Eu sentia cada solavanco da caminhonete como se fosse uma pontada no meu próprio corpo. A Hilux descia as ruelas apertadas da Rocinha com uma facilidade que eu invejava; eu, por outro lado, sentia que estava desmoronando por dentro. Usei as costas das mãos para enxugar as lágrimas que não paravam de brotar, borrando o pouco de dignidade que me restava. Minha pele queimava — não apenas pelo sol que começava a castigar o Rio, mas pela lembrança do toque dele, das marcas que ele deixou, da forma possessiva como ele me reivindicou.
"Tu agora tem dono, Maya."
As palavras do Coringa ecoavam na minha mente como um martelo batendo em metal. Eu achei que estava comprando um bilhete de saída, mas acabei assinando um contrato de servidão eterna. O pior de tudo? Eu não conseguia apagar a sensação de como ele tinha me possuído. A brutalidade misturada com aquela descoberta avassaladora de prazer... era um veneno doce que eu odiava ter provado.
Quando o carro parou a algumas vielas de distância da minha casa, eu respirei fundo. Tentei ajeitar o vestido justo, que agora parecia uma prova do meu crime, e soltei o cabelo para esconder o pescoço, onde eu sabia que havia marcas. Eu precisava ser a Maya de sempre. A sombra. A serva.
Assim que pisei no quintal de terra batida, o ar pareceu sumir. A porta da frente estava escancarada. Odete estava sentada à mesa, com uma xícara de café na mão e o rosto carregado de um ódio que eu conhecia bem. Letícia e Paula estavam logo atrás, escoradas no balcão, com sorrisos de quem estava prestes a assistir a um espetáculo.
— Olha só quem resolveu dar as caras — Odete disse, sua voz saindo como um chicote. — Onde você passou a noite, sua vagabunda?
Eu travei na porta. Meu corpo doía, minha alma sangrava, e ali estava o meu carrasco diário. — Eu... eu dormi na casa de uma amiga. Eu avisei que ia sair — menti, minha voz saindo falha.
— Amiga? — Letícia deu um passo à frente, apontando para o meu vestido. — Desde quando você tem roupa de p**a, Maya? E esse cabelo? Você está cheirando a perfume de homem caro e fumo.
Odete se levantou devagar. A fúria nos olhos dela era palpável.
— Eu te dei uma ordem, garota. Eu disse que você não ia ver aquele doutorzinho do asfalto. Você acha que eu sou palhaça? Que você pode desobedecer as minhas ordens e voltar aqui com essa cara de quem foi bem usada?
— Não foi o Rodrigo, Odete! Eu juro! — Tentei me defender, mas o nome dele saiu como uma confissão de culpa.
O tapa veio tão rápido que eu não tive tempo de desviar. O estalo ecoou na cozinha pequena, e meu rosto virou para o lado, a pele ardendo onde os dedos dela marcaram.
— Não minta para mim! Você é uma ridícula, Maya. Olha para você... cheia de sardas, com esse jeito de bicho do mato. Você acha mesmo que um homem como aquele advogado te levaria a sério? Ele te usou, te jogou num canto e agora você volta para cá achando que é mulher?
Ela me segurou pelo queixo, apertando com força, exatamente onde o Coringa tinha segurado horas antes. O contraste era c***l.
— Hoje é sua folga no restaurante, mas aqui você não tem folga. Você vai arrumar esta casa de ponta a ponta. Vai lavar o banheiro, vai esfregar o quintal e vai fazer o almoço das minhas filhas. Se eu te vir sentada por um minuto que seja, você vai dormir no meio da rua. Entendeu?
Eu não respondi. Apenas baixei a cabeça, deixando o cabelo cobrir meu rosto. Eu era uma prisioneira de dois mundos. No topo do morro, um monstro me chamava de "sua". No meio do morro, uma bruxa me chamava de "nada". Eu não sabia o que era pior: o medo do Coringa ou o asco de Odete.
Passei o dia inteiro sob as ordens delas. Esfreguei o chão até meus joelhos sangrarem, limpei o vômito de Paula no banheiro — de novo — e ouvi cada insulto, cada risadinha sobre como eu era "fácil". Elas não sabiam que eu tinha o segredo do dono da Rocinha queimando na minha pele. Elas não sabiam que, se eu falasse uma palavra, a mansão dele desceria como um raio sobre aquela casa. Mas eu tinha medo. Medo de que, se o Coringa viesse me buscar, eu nunca mais veria a luz do sol fora das paredes de mármore dele.
Só à noite, quando as três saíram para um pagode no baixo do morro, eu consegui escapar. Corri para a casa de Mirele, sentindo minhas pernas pesadas e o corpo pedindo trégua. Quando ela abriu a porta e me viu naquele estado — o rosto marcado pelo tapa de Odete e os olhos vermelhos de tanto chorar — ela não disse nada. Apenas me puxou para dentro e me abraçou.
Eu desabei. Chorei nos braços dela como a criança que eu nunca tive permissão para ser.
— Eu tô ferrada, Mirele... Eu tô muito ferrada! — Solucei contra o ombro dela. — Eu tenho dois carrascos agora. A Odete me bateu, me humilhou o dia todo... e o Coringa... ele disse que eu sou dele. Ele disse que não vai me deixar ir!
Mirele me afastou um pouco, limpando minhas lágrimas com o polegar. O olhar dela era de pura pena, o terrível "eu te avisei" brilhando nos seus olhos.
— Eu te falei, Maya. Eu te implorei para não aceitar. Homem como o Coringa não faz negócio, ele faz posse. Ele nunca ia deixar uma joia como você escapar depois de provar.
Eu me encolhi no sofá, abraçando meus próprios joelhos.
— Eu achei que seria só uma vez. Eu achei que o dinheiro seria a minha chave... mas agora eu sinto que é a minha coleira.
Mirele hesitou por um momento antes de perguntar o que eu sabia que ela queria saber.
— E como foi? Ele foi... grosso? A experiência foi r**m, Maya? Ele te machucou?
Eu olhei para o nada, as sensações da noite anterior voltando em ondas. Eu queria dizer que foi horrível. Queria dizer que o odiava com todas as minhas forças. Mas a verdade era mais complicada.
— Ele não foi carinhoso do jeito que eu imaginei que um homem seria... ele disse que não beija na boca, que não faz amor. Ele fode, Mirele. Com força, com vontade. Ele me chamou de Pimentinha... — Senti meu rosto esquentar. — Mas ele é bom de cama. Ele sabe o que faz. Eu senti coisas que eu nem sabia que existiam. E é isso que me mata! Eu não quero ser a amante dele, Mirele. Eu não quero ser a p**a que ele chama quando tá com t***o. Eu só queria ser livre.
— O problema é que o morro tem ouvidos — Mirele sussurrou, preocupada. — Se a Carolaine descobrir que você subiu a mansão, Maya... aquela mulher é uma cobra. Ela se acha a dona da p***a toda e é capaz de te matar só por ter pisado onde ela nunca pisou. Mas vai dar tudo certo, a gente vai pensar em algo...
Nesse momento, a porta da frente se abriu e Foguinho entrou. Ele parou ao me ver ali, com um olhar que misturava respeito e aquela malícia de quem sabe o que aconteceu lá em cima. Ele não disse "oi". Ele foi direto ao que interessava.
— O patrão mandou entregar isso aqui — ele disse, estendendo um celular de última geração, caríssimo, que brilhava sob a luz da sala.
Eu olhei para o aparelho como se fosse uma granada.
— Eu não quero isso, Foguinho.
— Não é questão de querer, Maya. É ordem. Ele quer falar contigo a hora que ele quiser. Se tu não atender, ele desce o morro pra te buscar pessoalmente. Você quer isso?
Peguei o celular com a mão trêmula. Era pesado. Era real.
— E o dinheiro? — Perguntei, minha voz sumindo.
— Ele mandou perguntar como tu quer. Em mãos ou depósito.
— Depósito — respondi rápido. — Pode colocar na conta que a Mirele tem os dados. Eu não quero dinheiro físico em casa, a Odete roubaria de mim em um segundo.
Foguinho assentiu, digitando algo no próprio celular.
— Tá feito. O patrão mandou avisar que ele quer mais. Que tu te prepare, porque ele não tem paciência pra esperar muito tempo.
Eu senti um calafrio. Olhei para Mirele, que estava com uma expressão de puro terror. Eu tentei dizer que não, que não ia mais, mas as palavras morreram na garganta. Eu estava vendida. Literalmente.
Percebi que o clima entre Foguinho e Mirele estava mudando; eles queriam o tempo deles, o momento deles de namorar, e eu não passava de uma sombra incômoda ali. Levantei-me devagar, guardando o celular novo entre o cós da minha calça e a pele, escondendo-o sob o camisete largo que eu tinha colocado.
— Eu já vou indo — murmurei. — Obrigada por tudo, Mirele.
Saí para a noite da Rocinha. O ar estava fresco, mas eu me sentia sufocada.
Eu tinha o dinheiro na conta. Eu tinha o celular de luxo escondido. Mas eu nunca me senti tão pobre e tão vigiada em toda a minha vida. Eu entrei em casa, escondi o aparelho dentro de um buraco no colchão da cozinha e me deitei, sentindo a ardência do tapa de Odete no rosto e a ardência da posse do Coringa no meu corpo.
Eu era a Pimentinha do dono do morro. E a minha fuga parecia agora um sonho que estava morrendo antes mesmo de começar.