Alice Albuquerque
Eu fico parada onde estou, olhando séria para ele e ele fica me encarando fixo, com o seu sorrisinho presunçoso nos lábios.
P: Sente-se por favor!
A: Obrigada!
Ele solta uma risadinha sarcástica, eu fico irritada novamente, mas eu preciso me controlar por que eu quero muito esse trabalho e claro que o salário também, não vou mentir.
P: Me diga o porquê você quer trabalhar para mim?
A: Se me permite fazer uma correção... trabalhar para a SUA EMPRESA, é uma grande oportunidade de aprendizado e crescimento profissional.
P: Você falou certo, a empresa é MINHA, então você não deixaria de trabalhar para MIM.
Ele continua me olhando fixo com o seu sorrisinho no rosto, eu olho para ele estreitando os olhos, mas resolvo não retrucar com ele.
P: Me fale sobre você, Alice Albuquerque?
Essa pergunta me pegou um pouco desprevenida, sempre que eu ouço isso, me dá uma espécie de bloqueio, pois acabo lembrando de coisas indesejadas que já vivi e acabou afetando quem eu sou hoje.
A: Eu me chamo Alice, tenho 27 anos, sou formada em administração e nutrição. Mais alguma coisa que o senhor queira saber?
Eu tento desconversar, quem sabe ele muda de assunto e eu não precise ficar me explicando e falando da minha vida pessoal.
P: Você mora sozinha?
A: Sim.
P: Não tem família?
A: Sim, eu tenho. Porém, os meus pais não moram aqui em Nova Iorque.
P: E onde eles moram?
Já chega, ele não está fazendo uma entrevista de emprego e sim uma entrevista da minha vida pessoal.
A: Desculpe, senhor Pedro, mas eu não sei onde a minha vida pessoal, se encaixa na entrevista de emprego?
P: Você é mesmo muito abusada garota...
Ele faz uma pausa e fica me encarando por alguns segundos, antes de soltar a bomba.
P: “Quem eu penso que sou?! Ainda preciso responder a sua pergunta?
Eu fiquei sem reação e sem saber o que responder para ele. Logo eu, que tenho a língua solta e sempre tenho respostas para tudo, eu estou anestesiada com esse olhar penetrante sobre mim, eu não sei dizer o que ele está me causando, mas eu não estou gostando nada disso.
P: Você se diz qualificada para a função, mas pelo visto não tem acesso à internet, revistas, jornais ou algum tipo de meio de comunicação. Você nunca me viu antes?
Quando escuto essas palavras meu nervoso volta e respondo no mesmo tom provocativo.
A: Sim, eu tenho acesso a todos os meios de comunicações. Não é por que eu sou uma pessoa pobre e solitária, que quer dizer que eu não saiba de nada. Eu já o vi em alguns sites de fofocas, com manchetes do tipo “O Influente CEO Pedro Reis ataca mais uma vez…” ou então “O magnata mais cobiçado de Nova Iorque, com uma nova modelo”. Sim, já o vi, mas nada que seja relevante, por isso não me lembrei do seu rosto.
Eu vejo a sua expressão dar uma vacilada, mas não demora muito para ele se recompor e me provocar novamente.
P: Olha, até que eu admiro essa sua insolência. Eu não quis dizer nada relacionado a sua classe social, mas eu também sei, que isso é só charme para que eu caia no seu joguinho de me conquistar.
A: ”ha ha ha” o SENHOR se acha a última bolacha do pacote neh?! Me desculpe, mas sou eu que não quero cair nesse seu joguinho de conquistador barato. Saiba que não estou aqui para um encontro e sim para uma entrevista de trabalho, não misturo vida pessoal com profissional. Além do mais, eu não estou passando necessidades, para ter que aturar a sua arrogância todo dia. Agora se me der licença...
Falo já me levantado da cadeira e caminhando em direção a porta. Eu não aguentei esse ar arrogante que ele tem e acabei falando o que não devia, dei ênfase a palavra senhor por que sei que vai atingir o seu ego. Nós dois temos quase a mesma idade, mas pelo que eu pude perceber, ele é bem vaidoso. Saio da sala e o deixo lá sozinho com a sua cara de eu posso tudo.
Eu pego o elevador e desço até o andar debaixo para falar com a dona Marlene, ela foi muito atenciosa e prestativa comigo. Preciso agradece-la pela oportunidade. Chegando na sala dela, a vejo desligando o telefone e logo ela me olha, já imagino que “o senhor eu mando”, deve ter ligado para ela, falando sobre a minha insolência e petulância.
Então ela abre um sorriso gigante, se levanta da sua cadeira e vem ao meu encontro. Eu fico confusa e espero que ela me explique o que aconteceu. Ela me puxa pelo braço e me senta na cadeira em frente a sua mesa.
M: Alice querida, meus parabéns! Vejo que eu não me enganei sobre você e você terá um futuro muito próspero aqui na empresa.
A: Dona Marlene, não precisa disso, eu… ééé… vou falar logo de uma vez, porque eu não gosto de enrolação. Eu acabei de discutir com o sr. Pedro, não acho que deva me dar os parabéns por isso. Kkk...
M: Vejo que alguém conseguiu derreter o coração de gelo do nosso CEO kkkkkkk… Não me enganei quando te escolhi, você é a pessoa certa para o Pedro.
A: Me desculpe, a senhora está bem? Eu não estou entendendo nada.
M: Venha comigo, que eu vou te explicar e já vamos acertar os seus documentos. Você precisa começar imediatamente!
Eu a acompanho, pois quero muito entender o que aquele ser insuportável está aprontando. E para minha surpresa, ela me contou que ele quer a minha contratação imediata, que não era para me deixar ir embora e que eu devia começar a trabalhar urgente.
Eu a contei para ela, tudo o que aconteceu na sala dele e ela riu muito da minha afronta, ela ainda disse que deve ser por isso que ele aceitou me contratar, pois nunca foi contrariado, todos aqui da empresa abaixam a cabeça para ele.