Patrício, Heloísa realmente nunca mais fora a mesma. O brilho nos olhos tinha se apagado, a leveza desaparecido. Era como se aquela menina doce tivesse sido substituída por alguém sempre em alerta. Poucos dias depois de saber a data do casamento, Heloísa deixou o país. Foi embora sem despedidas longas, sem explicações públicas, sem escândalos. Apenas foi. Aquilo confirmou o incômodo que eu sentia. Ainda assim, tentei não deixar aquela sensação me distrair. Em menos de um ano, eu estaria casado com a mulher que havia escolhido para viver ao meu lado para sempre. Eu precisava focar nisso. Precisava acreditar. Lembro que, no dia em que Heloísa foi embora, Simone chorou por horas. Fiquei ao lado dela o tempo todo, tentando oferecer conforto. Mas havia algo estranho naquele choro. Não parecia apenas saudade de uma irmã. Era um choro profundo, quase desesperado, carregado de culpa — ainda que eu não conseguisse nomear isso na época. Cheguei a me perguntar se aquelas lágrimas eram realmente por Heloísa. Relevei. Convenci-me de que era apenas o estresse do casamento, o nervosismo, o peso das responsabilidades. Eu queria acreditar. Precisava acreditar. Hoje, vejo o quanto eu era inocente. Eu acreditava nas palavras de Simone sem questionar. Nunca duvidei. Afinal, ela era filha do chefe da família. Assim como eu, havia sido criada dentro dos mesmos princípios rígidos, onde honra, palavra e lealdade eram inegociáveis. Ou pelo menos foi isso que eu pensei. Quanto mais o casamento se aproximava, mais ansioso eu ficava. Até que, em uma de minhas visitas à casa de Simone, presenciei uma discussão intensa entre ela e os pais. As vozes estavam exaltadas. A tensão no ar era palpável. Simone queria Heloísa ao seu lado na igreja, como madrinha. — Oi — anunciei minha presença, tentando quebrar o clima pesado. — Está tudo bem por aqui? — Oi, querido — Simone respondeu rapidamente, como se buscasse apoio. — Você pode me ajudar a convencer meus pais de que, sem Heloísa, não tem casamento. Aquela frase me pegou de surpresa. — Você está falando sério? — questionei. — O que o nosso casamento tem a ver com a vontade da sua irmã de vir ou não? — Eu já disse isso para ela, Enrico — minha sogra respondeu, impaciente. — Disse que, se Helô não quer vir, não podemos fazer nada. — Vocês não entendem — Simone rebateu, exaltada. — Como não podem entender? Ela se levantou do sofá e correu para o quarto, deixando o ambiente ainda mais pesado. — Vá lá, meu genro — meu sogro disse, com frieza. — Tente conversar com aquela garota. Faça-a entender que nem tudo que ela quer, ela pode ter. — Mas por que Heloísa não quer vir ao casamento da própria irmã? — perguntei, confuso. A resposta veio como um golpe seco. — Porque não a convidamos. — O quê? — eu não escondi o choque. — Vocês não convidaram a irmã da minha noiva? Filha de vocês? — Ela sempre dá um jeito de estragar tudo — minha sogra respondeu, sem hesitar. — Queremos que Simone tenha um dia perfeito. Não vamos permitir que Heloísa estrague o casamento, como sempre fez. Houve um silêncio desconfortável. Por um momento — e essa é uma verdade que me envergonha — eu concordei. Pensei que, se eles acreditavam que Heloísa poderia atrapalhar o dia do meu casamento, talvez fosse melhor que ela permanecesse distante. Hoje, sei que essa foi uma das maiores covardias da minha vida. Fui até o quarto de Simone. Encontrei-a sentada na cama, olhando fixamente para a janela, como se estivesse presa em outro mundo. — Oi, querida — falei, com cuidado. — Você não percebe, não é? — ela respondeu, sem me olhar. — Perceber o quê? Me diga. — A minha irmã, Enrico — disse, após uma pausa longa e pesada. — Minha irmã te ama. E eu quero ela aqui para que possa te tirar da cabeça e do coração. Quando ela nos vir casando, vai entender que tudo isso não passou de uma ilusão. Senti um incômodo estranho no peito. — Não sei de onde você tirou isso — respondi, rápido demais. — Heloísa é apenas uma menina. Ela tem tantos garotos da idade dela para se apaixonar… Assim que disse aquelas palavras, algo em mim se retorceu. — Não — Simone insistiu. — Eu quero minha irmã ao meu lado. Por favor, me ajude. — Se isso for verdade — retruquei, sentindo a irritação crescer — então eu quero Heloísa o mais longe possível. Não vou permitir que ninguém atrapalhe o nosso dia. Simone começou a chorar. E, como sempre, eu a abracei. Depois de muito choro, ela me fez prometer que convenceria seus pais a chamar Heloísa. Mesmo com algo dentro de mim gritando que aquela decisão colocaria tudo a perder, eu cedi. Porque Simone queria. E, por ela, eu acreditava ser capaz de mover céus e mares. Mas, no fim, nada disso foi suficiente. Simone ainda assim me deixou no altar. Desapareceu, deixando apenas uma mensagem fria e devastadora. Disse que não podia fazer aquilo. Que jamais se casaria com um homem que fosse o amor da vida da própria irmã. Disse que sentia muito. Que sempre me levaria no coração. Aquela mensagem me destruiu. Sabe quando um gosto amargo toma a boca e você não sabe de onde vem? Foi assim que me senti enquanto percorri a cidade inteira atrás da minha noiva, sem encontrá-la. Como se não bastasse, ainda tive uma discussão horrível com Heloísa. Disse coisas que jamais deveriam ter saído da minha boca. Palavras que carregavam raiva, frustração e ignorância. Quando fui até a casa dela para pedir desculpas, ouvi sua discussão com os pais. Ouvi quando ela falou sobre a noite em que a salvei. Ouvi o quanto foi machucada pelas atitudes de todos nós. E, então, ouvi o golpe final: Ela disse que talvez Simone tivesse fugido para escapar de todos… e do monstro que era seu noivo. Aquilo me feriu mais do que ser deixado no altar. Mas, ainda assim, fiz uma promessa silenciosa a mim mesmo. Eu encontraria Simone. Nem que tivesse que girar o mundo atrás dela. E, quando a encontrasse, ela me contaria a verdade. Sobre tudo. Sobre o motivo real da fuga. Sobre as mentiras que sustentaram aquele casamento. Porque, se eu era um monstro… Eu precisava entender quem realmente me transformou nisso.
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