Aranha
Entro no carro acompanhado de Jacaré, enquanto os outros homens se organizam nos veículos atrás de nós. Já passei a visão de que ninguém vai atirar sem minha ordem, porque não quero transformar essa p.o.r.r.a numa guerra. Só preciso encontrar o Popoye e fazer aquele desgraçado entender que meu filho não vai ficar sozinho na cadeia. Jacaré continua me olhando como se estivesse esperando que eu mudasse de ideia, mas pode esquecer. Não vou voltar para casa sem resolver essa situação.
— Chefe, tu tem certeza que quer fazer isso? A gente tá falando da Rocinha, p.o.r.r.a! Os caras não vão aceitar essa invasão numa boa.
— Eu não perguntei se eles vão aceitar, Jacaré. Mandei tu preparar os homens, não mandei?
— Preparar eu preparei, mas tu sabe que isso pode acabar numa guerra.
— Então é melhor o Popoye colaborar.
Durante o caminho, fico tentando ligar para o advogado mais uma vez, mas o desgraçado não atende. Guardo o celular no bolso, irritado, e olho pela janela quando começamos a nos aproximar da Rocinha. Os homens avançam praticamente ao mesmo tempo, surpreendendo os vapores que estão nos acessos. Alguns tentam reagir, mas acabam rendidos antes de conseguirem avisar o restante do morro. Os moradores começam a correr quando percebem a movimentação, e eu mando os homens continuarem avançando. Não demora muito para chegarmos à boca, onde encontramos Popoye, Pit e Sirigueijo conversando.
— Ninguém se mexe, c.a.r.a.l.h.o! — um dos meus homens grita.
Os três são surpreendidos antes de conseguirem pegar as armas. Meus homens cercam o lugar, rendendo os vapores que estão por perto. Desço do carro com a pistola na mão, enquanto Popoye me encara com uma expressão de quem não tá entendendo absolutamente nada.
— Que p.o.r.r.a tá acontecendo aqui? — ele pergunta, olhando para os homens armados. — Quem é o responsável por essa m.e.r.d.a?
— Sou eu, Popoye.
Pit olha na minha direção, completamente revoltado.
— Tu ficou maluco, Aranha? Invadiu a Rocinha por quê, seu filho da p.u.t.a?
— Abaixa a bola, Pit! Não vim aqui conversar contigo.
— Então manda esses arrombados abaixarem as armas! — Sirigueijo exige.
— Ninguém vai abaixar p.o.r.r.a nenhuma até eu resolver o que vim fazer.
Popoye levanta uma das mãos, pedindo para os dois ficarem quietos, e volta a me encarar.
— Fala logo, Aranha. Que p.o.r.r.a tu quer?
— Eu vim aqui para falar do nosso acordo entre sua filha e o meu filho.
— Então por que você invadiu a Rocinha? Era só me procurar para conversar!
— Para você não conseguir voltar atrás. Meu filho acabou de ser preso.
— O quê?
— Isso mesmo que você ouviu! O Garfield foi preso quando tava vindo para a festa da tua filha. Mataram o piloto dele, espancaram meu moleque e jogaram ele em Bangu. O advogado acabou de voltar de lá e falou que ele tá todo machucado, precisando de cuidados.
Popoye passa a mão no rosto, claramente surpreso com a notícia.
— Pô, Aranha, eu sinto muito pelo teu filho, mas não tô entendendo o que isso tem a ver com a minha família.
— Tem tudo a ver! Ou a sua filha vai visitar ele na cadeia, ou eu mato vocês três agora. Eu poderia mandar qualquer outra pessoa, mas ele quer ela, então ela vai! Chama sua filha aqui. Eu quero falar com ela pessoalmente.
Pit solta uma risada sem humor e balança a cabeça.
— Tu tá ameaçando matar nós três por causa de uma visita na cadeia? Tu tá completamente maluco!
— Não tô pedindo tua opinião, Pit!
— E eu não tô nem aí para o que tu tá pedindo, seu a.r.r.o.m.b.a.d.o!
Dois homens meus apontam as armas diretamente para ele, e Sirigueijo imediatamente manda todo mundo ficar quieto. Popoye olha para os lados, percebendo que qualquer movimento errado pode terminar numa tragédia.
— Aranha, minha filha acabou de fazer dezoito anos. Ela descobriu esse acordo ontem e não quer saber dessa história. Eu não vou obrigar minha filha a casar com ninguém!
— Eu não tô mandando ela casar hoje, c.a.r.a.l.h.o! Tô mandando ela visitar meu filho!
— E tu acha que vai conseguir isso ameaçando matar o pai dela?
— Se for necessário, vou!
Popoye respira fundo, completamente irritado.
— Tu tá passando dos limites! Eu aceitei aquele acordo para impedir uma guerra, não para entregar minha filha como se fosse uma mercadoria. A decisão de casar ou não vai ser dela!
— Então ela vai decidir isso depois! Agora meu filho precisa de uma visita, e eu quero a Maria Luiza naquele presídio!
Sirigueijo olha para Popoye antes de se manifestar.
— Irmão, liga para Maju. Ela precisa saber o que tá acontecendo.
— Eu não quero tua mulher aqui, Popoye! Eu quero tua filha! — interrompo imediatamente.
— E tu acha que vou mandar minha filha vir sozinha com esse monte de arma apontada para mim? — Popoye rebate. — A Maju vem junto!
— Então chama as duas, p.o.r.r.a! Mas não tenta me enrolar!
Popoye fica me encarando durante alguns segundos antes de pegar o celular. Um dos meus homens se aproxima, mas faço um sinal para ele se afastar. Não tenho problema nenhum com o desgraçado fazendo uma ligação, desde que seja para chamar quem eu mandei.
— Maju? — ele fala assim que a ligação é atendida. — Preciso que tu venha até a boca com a Maria Luiza. Não, não aconteceu nada comigo. Só vem, por favor. Depois eu explico.
Ele fica escutando por alguns segundos e passa a mão no rosto.
— Tá bom, traz ele também. Mas vem logo.
Quando encerra a ligação, guarda o aparelho no bolso.
— Minha mulher tá vindo com a Maria Luiza e o PH. Meu filho tava perto dela e não quis deixar as duas virem sozinhas.
— Por mim, pode trazer quem quiser. Só quero conversar com minha futura nora.
— Tu vai conversar com ela direito, Aranha! — Popoye avisa. — Porque minha filha não tem culpa de nada disso!
— Então é melhor tu explicar para ela que o futuro marido tá precisando de ajuda.
— Para de chamar minha filha de mulher do teu filho! Ela nem conhece o moleque!
Dou um sorriso de lado, porque já estou começando a entender de onde vem a fama de teimosia dessa família.
— Então chegou a hora de conhecer, não chegou?
Popoye fecha a cara, enquanto Pit começa a reclamar novamente. Sirigueijo continua observando meus homens, provavelmente tentando encontrar alguma maneira de sair dessa situação, mas não vai conseguir. Pelo menos não antes de eu conversar com Maria Luiza.
Jacaré se aproxima de mim e fala mais baixo:
— Chefe, tu sabe que, quando essa menina chegar e encontrar o pai rendido, ela vai ficar p.u.t.a da vida, né?
— Problema dela.
— Só tô avisando. Pelo que falam, ela tem o gênio da mãe.
— Melhor ainda. Meu filho sempre gostou de mulher difícil.
Jacaré balança a cabeça e se afasta. Volto minha atenção para Popoye, que continua me encarando com uma raiva desgraçada. Sei que ele não vai esquecer essa invasão tão cedo, mas agora tenho problemas maiores para resolver.
Meu filho tá preso, e eu não vou deixar Gabriel abandonado naquela cadeia.Se Maria Luiza é a mulher que ele tanto quer, então vai ter que escutar o que tenho para dizer.