Visão do PH
Depois de me despedir da Alice, botei o radinho na cintura e desci pra garagem.
Imperador e Sombra já me esperando na moto.
— Bora, patrão. Tenho que fazer o recolhe e a troca de plantão — Imperador avisou.
— Bora meter marcha — respondi, subindo na minha BMW branca.
Descemos em comboio. O sol m*l tinha batido e o movimento já tava fervendo.
Chegamos na boca. Os cria abriram espaço. As märmita já se oferecendo. Cabelão solto, peito pulando no decote, saia curtinha. Certeza que tavam sem calcinha, só esperando a oportunidade.
Os vapores já tavam prontos pra passar visão.
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Visão do IMPERADOR
Parei direto na frente da boca 1.
— Cadê o gerente? — perguntei.
Um vapor veio no toque.
— Tá lá dentro conferindo a carga, chefe.
— Manda ele vir. Tô com pressa.
Segundos depois, o gerente apareceu. Camisa da Lacoste, boné reto, nervoso.
— Plantão trocado?
— Trocado, chefe.
— Recolhe pronto?
Ele mostrou a mochila. Peguei, abri. Bolinho de nota de 100. Tudo organizado.
Passei nas outras bocas, mesma parada em todas, e subi de volta. Faltou só a 12 porque o gerente tinha saído pra resolver um B.O. em casa.
— Confere a contagem, Sombra! — gritei, largando a mochila e as anotações na mesa dele.
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Visão do SOMBRA
Peguei a mochila, sentei na cadeira e comecei a contar nota por nota.
Ritmo de cria. Mão rápida, olho afiado.
PH tava do lado, só observando.
A gente era assim: eu no dinheiro, ele na decisão. Um equilíbrio sem palavra.
— Plantão da 12 mandou malote — o vapor avisou pelo radinho.
— Deixa aí na minha mesa. Depois repasso tudo pro patrão.
Enquanto isso, o radinho apitou.
— PH na escuta? — voz do Fantasma.
— Manda.
— Tô na barreira. O Grego tá aqui, pedindo pra subir.
Na hora, meu sorriso abriu.
O coroa. Meu padrinho.
— Libera geral. Avisa que eu tô na boca.
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Visão do PH
Grego subiu com a calma de quem manda até no tempo.
Camisa branca dobrada no braço, cabelo grisalho alinhado, barba no ponto.
Coroa bonito, elegante. O tipo que impõe só de aparecer.
Quando ele chegou na boca, todo mundo se ajeitou.
Os cria levantaram, as märmita disfarçaram, os vapores se alinharam.
— E aí, meu moleque — ele falou, abrindo os braços.
Fui até ele, abracei firme.
— Fala, padrinho — soltei num sussurro.
Sombra e Imperador já vinham logo atrás.
— Fala, meus garotos — disse, fazendo toque com eles.
Os quatro juntos.
Cena rara.
A gente se emocionava sem precisar mostrar.
Era muita história vivida e guardada no peito.
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Visão do IMPERADOR
O coroa era f**a.
A gente cresceu vendo ele passar no morro como lenda.
Hoje, tá ali. Com a gente. Na nossa estrutura. Na nossa retaguarda.
— Senta aí, Gregão. Vamo tomar um café que a Alice deixou pronta na térmica — falei, já puxando cadeira.
Ele riu.
— Que pörra é essa? Já tem mulher tomando conta da casa?
— Protegida do PH — Sombra explicou. — História longa, mas a menina é na moral.
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Visão do GREGÃO
Sou o Grego.
42 anos.
Coroa que mete respeito só de aparecer.
No documento: Francisco Braga.
Mas na rua... é só Grego.
Fui vapor. Virei gerente. Tomei morro.
Hoje, sou o 1º chefe do Comando.
Cinco cadeias, dois tiros, uma guerra de facção.
Sobrevivi.
E criei esses três como filho e sobrinhos.
PH?
Esse moleque é minha continuação.
Vi ele perder os pais no meio do fogo cruzado. Dei abrigo. Dei arma. Dei visão.
Hoje ele é o nome mais respeitado, não só da Rocinha. Entre os donos de morro, ele já é lenda.
Sombra e Imperador são o braço e a perna.
Juntos, viraram o coração da favela.
— Vim só dar um salve e passar uma visão — falei, apoiando o copo na mesa.
— Tem novo tenente no BOPE. Pegou posse essa semana.
Disseram que é carne de pescoço.
PH levantou o olhar.
— Nome?
— Ainda não sei. Mas meu informante disse que o cara já tá mirando favela da Zona Sul.
Rocinha tá no mapa.
Silêncio. Clima mudou.
— Já vou reforçar a contenção. Qualquer passo fora da curva, a gente age — PH respondeu, seco.
— Só vim avisar — Grego disse. — E ver vocês. Me dá paz ver essa estrutura.
— A casa é tua, padrinho — Sombra disse. — Sempre foi.
— Eu sei. Por isso continuo subindo com o peito aberto.
Tomamos mais um café.
Falamos de coisa boa.
Rimos de história antiga.
Mas cada um saiu dali com o radar ligado.
Porque se o BOPE quiser subir...
A Rocinha vai botar pra descer o ïnferno.