CAP. 5

754 Palavras
ALICE Acordei cedo. O sol ainda nem tinha batido direito na janela. Fiquei uns minutos deitada, ouvindo o silêncio. Eu tinha comido. Dormido. Estava viva. E pela primeira vez... num lugar limpo, sem gritos e medo de apanhar. Levantei, prendi o cabelo, desci de mansinho. A cozinha ainda estava do mesmo jeito de ontem. A pizza vazia sobre a mesa. Peguei e joguei fora. Abri a geladeira. Tinha tudo: ovos, queijo, presunto, pão, café, leite. "Vou fazer alguma coisa. Preciso ser útil. Não posso ser um peso morto." Comecei pelo café. Depois a omelete. Deixei tudo arrumado na mesa. Nem sei se ele come de manhã. Mas eu precisava fazer alguma coisa. Ouvi passos. A respiração travou. PH apareceu com uma bermuda, camisa jogada no ombro, tanquinho à mostra, cabelo bagunçado. Cheiroso. Másculo. Uma delícia. Parecia que tinha acabado de sair do banho, mas com cara de quem não dorme. Acorda, Alice, sai do país das maravilhas e volta pra realidade. — Cê acorda cedo, hein? — ele soltou, com a voz ainda rouca. — Fiz café... montei a mesa. Ele chegou perto, sentou sem falar nada, pegou um pedaço da omelete, mordeu devagar. — Omelete ficou muito bom. — falou seco, como quem assina um documento. Sentei do outro lado, quieta. Estar aqui era surreal. Um homem como ele, comendo a comida que eu fiz. De repente, o portão eletrônico da garagem abriu. PH levantou o olhar, já com aquele semblante alerta. — Os cria abriram... relaxa, são eles — murmurou, se levantando pra ir abrir a porta da sala. Minutos depois, entraram na cozinha dois gigantes. Sombra com a camisa nas mãos, sorriso no rosto. Imperador já rindo alto. — Que pörra é essa, cheiro de café? — Imperador gritou já entrando. — cäralho, eu tô sonhando ou patrão agora tem cozinheira? — Cê respeita, irmão — PH falou firme. — Ela fez pra ela. Eu só comi porque tava pronto. Sombra se encostou na bancada, olhou pra mim com calma, sem malícia. — Tu que fez o café? E a omelete também? Assenti, tímida. — Tava bom pra cäralho — PH confirmou, sem olhar pra mim. — Eu aceito um pedaço — Sombra falou, já puxando cadeira e sentando. — Pode ser? — Claro... — respondi. Voltei pra cozinha, fiz outra omelete na hora, em silêncio enquanto eles falavam sem perceber que eu podia ouvir. — cäralho — Imperador se jogou na cadeira — se eu soubesse que ia ter café da manhã, nem tinha ido dormir com a boca cheia. Sombra riu. — Tá na cara que tu nem dormiu, irmão. Certeza que tu passou a noite com a Diana engasgando no teu päu. PH se preocupou. — Fala baixo, pörra — avisou, sério. Foi aí que os dois perceberam que eu tava ali. De moletom, com chinelo de dedo, servindo café como se fosse dona de casa. Sombra pigarreou. Imperador ajeitou na cadeira. — Foi m*l aí, mano... a gente achou que ela tava na cozinha — Imperador disse. — Relaxa — falei rápido, tentando aliviar. — Eu... eu já ouvi coisa pior. — Nada a ver você ouvir isso — PH completou. — Aqui não é resenha de bar. — Mas... se quiserem, eu posso fazer mais omelete — falei, tentando mudar o clima. Os dois me olharam. Sombra abriu um sorrisão. — Tu cozinha bem pra cäralho, hein? — Melhor que a märmita da padaria — Imperador completou. PH deu uma risada de canto, discreta, mas deu. — Tá achando que aqui virou república, é? — ele soltou, olhando pros dois. — Se tiver comida assim todo dia, pode virar até hotel cinco estrelas — Imperador debochou, metendo pão com ovo na boca. Sombra me olhou de novo. Dessa vez, diferente. Não com desejo. Com respeito. — Valeu pelo café, Alice. Na moral mesmo. — É... valeu — Imperador repetiu. — A gente vive num corre doido. Ter alguém aqui fazendo café... parece normal, mas é mó parada boa. PH se levantou, pegou o copo de café e virou de uma vez. — Vamo meter marcha. O dia começou. Tu — ele apontou pra mim — se quiser continuar fazendo esses corres aí, fica à vontade. Mas aqui ninguém vai te cobrar nada, tá ligado? Assenti. Mas por dentro... eu sorria. Eles estavam rindo. Conversando. E eu ali. Na mesa deles. Era pouco. Mas pra mim... parecia tudo. Eu nunca fiz parte de nada. E agora eu fazia. Mesmo que ainda não soubesse exatamente o meu lugar.
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