O trajeto até o topo do morro pareceu uma eternidade dentro daquela Hilux blindada. Eu olhava pela janela, mas não via as luzes da comunidade; eu via apenas o reflexo do meu próprio rosto no vidro escuro. Eu tinha tentado. Mirele me ajudou a escolher um vestido preto, o mais justo que eu tinha, um que eu guardava para uma ocasião que nunca chegava. Soltei meus cabelos, deixando que as ondas negras caíssem sobre meus ombros, tentando desesperadamente parecer uma mulher que sabia o que estava fazendo.
Mas a verdade é que eu era uma farsa. Por baixo daquele vestido, meu coração batia tão forte que eu sentia as batidas na ponta dos dedos. Eu queria que fosse rápido. Um negócio, uma transação. Eu entrava, ele usava meu corpo, eu pegava o dinheiro e sumia antes do sol nascer. Esse era o plano. Mas os planos mudam quando o homem em questão é o Coringa.
Quando o carro parou diante dos portões imensos da mansão, meu estômago deu um nó. Eu sabia que ninguém subia ali. Aquela casa era uma fortaleza de concreto e vidro, isolada de toda a barulheira do morro. Foguinho me guiou para dentro em silêncio, e o luxo daquele lugar me intimidou. O chão de mármore brilhava tanto que eu tinha medo de caminhar e deixar marcas de suor. Ele me levou até o segundo andar e abriu uma porta dupla de madeira pesada.
— Espera aqui, Maya. O patrão já vem.
A porta se fechou e eu ouvi o clique da fechadura. Trancada. Eu estava trancada no quarto do dono da Rocinha.
O quarto era enorme, com cheiro de madeira cara, fumo e um perfume masculino tão intenso que parecia que o Coringa estava ali, mesmo estando ausente. A cama era imensa, coberta por lençóis de fios egípcios cinza-escuro. Tentei não olhar muito para ela. Caminhei até a varanda, observando a imensidão do Rio de Janeiro lá embaixo. O Cristo Redentor parecia um brinquedo distante. Ali, no topo do mundo de Coringa, eu me sentia minúscula.
As horas passaram como se fossem séculos. Eu já tinha andado o quarto inteiro, contado as garrafas de uísque no bar particular dele, observado as tatuagens que apareciam em fotos espalhadas, até que ouvi o som da porta se abrindo.
Meu corpo tencionou instantaneamente.
Coringa entrou. Ele não parecia mais o homem do bar; ali, no seu território, ele parecia ainda maior, mais perigoso. Ele tirou a camisa de marca e a jogou em qualquer canto, revelando o peito largo, coberto por uma armadura de tinta preta. Ele caminhou até o bar, serviu-se de uma dose de uísque puro e só então me olhou. Aqueles olhos escuros pareciam ler a minha alma.
— Gostou da vista, Maya? — Ele perguntou, a voz rouca vibrando no quarto silencioso.
— É... é bonita — respondi, minha voz quase sumindo.
Ele deu um gole na bebida e caminhou em minha direção. Cada passo dele era predatório. Ele parou a poucos centímetros de mim, e o calor que emanava dele era sufocante.
— Vamos direto ao ponto. Eu não tenho paciência pra joguinhos. Tu tá aqui por um preço, e eu pagarei caro. Então, me diz logo... o que você gosta no sexo?
Eu travei. Senti meu rosto arder.
— O que?
— Você gosta de oral? Prefere anal? — Ele continuou, como se estivesse perguntando o que eu queria jantar. — Eu gosto de saber com o que eu tô lidando. Não gosto de mulher passiva demais.
O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Eu não sabia onde enfiar a cara. Eu nunca tinha chegado nem perto de uma conversa dessas. Senti as lágrimas de vergonha ameaçarem cair.
— Eu... eu não sei — sussurrei, olhando para os meus próprios pés.
Coringa soltou uma risada seca, sarcástica.
— Como assim não sabe, garota? Tá querendo me dizer que o advogado lá embaixo não te ensinou nada?
— Eu nunca... eu nunca fiz nada disso, Coringa — explodi, a voz saindo num misto de raiva e humilhação. — Eu nunca beijei ninguém. Eu não sei o que eu gosto porque eu sou virgem. Eu sou inocente nessa p***a toda, tá satisfeito agora?
O copo de uísque parou no caminho da boca dele. O olhar do Coringa mudou. O sarcasmo sumiu, dando lugar a uma surpresa genuína que logo se transformou em algo mais escuro, algo que parecia possessão pura.
— Virgem? — Ele repetiu a palavra como se fosse um conceito estrangeiro. — Tu tem esse corpo, essa marra toda, e nunca deixou ninguém encostar?
— Eu trabalhava. Eu era humilhada. Eu não tinha tempo pra ser jovem — respondi, cruzando os braços sobre o peito.
Ele deixou o copo de lado. Vi a mandíbula dele travar.
— Escuta aqui, Maya. Eu não sou homem de fazer amor. Eu não sei ser delicado, eu não sei falar baixinho. Eu gosto de f***r, e gosto de f***r com força. Mas... — ele deu um passo, diminuindo a distância até que nossos corpos quase se tocassem — já que é a tua primeira vez, eu vou tentar não te quebrar no meio. Só que tem regras. Eu não beijo na boca. Beijo é pra quem ama, e eu não amo ninguém.
Aquelas palavras deveriam ter me machucado, mas eu só queria que acabasse.
— Tudo bem. Só faz o que tem que fazer.
[…]
Ele não me beijou, como prometido. Mas o que ele fez foi mil vezes mais intenso. Suas mãos brutas agarraram minha cintura, puxando-me contra o corpo dele, e eu senti a rigidez do seu desejo contra o meu ventre. Ele começou a descer o zíper do meu vestido devagar, o som do metal correndo parecendo um trovão no quarto. O vestido caiu aos meus pés, deixando-me apenas de calcinha diante dele.
— Porra... — ele murmurou, a voz falhando. — Você é mais bonita do que eu imaginei.
Ele começou a beijar meu pescoço, e sua barba por fazer arranhava minha pele de um jeito que me fazia arrepiar inteira. Ele não beijava minha boca, mas sua língua traçava caminhos de fogo pelos meus ombros, descendo para os meus s***s. Ele os tomou com uma fome que me assustou, chupando e mordendo de leve, fazendo-me soltar um gemido baixo que eu nem sabia que era capaz de emitir.
— Eu não gosto de f********o oral em mulheres — ele disse, com a voz abafada contra a minha pele. — Nunca sei por onde elas andaram, com quantos transaram. Mas tu... tu é diferente. Você é limpa. É minha.
Ele me carregou para a cama e me deitou com uma estranha reverência. Suas mãos afastaram minhas pernas, e eu fechei os olhos, morrendo de vergonha. Mas o Coringa não me deu tempo para pensar. Ele se ajoelhou entre minhas pernas e olhou.
— Branquinha por fora... e tudo rosadinho aqui.
Senti a língua dele pela primeira vez onde ninguém jamais havia tocado. Foi um choque elétrico. Eu tentei fechar as pernas, mas ele as segurou com força.
— Fica quieta, Maya. Deixa eu ver o gosto da tua liberdade.
Ele me chupou com uma intensidade avassaladora. Ele sabia exatamente onde tocar, como usar a língua para me levar à loucura. Eu apertava os lençóis, minha cabeça balançando de um lado para o outro. O prazer era tanto que começou a doer de um jeito bom. Minha pele, normalmente pálida e cheia de sardas, começou a ficar manchada de um vermelho intenso, um calor que subia do meu ventre para o rosto.
— Olha pra ti... tá toda vermelha — ele rosnou, parando por um segundo para me olhar, o rosto dele banhado pelo meu suor. — Parece uma Pimentinha. Minha Pimentinha.
Ele voltou a me lamber até que eu senti meu corpo entrar em espasmos. Eu gozei pela primeira vez na vida, gritando o nome dele em meio ao prazer que parecia que ia me explodir. Meu corpo relaxou, mas o Coringa estava apenas começando.
Ele se posicionou sobre mim. Vi o suor escorrendo pelas suas tatuagens, o olhar dele fixo no meu, uma chama de obsessão que eu nunca tinha visto em ninguém. Ele pegou o meu rosto com as duas mãos, mantendo-me presa sob ele.
— Vai doer, Pimentinha. Mas depois passa.
Ele entrou. Devagar, centímetro por centímetro. Senti uma dor aguda, um r***o que me fez morder o lábio para não gritar. Ele parou, esperando que eu me acostumasse com a presença dele dentro de mim. Ele era grande demais, preenchia cada espaço vazio que eu nem sabia que tinha.
— Respira, Maya. Respira comigo — ele sussurrou no meu ouvido, e pela primeira vez, vi um rastro de carinho na voz do monstro.
Quando ele percebeu que eu estava relaxando, ele começou a se mover. No início, era devagar, mas logo o instinto de predador dele assumiu o controle. Ele começou a f***r com força, a cama batendo contra a parede, o som dos nossos corpos se chocando ecoando pelo quarto luxuoso. Eu não sabia o que fazer com as mãos, então as enterrei nos ombros dele, sentindo os músculos se contraindo sob a minha pele.
O prazer voltou, dessa vez mais profundo, mais visceral. Eu não era mais a garota que limpava chão; eu era uma mulher sendo possuída pelo homem mais perigoso do Rio de Janeiro, e, por algum motivo doentio, eu me sentia poderosa.
Coringa rosnava contra o meu pescoço, o ritmo dele ficando frenético. Eu sentia que ia explodir de novo.
— É minha... tu é minha, ouviu? — Ele dizia entre dentes.
Ele atingiu o ápice com um rugido, derramando-se dentro de mim enquanto eu me perdia em outra onda de orgasmo. Ele desabou sobre o meu peito, o peso dele me esmagando contra o colchão, a respiração de ambos ofegante, sintonizada.
O silêncio voltou para o quarto, mas era um silêncio diferente.
Ele saiu de cima de mim e se deitou ao lado, puxando o lençol para nos cobrir, mas eu estava exausta demais para me mover. Olhei para o teto, sentindo meu corpo ainda vibrar. Eu tinha conseguido. O acordo estava selado. Eu tinha o dinheiro... mas, de alguma forma, enquanto eu sentia o calor do corpo dele ao meu lado, a ideia de fugir parecia estranhamente distante.
O cansaço me venceu. Fechei os olhos, sentindo o cheiro dele impregnado na minha pele. Adormeci ali mesmo, pelada na cama do homem que deveria ser apenas um cliente, mas que, em apenas uma noite, tinha se tornado o dono de tudo o que eu era.