Cap. 7

496 Palavras
Visão da PENÉLOPE Sou a Penélope. Dezoito anos. Irmã do patrão. Cabelão escorrido, corpo sarado, tatuagem na costela e sangue quente desde que aprendi a andar. Filha e agora irmã de dono de morro, criada no meio do fogo, ouvindo o radinho tocar mais que funk. Sempre tive tudo: respeito, medo e espaço. Mas nunca precisei me meter. Meu irmão comanda, eu observo. Se eu quiser, falo. Se não, só olho. Mas se mexer comigo... desce o ïnferno. Cria da Rocinha. Fiel ao Comando. Não sou do movimento mas sou treinada. Sei atirar e me defender. Passei uns dias na casa de uma amiga no Vidigal. Fui esfriar a mente, fugir da rotina. E tentar esquecer um certo alguém que tira meu sono e balança minha estrutura. Ele é proibido e eu gosto do perigo. Mas agora tô de volta. E já vi de cara que tem coisa fora do lugar. Cheguei na minha goma com minha bolsa no ombro, short colado, cropped branco, cara lavada. Portão abriu com o bip. Estranhei tanta gente na contenção hoje. Significa que meu irmão está em casa. E essa hora. Não tá normal. O cheiro da comida ia lá fora. Subi as escadas e entrei em casa. Ouvi barulho na cozinha e fui pra lá... Tinha uma menina fazendo comida. Muito nova pra ser a cozinheira. Moletom largo, cabelo preso, pé descalço. Toda arrumadinha, com uma faca na mão. Franzi a testa na hora. — Quem é tu? — soltei, firme, parando de frente pra ela. Ela se levantou devagar. — Eu... me chamo Alice. — Alice? Tá fazendo o que aqui? — O PH... ele... ele me trouxe pra cá. Opa. Fechei a cara. Desde quando PH traz os rolos dele pra casa?! Antes dela falar mais, ouvi a voz dele vindo da escada. — Relaxa, Penélope. Fui eu que trouxe ela. Por enquanto vai morar aqui. Virei pra ele, já com o olhar de quem não gostou e não engole fácil. — Desde quando tu traz teus rolos pra morar aqui? — Que rolo garota. Respeita a mina. A vida me obrigou a aceitar uma dívida que veio na forma de gente. — Tá dizendo que ela é dívida? — É. Mas tá na minha goma. E aqui ela vai ser respeitada. Voltei o olhar pra Alice. Ela abaixou a cabeça. Tímida. Cansada. Assustada. — Tá comendo da comida da casa também? — Ela tá sob minha proteção. Come, dorme e respira sob meu teto. E com ela ninguém mexe. Nem você — PH respondeu antes que eu terminasse. Respirei fundo. Não era hora de discutir. Mas eu ia observar de perto. Porque mulher nenhuma entra na nossa casa à toa. — Tranquilo. Só vim deixar minhas coisas. Depois a gente conversa — falei seca, e subi pro meu quarto. Mas antes de fechar a porta, dei uma última olhada pra ela. A tal da Alice. Quieta demais. Sozinha demais. Invisível demais. E isso... me incomodou. (continua...)
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