Capítulo 3 – Coringa

1341 Palavras
O sol ainda não tinha coragem de aparecer totalmente no horizonte da Rocinha, mas a claridade acinzentada da madrugada já entrava pelas frestas da persiana automática da minha suíte. Eu estava sentado na beirada da cama, com um cigarro apagado entre os dedos, apenas observando. Eu já tive muitas mulheres. Perdi a conta de quantas bocas, quantos corpos e quantas vozes passaram pela minha cama na rua 12 — ou pelos hotéis e motéis onde eu as descartava. Mas nenhuma delas jamais dormiu no meu lençol. Nenhuma delas jamais teve o direito de fechar os olhos e baixar a guarda no meu santuário. E ali estava ela. Maya. A "Pimentinha". Ela dormia de bruços, o rosto amassado contra o travesseiro cinza, os cabelos negros espalhados como uma mancha de tinta sobre a seda. A pele das costas dela era de um branco que parecia brilhar na penumbra, salpicada por aquelas sardas que agora eu sabia que desciam por todo o corpo. Olhei para o lado, para o meu próprio corpo ainda nu, e vi o rastro da noite anterior. O sangue seco no meu p*u, o lençol manchado com o selo da inocência dela que eu tinha acabado de reivindicar. Porra. Aquilo era ouro. Eu sentia uma satisfação bruta, um orgulho de macho que eu nunca tinha experimentado. Eu tinha sido o primeiro. O único. Eu tinha entrado naquele corpo apertado, que parecia ter sido moldado sob medida para mim, e tinha sentido cada tremor da alma dela enquanto ela se rendia. Maya não era carne de vaca. Ela era rara. E no momento em que eu provei aquela pureza misturada com a marra dela, eu soube: o plano de "um pente e vaza" tinha acabado de sofrer uma execução sumária. Eu sou um carnívoro. E quando um carnívoro encontra uma presa desse quilate, ele não divide. Ele não descarta. Ele guarda na toca. Ela se mexeu. Um gemido baixo escapou dos lábios dela antes mesmo de abrir os olhos. Vi o exato momento em que a consciência voltou e a realidade a atingiu como um soco. Maya abriu os olhos verdes, assustada, e deu de cara comigo, sentado ali, nu, observando-a como um predador observa o que acabou de abater. — Meu Deus... — ela sussurrou, a voz rouca do sono e dos gritos da noite passada. Ela tentou se sentar rapidamente, mas soltou um ganido de dor e travou no lugar. Vi a careta de dor que ela fez, a testa franzindo, os dentes apertando o lábio inferior. Ela tentou puxar o lençol para cobrir o corpo, tentando desesperadamente se esconder de mim. — Desculpa... eu... eu não devia ter dormido. Eu já estou indo — ela disse, a voz trêmula, enquanto lutava com o pano. Dei uma tragada na maconha que acendi agora, soltando a fumaça lentamente na direção dela. — Vai esconder o quê, Pimentinha? Se eu já vi tudo, já toquei em tudo e já tive acesso a cada milímetro dessa tua pele? Ontem tu não estava com essa vergonha toda quando estava gritando meu nome. Ela ficou vermelha na hora. Um vermelho que subia do peito até a raiz do cabelo. Ela se sentou, apertando as pernas uma na outra, e vi o desconforto evidente no jeito que ela se movia. A ardência do pós-sexo era clara no rosto dela. — É... está doendo? — Perguntei, sem um pingo de remorso, apenas com curiosidade possessiva. — Um pouco — ela respondeu, sem me olhar. — Você é... grande. Dei um sorriso de canto, sentindo o ego inflar. — Eu avisei que eu fazia estrago. Tentei ser carinhoso porque era tua primeira vez, mas não te acostuma não. Essa foi a única vez que você vai ter esse tratamento de luxo. Da próxima, o bicho vai pegar de verdade. Ela parou de lutar com o lençol e me encarou, os olhos verdes cheios de uma esperança ingênua que me deu vontade de rir. — "Próxima"? Não vai ter próxima, Coringa. O acordo era uma noite. Eu vim, eu fiz... agora, você vai me dar o dinheiro? Eu preciso ir. Preciso sair desse morro antes que a Odete acorde. Eu me levantei. Caminhei até o bar, peguei um copo de água e bebi, sentindo o olhar dela queimando nas minhas costas. Voltei para perto da cama e me inclinei sobre ela, prendendo-a entre meus braços. — O dinheiro vai chegar na tua mão. O Foguinho vai passar lá e te entregar. Mas tira essa ideia de "ir embora" da cabeça, Maya. — O quê? Mas esse era o trato! Eu me vendi pra você pra ter o dinheiro da fuga! — As lágrimas começaram a brotar nos olhos dela, e o desespero na voz dela me deu um prazer doentio. — Você não entendeu ainda, né? — Segurei o queixo dela com força, obrigando-a a me olhar. — Tu veio atrás de mim. Você se ofereceu. Você colocou o preço e eu paguei. Só que eu decidi que o que eu paguei vale muito mais que uma noite. Tu vai f***r comigo até eu cansar de ti. E eu te garanto, Pimentinha... eu tô bem longe de estar cansado. — Não! Você não pode fazer isso! Eu sou livre! — Ela começou a chorar, soluços desesperados que sacudiam seus ombros nus. — Livre? — Ri na cara dela. — No meu morro, ninguém é livre se eu não deixar. Tu agora tem dono, Maya. Você é a f**a oficial do Coringa. E se tu tentar meter o pé, eu busco você no inferno se precisar. Agora limpa esse rosto, te veste e vaza da minha casa. Não quero mulher circulando aqui de dia. Ela se vestiu aos prantos, as mãos tremendo tanto que m*l conseguia fechar o vestido. Eu não ajudei. Fiquei apenas assistindo, gravando cada detalhe daquela humilhação no meu cérebro. Eu precisava que ela soubesse que, embora eu tivesse gostado do corpo dela, eu ainda era o mestre e ela a serva. Quando ela saiu pela porta, cambaleando levemente pela dor entre as pernas, eu senti um vazio estranho no quarto. O cheiro dela ainda estava lá. O sangue dela ainda estava na minha cama. Peguei o radinho que estava em cima do criado-mudo. Apertei o botão lateral, a frequência chiando antes de conectar. — Jacaré, tá na escuta? — Minha voz era gelo puro. — Na escuta, patrão. Pode falar — a voz do Jacaré, um dos meus soldados mais impiedosos e silenciosos, respondeu de imediato. — A menina tá descendo agora. A Maya. Quero que tu seja a sombra dela, entendeu? Quero saber quem fala com ela, onde ela pisa, o que ela come. Se aquele advogadozinho de merda aparecer perto dela de novo, tu me avisa que eu mesmo vou lá costurar a boca dele. — Entendido, Coringa. Vou ficar na bota. Ela vai perceber? — Se ela perceber, eu corto a tua cabeça, Jacaré. Quero que tu seja um fantasma. Protege a mina de longe, não deixa ninguém encostar, nem a família dela. Mas se ela tentar sair do morro, se ela for pra rodoviária ou pro aeroporto, tu trava ela na hora e me traz de volta. Ela é propriedade privada agora. — Pode deixar, chefe. Tá monitorada. Desliguei o rádio. Caminhei até a varanda e vi a Hilux descendo a ladeira com ela dentro. Maya achava que o dinheiro que o Foguinho ia entregar era o bilhete dela para a liberdade. Ela não tinha noção de que aquele dinheiro era, na verdade, a corrente que eu tinha acabado de prender no pescoço dela. Ela era a minha Pimentinha. E o carnívoro aqui só estava começando a abrir o apetite. Olhei para o lençol manchado uma última vez antes de mandar a empregada trocar tudo. Eu não ia lavar aquela mancha. Eu ia guardar aquela imagem na mente para me lembrar de que, a partir de hoje, a Rocinha tinha uma rainha... mesmo que ela ainda não soubesse que o trono dela era uma cela de ouro na minha mão.
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