Visão da PENÉLOPE
Sou a Penélope.
Dezoito anos. Irmã do patrão.
Cabelão escorrido, corpo sarado, tatuagem na costela e sangue quente desde que aprendi a andar.
Filha e agora irmã de dono de morro, criada no meio do fogo, ouvindo o radinho tocar mais que funk.
Sempre tive tudo: respeito, medo e espaço.
Mas nunca precisei me meter.
Meu irmão comanda, eu observo.
Se eu quiser, falo. Se não, só olho.
Mas se mexer comigo... desce o ïnferno.
Cria da Rocinha.
Fiel ao Comando.
Não sou do movimento mas sou treinada. Sei atirar e me defender.
Passei uns dias na casa de uma amiga no Vidigal.
Fui esfriar a mente, fugir da rotina. E tentar esquecer um certo alguém que tira meu sono e balança minha estrutura.
Ele é proibido e eu gosto do perigo.
Mas agora tô de volta.
E já vi de cara que tem coisa fora do lugar.
Cheguei na minha goma com minha bolsa no ombro, short colado, cropped branco, cara lavada.
Portão abriu com o bip. Estranhei tanta gente na contenção hoje. Significa que meu irmão está em casa. E essa hora. Não tá normal.
O cheiro da comida ia lá fora.
Subi as escadas e entrei em casa.
Ouvi barulho na cozinha e fui pra lá...
Tinha uma menina fazendo comida.
Muito nova pra ser a cozinheira.
Moletom largo, cabelo preso, pé descalço.
Toda arrumadinha, com uma faca na mão.
Franzi a testa na hora.
— Quem é tu? — soltei, firme, parando de frente pra ela.
Ela se levantou devagar.
— Eu... me chamo Alice.
— Alice? Tá fazendo o que aqui?
— O PH... ele... ele me trouxe pra cá.
Opa.
Fechei a cara. Desde quando PH traz os rolos dele pra casa?!
Antes dela falar mais, ouvi a voz dele vindo da escada.
— Relaxa, Penélope. Fui eu que trouxe ela. Por enquanto vai morar aqui.
Virei pra ele, já com o olhar de quem não gostou e não engole fácil.
— Desde quando tu traz teus rolos pra morar aqui?
— Que rolo garota. Respeita a mina. A vida me obrigou a aceitar uma dívida que veio na forma de gente.
— Tá dizendo que ela é dívida?
— É. Mas tá na minha goma. E aqui ela vai ser respeitada.
Voltei o olhar pra Alice.
Ela abaixou a cabeça. Tímida. Cansada. Assustada.
— Tá comendo da comida da casa também?
— Ela tá sob minha proteção. Come, dorme e respira sob meu teto. E com ela ninguém mexe. Nem você — PH respondeu antes que eu terminasse.
Respirei fundo.
Não era hora de discutir.
Mas eu ia observar de perto.
Porque mulher nenhuma entra na nossa casa à toa.
— Tranquilo. Só vim deixar minhas coisas. Depois a gente conversa — falei seca, e subi pro meu quarto.
Mas antes de fechar a porta, dei uma última olhada pra ela.
A tal da Alice.
Quieta demais.
Sozinha demais.
Invisível demais.
E isso...
me incomodou.
(continua...)