3 – Afastamento

2383 Palavras
Luane estava dentro do seu carro parada na garagem do laboratório, tinha que entrar, tinha que enfrentar. Depois de chegar em seu apartamento na noite anterior, tomou um banho e dentro do banheiro deixou suas lágrimas caírem, deixou sentir a mágoa de deixar tudo acontecer, ela não poderia ter sido fraca, precisava ser forte o suficiente para evitar aquilo. Então com todo seu autocontrole e força de vontade ela desce do seu carro, pega sua bolsa e seu jaleco e caminha para a entrada, mas o destino é bem filho da p**a que sempre brinca, eis que juntamente Carol entra no elevador. Então elas se encaram com intensidade, os corações acelerados e os corpos trêmulos. - Bom dia, Luane.             Carol entra na caixa de metal e dá as costas para a morena, aperta o botão e se põe a mexer no celular, Luane respira fundo, sabe que aquilo é uma m***a. - Carol... - Sim. - Sobre... Sobre ontem... - Não temos o que falar, você disse que seria só uma noite, não se preocupe, eu sei respeitar os limites. Vamos, temos trabalho a fazer.             Ainda sem encarar a outra, Carol sai do elevador e anda pelo corredor, indo diretamente para o laboratório delas. Luane não entendeu, será que Carol apenas queria aquilo? s**o? Será que ela era baixa a esse ponto?  A morena se pôs a andar para a sala também e logo ver a latina mexer em alguns papéis. - Sabe, estava pensando, eu li em algum livro sobre a reprodução artificial antigamente, no caso há mil anos era feito através da experiência da junção entre o espermatozoide e o óvulo, será que... - Carol, você sabe que já tentaram isso.             A mais nova suspira, e era verdade, nem assim a reprodução entre homem e mulher deu certo, o óvulo nunca era fecundado e nenhum cientista até hoje descobriu o porquê. - É. Tudo bem, vamos voltar ao objetivo principal, fazer com que serem humanos consigam reproduzir sem acasalamento. Você analisou o material do outro dia? - Sim, mas... - Deixe-me ver, estou esperançosa com algo.             Luane estava de boca aberta com a indiferença da outra, no fundo imaginou merecer, mas a quem queria enganar, aquilo estava incomodando, elas eram amigas antes de tudo, e não queria perder aquilo. Vai até o seu armário e pega os resultados, entrega os papeis para a menor que nada diz. - Obrigada, vou dá uma lida na outra sala, depois... - Carol, para! - A latina a encara. - Luane, pare você, não era isso que você queria? Estou respeitando a sua decisão. - Eu nunca te pedi para agir comigo dessa forma, com essa indiferença. E não venha colocar a culpa só em mim, você também estava lá, você também quis. - Talvez só eu tenha querido, e esse foi o erro, Luane, só eu quero e por isso quero esquecer, apesar de estar sendo difícil, apesar de ser doloroso, mas eu vou esquecer, não se preocupe, ninguém vai ficar sabendo, ninguém vai nem desconfiar, acabou antes mesmo de começar. - Carol... - Não, Luane, você fez a sua escolha, você quer assim, então pronto, vou ler esses papeis.             E entra na salinha de reunião. A morena fica parada encarando aquela porta de fechar, evitava as lágrimas, precisava ser forte, precisava ser a mulher decidida que sempre fora, afinal, Carol estava apenas fazendo o que ela pediu que fizesse, era só uma noite, tinha que ser só uma noite, o problema era convencer o seu corpo disso, era fazer seu coração entender. - Vou trabalhar, preciso ocupar a minha mente.             E assim ela fez, analisando amostras, vendo resultados, tudo muito lentamente, pois era assim que o tempo parecia passar. Dentro da sala, Carol tinha a cabeça deitada em cima da mesa, os papéis estavam para o lado. Ela m*l poderia pensar direito, imagina ler. Respirava vagarosamente, ao contrário de Luane ela deixou algumas lágrimas caírem, deixou seu corpo desabar, não sabe ao certo o motivo, afinal, fora s**o, sabe que sentia algo pela morena, mas não seria tão forte a ponto de fazê-la chorar, ou seria? Será que... - Não, não, não, eu não estou apaixonada por ela, eu não posso estar, não por ela.             Precisava acabar com aquilo, precisava fazer com que seu corpo não reagisse mais à morena, precisava tirar aquilo que sentia de si, iria tirar nem que fosse à força. Estava decidida, estava disposta. - Carol...             Ela escuta a porta se abrir, então levanta rápido e dá as costas para a morena, não queria que ela lhe visse assim tão frágil. - Você está... - Não, o que quer Luane?             A mulher de olhos verdes sente seu coração quebrar, sente seu corpo fraquejar, ela não queria aquilo, ela nunca queria ver a mulher assim, tão fraca, sofrendo. - Carol... - O que quer, Luane?             A voz dura da latina era c***l, era doloroso, uma mulher tão meiga e gentil, e o pior era que Luane sabia que merecia, ela fez aquilo. - Eu... Eu... – A morena vai se aproximando, Carol sente seu corpo tencionar, ela precisava evitar aquilo, se deixasse acontecer, deixasse-se levar ela sofreria muito mais, porque para a outra tanto faz, esse era o pensamento da mais nova. – Carol... – Luane tenta tocar seu ombro. - Não me toque. – A latina se afasta bruscamente. – Apenas diga o que quer. - Por favor, Carol... - A latina agora sorri irônica e encara a morena, a latina tinha os olhos vermelhos e o rosto amassado. - Por favor, digo eu, o que você quer, Luane? Você me deixa confusa, você me esnoba, me rejeita, depois vem com seu jeitinho e me toma, se entrega a mim, e logo depois me manda ir embora, e agora que estou fazendo o que pediu, está aqui, o que você quer, Luane? - Eu... Eu não sei, d***a, eu não sei. – A morena ficava cada vez mais confusa. - Eu também não sei, Luane, eu não faço a mínima ideia do que é esse sentimento que está tirando meu sono todos os dias. Mas em momento algum eu te machuquei, em momento algum eu quis fazer isso, ao contrário de você, que parece acordar todos os dias e dizer “Hoje vou quebrar a Carol”. - Pelo amor de Deus, olha o que está falando. - Carol encara aqueles verdes e respira fundo. - Ok, Luane, vamos deixar as coisas bem claras aqui. Nós transamos ontem, para mim foi maravilhoso, você foi a minha primeira, fique feliz ou se mate por isso, o problema é seu, para mim foi especial, porque foi com uma pessoa... Maravilhosa, mas acabou.  Você quis assim, você quer assim, então esse aqui é um ponto final ao que nem começou, na verdade. - Você não entende. - Eu nem quero entender, Luane, não vou me permitir te amar, não mais. A partir de agora seremos apenas o que sempre fomos, companheiras de trabalho, temos um objetivo, vamos cumpri-lo. Não se preocupe, não darei mais em cima de você, nada mais de frases de duplo sentido, acabou, você está livre de mim. - Carol... - Eu já vou embora, por favor, feche tudo, preciso do colo da minha irmã. Nos vemos amanhã.             E sai da sala sem dá chance de a morena revidar. Luane agora se deixa desabar, porque no fundo ela sabe que perdeu muito mais do que romance, ela perdeu uma amizade, uma pessoa maravilhosa em sua vida. Ela talvez tenha perdido a chance de ser feliz. ....................*** ....................             Carol estava decidida a não fraquejar, ela sempre foi forte, sempre foi decidida, foi treinada para sempre ser a melhor e assim seria, a melhor em não se apaixonar, pena que ninguém controla essas coisas, pena que ninguém manda no coração. No dia seguinte, lá estava ela dentro do seu carro, analisando todo o dia anterior, quando saiu da empresa foi correr, porque era o melhor que ela fazia, mas ao chegar no rio seu choro aumentou, porque as lembranças vieram destruidoras, a mais velha conseguiu fazer de um momento tão belo uma coisa que deve ser esquecida, conseguiu fazer de seu lugar favorito um que ela não quer ir, pelo menos por enquanto. Sai do automóvel e entra na recepção, não demora para ver o corpo de Luane aparecer, elas entram no elevador. - Bom dia. - Bom dia, Luane.             Não falam mais nada, não se encaram, apenas respiram fundo. Logo estão no laboratório. - Eu analisei seus resultados essa noite, estão normais, na verdade como todos os outros. Acho que... - Não desista. - Não estou, mas estou cansada, quer dizer, não da ciência, mas poderíamos pensar em outras possibilidades, sei lá, estudar mais a fundo a inseminação, ou a fertilização, não sei, talvez o processo de acasalamento não tenha solução, é assim e pronto, estou fadada a casar com um tigre e você com uma águia, ponto final.             Luane nada responde, apenas olha para a latina que estava de costa para ela vestindo seu jaleco. A morena sentiu a mágoa na voz da outra, mas não ia voltar a esse assunto, dormiu decidida e acordou mais decidida ainda, era o certo a se fazer. - Carol, não pense assim, nós somos boas no que fazemos, podemos resolver essa questão. - Não tenho tanta certeza, mas não se preocupe, não vou desistir, vamos continuar a nossa pesquisa, mas vou investir em outros meios, talvez encontre outra solução. - Poso te ajudar a... – Luane se aproxima. - Não, prefiro fazer sozinha, não se preocupe, não vou abandonar a nossa pesquisa. - Porque está falando assim? Sempre fizemos todas as pesquisas juntas, dedicamos quase cincos anos a esse projeto, não pode... - Eu já disse, Luane, não vou te deixar na mão, vamos terminar, chegar a uma conclusão que seja negativa, mas vamos terminar. - A latina respira fundo e se afasta da morena de nono. - Vou levar a amostra do coelho para o laboratório de análise, volto em alguns minutos. - Claro, o laboratório de análise.             A morena fala revirando os olhos, ela sabe bem quem trabalha lá. Carol ignorou, afinal, ela nunca quis nada com aquele garoto, mas ele é um bom profissional. A latina anda pelo os corredores e cumprimenta a todos, ela é uma boa pessoa. - Hey, Carol. Quanto tempo. - Olá, Tom, trouxe essas amostrar para você analisar. - Ah, sim, apenas cinco minutos. - Ele pega os recipientes e coloca na máquina, ela faz todo o resto. - Então... O que vai fazer amanhã à noite? – Ele fala tímido. - Provavelmente dormir muito cedo. - Ah, sim claro, você teve uma semana difícil. Mas, algumas pessoas daqui vão comemorar o aniversário da Hannah, lá naquele bar, o que sempre vamos, você devia rir, vai ser legal. - Tudo bem, se der eu apareço por lá. - O rapaz sorriu animado. Ele precisava conquistar aquela mulher. - Ótimo, vou te esperar lá.             Carol nada disse, pois logo a máquina dá o sinal e os papeis começam a sair. Ela pega todos e depois a amostra e volta para a sala. Luane estava no microscópio olhando algo. - Voltou rápido, pensei que o Tom iria te trancar lá.             Carol a ignora e senta na sua mesa, começa a analisar os resultados, Luane sabe que deve deixá-la quieta. Elas não tardam em escutar batidas na porta. - Hey, Carol. - “D”, sua desgraçada, você voltou de viagem e nem me avisou.             A latina corre e abraça a amiga, Donna Hansen era a sua melhor amiga desde sempre, a loira tinha o DNA de leão, quando se transformava ficava masgestosa, estava viajando sendo representante da Mitchell’s em um congresso que durou um mês, pois viajou por todos os laboratórios espalhados pelo mudo, a loira fazia parte da administração da empresa. - Eu cheguei ontem à noite, mas só pensava em dormir, me desculpa. – Ela fala ao se afastar. – Hey, Luane. – Fala um pouco desanimada, afinal, ela sabe de tudo e sempre aconselhou à melhor amiga para deixar aquela morena fora da sua vida, não por ser contra, mas odiava ver Carol sofrer. - Olá, Donna. Simples e curta também. Logo a loira volta sua atenção para a latina. - Conte-me tudo não esconda nada. - Eu conheci alguém. - Oh, então enfim um leão ganhou o coração dessa leoa faminta. - Sim, quer dizer, está quase tudo certo. - Carol fica confusa. - Espera, não me diga que.... Donna, você está gostando de outra espécie? - O que? Não, eu não sou você. - Luane arregala os olhos, mas não desvia a atenção do microscópio. - Donna, sua doida. Mas então qual é o problema? - É da mesma espécie, só não é um leão. - Agora eu fiquei mais confusa. - É... – A loira tosse. – É outra leoa. - Oh m***a! Você... Certo. – Carol fica surpresa, mas logo um sorriso surge em seu rosto. – Somos duas ferradas, não é? - Completamente. - Ambas gargalham. - Precisamos conversar urgentemente. Que tal uma saideira? – Carol disse animada. - Seria ótimo, terá o aniversário da Hannah, eu acho que vou, você vai? - Eu não sei, o Tom me convidou, mas... - Ele não perde uma chance, não é? – Donna fala de propósito, Luane engole em seco. – Você deveria ir, quer dizer, nós vamos, eu vou buscar você. Vamos beber tudo e eu te falo da Nancy. - Hum... Então o nome da sortuda é esse? - Sim, ela é tão maravilhosa. - Para, ou vou ficar com inveja. - Não se preocupe, nem que custe a minha vida, mas amanhã você vai beijar na boca. - Donna, i****a. Vai embora, nos vemos amanhã.             As duas trocam um abraço, Carol respira fundo e volta a seus papeis, Luane não queria e não poderia admitir, mas estava louca de ciúmes, louca de vontade de dizer à Carol para não ir, para ficar com ela, para ser dela, mas não podia, porque ela não poria tudo que conquista em risco por conta de uma aventura, porque ela nem sabe que sente e se for só s**o? E se for só atração? Bom, é melhor deixar como está. Assim, em silêncio elas voltam ao trabalho, trocam algumas palavras básicas, mas só com relação ao trabalho, em nada aquele ambiente estava parecido com o que tinha um mês atrás, cheio de brincadeiras e piadas sem graça, as duas tentavam se convencer de que era melhor assim, porque no fundo sabiam que nunca daria certo, pelo menos Carol pode dizer que tentou, mas e Luane? Teria esse consolo?
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