ALICE
Acordei cedo. O sol ainda nem tinha batido direito na janela.
Fiquei uns minutos deitada, ouvindo o silêncio. Eu tinha comido. Dormido. Estava viva.
E pela primeira vez... num lugar limpo, sem gritos e medo de apanhar.
Levantei, prendi o cabelo, desci de mansinho.
A cozinha ainda estava do mesmo jeito de ontem. A pizza vazia sobre a mesa. Peguei e joguei fora.
Abri a geladeira.
Tinha tudo: ovos, queijo, presunto, pão, café, leite.
"Vou fazer alguma coisa. Preciso ser útil. Não posso ser um peso morto."
Comecei pelo café. Depois a omelete. Deixei tudo arrumado na mesa.
Nem sei se ele come de manhã. Mas eu precisava fazer alguma coisa.
Ouvi passos.
A respiração travou.
PH apareceu com uma bermuda, camisa jogada no ombro, tanquinho à mostra, cabelo bagunçado.
Cheiroso. Másculo. Uma delícia.
Parecia que tinha acabado de sair do banho, mas com cara de quem não dorme.
Acorda, Alice, sai do país das maravilhas e volta pra realidade.
— Cê acorda cedo, hein? — ele soltou, com a voz ainda rouca.
— Fiz café... montei a mesa.
Ele chegou perto, sentou sem falar nada, pegou um pedaço da omelete, mordeu devagar.
— Omelete ficou muito bom. — falou seco, como quem assina um documento.
Sentei do outro lado, quieta. Estar aqui era surreal.
Um homem como ele, comendo a comida que eu fiz.
De repente, o portão eletrônico da garagem abriu.
PH levantou o olhar, já com aquele semblante alerta.
— Os cria abriram... relaxa, são eles — murmurou, se levantando pra ir abrir a porta da sala.
Minutos depois, entraram na cozinha dois gigantes.
Sombra com a camisa nas mãos, sorriso no rosto. Imperador já rindo alto.
— Que pörra é essa, cheiro de café? — Imperador gritou já entrando. — cäralho, eu tô sonhando ou patrão agora tem cozinheira?
— Cê respeita, irmão — PH falou firme. — Ela fez pra ela. Eu só comi porque tava pronto.
Sombra se encostou na bancada, olhou pra mim com calma, sem malícia.
— Tu que fez o café? E a omelete também?
Assenti, tímida.
— Tava bom pra cäralho — PH confirmou, sem olhar pra mim.
— Eu aceito um pedaço — Sombra falou, já puxando cadeira e sentando. — Pode ser?
— Claro... — respondi.
Voltei pra cozinha, fiz outra omelete na hora, em silêncio enquanto eles falavam sem perceber que eu podia ouvir.
— cäralho — Imperador se jogou na cadeira — se eu soubesse que ia ter café da manhã, nem tinha ido dormir com a boca cheia.
Sombra riu.
— Tá na cara que tu nem dormiu, irmão. Certeza que tu passou a noite com a Diana engasgando no teu päu.
PH se preocupou.
— Fala baixo, pörra — avisou, sério.
Foi aí que os dois perceberam que eu tava ali. De moletom, com chinelo de dedo, servindo café como se fosse dona de casa.
Sombra pigarreou. Imperador ajeitou na cadeira.
— Foi m*l aí, mano... a gente achou que ela tava na cozinha — Imperador disse.
— Relaxa — falei rápido, tentando aliviar. — Eu... eu já ouvi coisa pior.
— Nada a ver você ouvir isso — PH completou. — Aqui não é resenha de bar.
— Mas... se quiserem, eu posso fazer mais omelete — falei, tentando mudar o clima.
Os dois me olharam. Sombra abriu um sorrisão.
— Tu cozinha bem pra cäralho, hein?
— Melhor que a märmita da padaria — Imperador completou.
PH deu uma risada de canto, discreta, mas deu.
— Tá achando que aqui virou república, é? — ele soltou, olhando pros dois.
— Se tiver comida assim todo dia, pode virar até hotel cinco estrelas — Imperador debochou, metendo pão com ovo na boca.
Sombra me olhou de novo. Dessa vez, diferente. Não com desejo. Com respeito.
— Valeu pelo café, Alice. Na moral mesmo.
— É... valeu — Imperador repetiu. — A gente vive num corre doido. Ter alguém aqui fazendo café... parece normal, mas é mó parada boa.
PH se levantou, pegou o copo de café e virou de uma vez.
— Vamo meter marcha. O dia começou. Tu — ele apontou pra mim — se quiser continuar fazendo esses corres aí, fica à vontade. Mas aqui ninguém vai te cobrar nada, tá ligado?
Assenti.
Mas por dentro... eu sorria.
Eles estavam rindo.
Conversando.
E eu ali.
Na mesa deles.
Era pouco.
Mas pra mim... parecia tudo.
Eu nunca fiz parte de nada.
E agora eu fazia. Mesmo que ainda não soubesse exatamente o meu lugar.