Aranha
Eu estava no escritório resolvendo uns bagulhos quando escutei uma movimentação do c.a.r.a.l.h.o lá fora. Levantei a cabeça, já ficando bolado, porque tinha mandado os vapores pararem de fazer barulho perto da minha casa. Só que, antes de conseguir levantar da cadeira, Jacaré entrou no escritório acompanhado de dois moleques. Pela cara dos três, alguma m.e.r.d.a tinha acontecido. Jacaré estava comigo há anos e conhecia meu filho desde pequeno, então sabia muito bem que eu não gostava de brincadeira quando o assunto era minha família.
— Qual foi, Jacaré? Que p.o.r.r.a aconteceu?
— Chefe, acharam o carro do Garfield abandonado perto de um dos acessos da Rocinha. O bagulho tá feio.
Levantei da cadeira na mesma hora.
— Como assim, acharam o carro? Cadê meu filho?
— É isso que a gente tá tentando descobrir. O piloto dele tava morto dentro do carro. Os moleques foram atrás de informação e descobriram que a polícia fez uma operação naquela área.
Senti meu coração disparar. Peguei o celular e tentei ligar para Gabriel mais uma vez. Desde que ele saiu de casa, eu já tinha ligado umas cinco vezes, mas o desgraçado não atendia. Agora estava começando a entender o motivo.
— Descobre onde tá meu filho, c.a.r.a.l.h.o! Eu quero saber agora!
Jacaré pegou o rádio e começou a passar algumas ordens. Enquanto isso, fiquei andando de um lado para o outro. Eu tinha avisado para Gabriel não ir naquela festa. Tinha pedido para ele esperar, deixar Popoye conversar com a filha primeiro, mas aquele moleque sempre foi teimoso. Quando colocava alguma coisa na cabeça, ninguém conseguia fazer mudar de ideia.
Não demorou muito para um dos vapores receber uma ligação. O moleque ficou escutando durante alguns segundos antes de olhar para mim.
— Chefe, confirmaram. O Garfield foi preso. Os policiais levaram ele para a delegacia, mas parece que já mandaram direto para Bangu.
Por alguns segundos, fiquei sem conseguir falar nada. Meu filho estava preso. O meu único filho, que tinha saído de casa todo arrumado, feliz da vida porque finalmente ia conhecer a mulher que esperou durante anos, agora estava dentro daquela p.o.r.r.a de presídio.
— Chama o advogado. Agora! Quero ele aqui em dez minutos!
Jacaré saiu para resolver, e eu peguei o telefone para avisar à mãe de Gabriel. Não tive coragem de contar tudo naquele momento. Falei apenas que estava resolvendo um problema com nosso filho e que ela precisava ficar tranquila.
O advogado chegou pouco tempo depois, e eu praticamente joguei as informações em cima dele.
— Meu filho foi preso. Quero que você descubra onde colocaram ele, converse com o delegado, com o juiz, com quem for necessário. Eu quero saber como ele tá!
— Aranha, preciso primeiro confirmar a unidade e ter acesso ao processo. Você sabe que Gabriel tem mandados de prisão em aberto.
— Eu sei, c.a.r.a.l.h.o! Por isso tô pagando você! Vai lá e descobre!
O homem pegou os documentos e saiu. Passei as horas seguintes sem conseguir comer, sem conseguir sentar e muito menos pensar direito. Quando finalmente voltou, já estava anoitecendo.
— Consegui falar com Gabriel — anunciou, entrando no escritório.
— E aí? Como tá meu filho?
Ele puxou uma cadeira, mas nem chegou a sentar quando percebeu minha expressão.
— Aranha, ele está machucado. Segundo o que consegui apurar, sofreu agressões durante a prisão. Está com o rosto bastante inchado, alguns cortes e muitas dores pelo corpo. Ele precisa de atendimento médico e de acompanhamento.
Senti meu sangue ferver.
— Aqueles filhos da p.u.t.a bateram no meu filho?
— Ele me contou que foi agredido depois de chegar à delegacia. Eu vou pedir uma avaliação médica, registrar as lesões e tomar as medidas cabíveis. Mas também seria importante que ele recebesse uma visita de alguém próximo, assim que a unidade autorizar.
Passei a mão no rosto, tentando controlar a vontade de quebrar tudo.
— Meu filho tá machucado, sozinho naquele inferno, e você tá me dizendo que ele precisa de visita?
— Estou dizendo que ele precisa de cuidados e de apoio. Ele perguntou pela família e também quis saber se Maria Luiza já tinha descoberto sobre o acordo.
Fechei os olhos por alguns segundos. Até preso aquele desgraçado continuava pensando na filha do Popoye.
— Jacaré! — gritei.
Meu subchefe apareceu na porta quase imediatamente.
— Fala, chefe.
— Chama os homens. Quero todo mundo preparado. Nós vamos subir na Rocinha conversar com Popoye. A filha dele vai visitar meu filho na cadeia, já que é prometida para ele.
Jacaré me encarou, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.
— Aranha, a menina nem sabe ainda dessa história. O Popoye falou que precisava de tempo para contar.
Respirei fundo, sentindo a cabeça latejar.
— Eu não tenho tempo! Manda os homens se prepararem para uma invasão.
Jacaré arregalou os olhos.
— Uma invasão, chefe? Tu tá falando sério? A gente tem uma aliança com os caras há dezoito anos!
— Eu acho que eles vão querer brigar, mas não vou dar essa oportunidade para eles. Eu não vou deixar meu filho machucado e sozinho naquele inferno! Se o Popoye quiser resolver na conversa, melhor ainda. Mas, se pensar em fechar as portas da Rocinha na minha cara, vai ter problema.
— Mas a menina acabou de fazer dezoito anos. Tu acha mesmo que ela vai aceitar visitar um cara que nunca viu na vida?
— Isso é problema do pai dela! Ele fez um acordo comigo e agora vai ter que cumprir. Meu filho respeitou essa p.o.r.r.a durante anos. Ficou esperando a menina crescer, não foi atrás dela e não criou problema com ninguém. Agora que precisa de alguma coisa, eu quero ver se aquela família vai cumprir a palavra!
Jacaré respirou fundo e saiu para reunir os homens. Voltei minha atenção para o advogado, que continuava parado perto da mesa.
— E você já vai dar um jeito de tirar ele daquela prisão.
O homem me olhou como se eu tivesse perdido completamente o juízo.
— Aranha, Gabriel estava foragido, tem vários crimes nas costas e mandados de prisão em aberto. Você acha que eu vou conseguir tirar ele de lá assim? Claro que não! A situação dele é muito complicada.
— Então dá um jeito da pena dele ser curta. Se vira!
— Eu vou trabalhar na defesa, analisar os processos e verificar o que pode ser feito. Mas não posso prometer uma pena curta, principalmente sem saber todas as acusações.
— Eu não quero saber de desculpa. Quero resultado!
O advogado recolheu os documentos e saiu do escritório. Fiquei olhando para a porta durante alguns segundos, tentando entender como minha vida tinha virado de cabeça para baixo em poucas horas.
Meu filho tinha saído de casa para entregar um presente de aniversário e acabou preso. E eu sabia que, quando Popoye descobrisse que eu estava indo à Rocinha exigir que a filha dele visitasse Gabriel, aquela paz que construímos durante dezoito anos seria colocada à prova.
Jacaré voltou pouco depois.
— Os homens tão esperando, chefe. Mas vou te dar uma ideia. A gente podia ligar primeiro para o Popoye.
Peguei minha arma, coloquei na cintura e caminhei até a porta.
— Não. Eu quero olhar na cara dele quando fizer esse pedido.
— E se ele disser não?
Parei por um instante antes de responder.
— Então ele vai ter que me explicar por que a palavra dele não vale mais nada, e eu vou matar ele.
Saí do escritório acompanhado de Jacaré. Os carros já estavam esperando, e alguns homens conversavam perto dos veículos. Eu tinha passado dezoito anos evitando uma guerra com aquela família, mas agora a situação era diferente.
Dessa vez, quem estava precisando de ajuda era meu filho.