Cecília
Eu vim pra casa, sentei e chorei um pouco. Depois de alguns minutos, o vapor bateu na porta e avisou que a minha mãe já estava no postinho. Que ela estava quebrada, mas que estava viva. Então eu juntei todas as minhas forças e vim pro postinho. Avisei que era filha dela e fiquei esperando do lado de fora.
Depois de um bom tempo esperando, a médica veio na minha direção.
Médica: Tudo bem, Cecília? A sua mãe teve que fazer uma operação. Ela fraturou algumas costelas, o braço tá quebrado, uma perna também. Ela está bem machucada, mas vai ficar bem.
Cecília: Graças a Deus... Eu já consigo ver a minha mãe?
Médica: Claro. Você pode me acompanhar, por favor.
Vim acompanhando a médica, e quando entrei no quarto, comecei a chorar. A minha mãe tava muito machucada. Ela não tava acordada, mas eu sabia que deveria estar com muita dor. A médica saiu, me deixando sozinha com ela.
Me aproximei, passei a mão no rosto dela e deixei mais algumas lágrimas caírem. Era uma mistura de raiva e alívio. Raiva por ela ter se metido nessa, por não conseguir largar aquela merda de droga. E alívio por ela ainda estar viva. Mesmo ferrada daquele jeito, ela tava ali. Respirando. E isso, por mais pouco que fosse, era tudo pra mim.
Cecília (pensamento): Mãe... você não faz ideia do que eu tô prestes a fazer pra te salvar. Se um dia você sair dessa, você me deve a p***a da sua vida.
Fiquei com ela por mais de uma hora. Só olhando. Chorando baixo. Pensando em tudo. E tentando ser forte. Mas por dentro eu tava em pedaços. Eu ia pagar uma dívida com o meu corpo. Uma dívida que não era nem minha. Uma dívida que a p***a do crack criou.
Quando voltei pra casa, já era noite. Fechei a porta, encostei as costas na parede e desabei.
Chorei. De soluçar. De quase vomitar de tanta angústia. Eu queria fugir. Queria sumir. Mas não dava mais. O Sombra ia me cobrar. E eu tinha dado a palavra.
Fui até o banheiro, tirei a roupa e entrei no chuveiro. A água tava gelada, mas eu nem senti. Meu corpo já tava anestesiado por dentro mesmo. Fiquei ali, parada, com os olhos fechados, deixando a água cair sobre mim. Tentando não pensar. Tentando não entrar em pânico.
Depois de alguns minutos, comecei a lavar o corpo. Peguei a esponja e esfreguei cada pedaço da minha pele com força, como se isso fosse me limpar da vergonha, do medo, do que estava prestes a acontecer. Lavei o cabelo, escovei os dentes, e quando saí, me olhei no espelho.
Eu tava bonita. Mas os olhos... os olhos não mentem.
Coloquei uma calcinha preta e um vestido simples, mais justo. Nada de maquiagem. Só passei um pouco de creme no rosto pra não parecer tão destruída.
Sentei na beirada da cama. Olhei pro relógio. 19:58. O vapor devia estar chegando. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca. Eu não queria ir. Eu não queria perder minha virgindade daquele jeito. Mas a minha mãe tava viva. E eu ia fazer de tudo pra manter ela assim. - sai dos meus pensamentos com as batidas na porta.
Levantei devagar. Fui até a porta. Abri. Era ele. Um dos vapores do Sombra.
Vapor: Cecília?
Cecília: Sou eu.
Vapor: Então vambora. O chefe mandou buscar você.
Assenti com a cabeça e saí. A moto dele tava ali, estacionada. Subi na garupa, e ele arrancou sem falar mais nada. O caminho parecia mais curto do que o normal. Como se o destino tivesse com pressa de me ferrar.
Chegamos numa casa afastada. Umamansão gingante, com câmeras em tudo quanto era canto. O portão abriu automaticamente. Ele entrou com a moto e parou na garagem.
Vapor: Sobe ali. A porta da sala já tá aberta. Ele tá te esperando.
Desci da moto. Minhas pernas estavam tremendo. Subi os degraus devagar. A cada passo, o medo aumentava. Abri a porta.
A sala tava toda iluminada, mas sem exagero. Parecia mais um esconderijo de luxo do que uma casa. Sofás de couro, piso de porcelanato.
O Sombra tava sentado no sofá, camisa preta, bermuda, com o celular na mão e um copo de whisky na outra. Quando me viu, levantou.
Sombra: Finalmente. Já tava achando que tu ia correr.
Cecília: Eu não sou dessas. Eu dei minha palavra.
Ele se aproximou devagar, me encarando com aquele olhar que mais parecia de um predador. Parou na minha frente, me analisando dos pés à cabeça.
Sombra: Tu tá nervosa.
Cecília: E você queria que eu estivesse como? Sorrindo?
Ele deu um sorriso torto e tomou um gole do whisky.
Sombra: Relaxa. Não vai ser um bicho de sete cabeças.
Cecília: Pra você, não.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois caminhou até a escada. Subiu dois degraus e olhou pra trás.
Sombra: Vem.
Respirei fundo. Engoli o choro que já tava na garganta e fui atrás.
Subi com ele, sentindo o coração apertar mais a cada passo. Entramos num quarto espaçoso, com cama king, lençóis pretos e um espelho enorme na parede lateral. O ar-condicionado tava no máximo. Eu tremia, mas não era frio.
Sombra: Pode sentar.
Sentei na beirada da cama. Ele foi até uma geladeira pequena que tinha no quarto e pegou uma garrafa de água e me entregou.
Sombra: Bebe. Tu tá branca.
Peguei a garrafa e bebi alguns goles. Minhas mãos estavam suando.
Cecília: Vamos logo com isso. Quanto mais rápido, melhor.
Sombra: Tá com pressa de perder a virgindade, é isso?
Cecília: Eu tô com pressa de sair daqui.
Ele riu. Colocou o copo no criado-mudo, tirou a camisa e se aproximou. Sentou ao meu lado.
Sombra: Olha pra mim.
Eu olhei.
Sombra: Eu não vou te machucar. Não mais do que já fizeram contigo nessa vida.
Cecília: Você só tá aqui porque tem poder. E eu só tô aqui porque não tenho escolha.
Sombra: É. Mas depois disso, tua mãe tá limpa. Comigo.
Assenti. Fechei os olhos. Senti ele puxar devagar a alça do meu vestido. Meu corpo inteiro se arrepiou. Eu não sabia o que esperar. Não sabia como ia reagir. Mas eu sabia que, depois dessa noite, nada ia ser igual.