Magno concordou com a cabeça e saiu às pressas, enquanto Ruan subiu para tomar banho e se arrumar. Após estar pronto, Ruan foi encontrar Magno no carro. Antes de entrar, o mesmo pergunta:
- Sabe onde está Túlio e Marcos?
- Estão no açude, com mais alguns Palazzi.
- Sei... Então vamos.
Após Magno dar partida, fez uma leve expressão de surpresa e diz:
- Ah! Carmen está lá... Ela disse que é uma Palazzi.
- Disse? É... Ela realmente é. Comanda os Palazzi de João Pessoa e Recife. Disse mais alguma coisa?
- Disse que queria falar com você.
- Nada de importante. Vamos!
Magno então dirigia até o açude e conversava com Ruan sobre o que aconteceu ao sair de Campina, disse sobre alguns conflitos e triunfos que obtivera atrelados ao poder:
- Quando você viajou à Brasília, coisas extraordinárias aconteceram. Foi simples manter o controle, mesmo com o jeito de Fredo.
Ruan estava vislumbrando a paisagem pela janela e pensando. Então ele apenas dizia “uhum”, como se não tivesse a fim de conversar, mas Magno prosseguia:
- Hoje há mais instituições dos Palazzi do que sei lá o quê... O prefeito não interfere mais em nossas obras. Nada de alvará ou permissões do gênero. Só podemos dizer “ordem dos Palazzi”. Outros grupos de fora entraram em contato conosco, inclusive os americanos, os russos e a própria yakuza. A yakuza é misteriosa, não falou muito, mas foram solícitos. Aparentemente, estão passando por sérios problemas por causa de outra máfia. Enfim, sabemos mais dos americanos e os russos.
Ruan ainda permanecia em seu estado contemplativo, pensando no porquê da yakuza não revelar tantas informações, e pior, envolver estrangeiros em um problema desses:
- Querem nossa ajuda?
- Sim... Algum problema?
- Não parece ser do feitio deles, esses caras tem um forte código de honra, achei só inesperado. Esperava isso dos ianques, talvez dos russos, mas não da yakuza. Talvez a situação pode estar pior do que imaginamos. Certeza que não disseram mais nada?
- Não, li três vezes o e-mail, e era um email com mais nenhum nome a não ser “gaijin”.
- Depois iremos ver isso, tentarei entrar em contato com eles e saber o que está acontecendo. Provavelmente só fornecerão número se eu entregar um bom retorno.
- Isso não soa meio... Paranóico? É normal algumas alianças pedirem ajuda.
Ruan fita-o com os olhos e bem sério e diz:
- Não somos chamados de Corvos por acaso: ou é pela roupa, ou pela ampla distribuição geográfica desses animais, pela morte ou mau presságio, sabedoria, fertilidade e afins. Talvez... Muito pela perspicácia, ou um pouco de tudo.
- Tá... Então, diga o que acha... – disse Magno sarcasticamente.
- Não é de fato uma aliança, apenas conversamos poucas vezes, nada demais. Acredito que o que houve é algum estado crítico de fato, que fez com que... Como chamam? Oyabun! Isso... Enfim, tomasse uma decisão mais drástica possível.
- Ainda soa um pouco paranóico, mas pode fazer sentido.
- Anos de experiência, já falei com muitos homens de negócios de lá... Mas pode ser nada mesmo – disse Ruan com um leve riso. Falaram quando nos encontrariam?
- Não... Disseram que é uma honra estabelecer essa aliança e querem propor alguns termos sobre contrabandos: seja de armas, pessoas, drogas e... Algumas áreas que podem dominar, acho que querem dar carta branca para ficarmos lá. Eles são requisitados para transportar mercadorias de empresas famosas, acredite. Pesquisei sobre eles.
- Isso só fica mais estranho. Gente como nós dividindo área com eles? Os outros oyabun não ficarão satisfeitos.
- Relaxa Don Ruan. Isso pode ficar pra depois, chegar lá na cena e pensar mais nessas coisas pode afetar seu raciocínio.
- Sim. Acho que não tem nada a ver com o assunto, mas notei que está mais magro. Não tá com aquele rosto sofrido... Cabelo agora está ajeitado, só toma cuidado com esse bigode pra não pegar a espuma da cerveja. Mas quis dizer que ficou f**a, gostei do novo visual.
Magno ficou estupefato, disse sarcasticamente e com um leve sorriso:
- Os Palazzi visam entrar para o mercado da moda agora, é?
- Só quis dizer que mudou.
- Obrigado, me sinto muito importante.
- Não se sinta. Agora dirija.
Ambos silenciaram-se e seguiram até o açude que estava próximo. Ao chegar, Ruan acende um cigarro e diz “estacione o carro próximo do bar das Anucles”. Magno então conduz o carro até o bar enquanto Ruan partia para o local do crime que estava localizado no monumento “Os Pioneiros da Borborema”. Ruan fica estupefato ao enxergar como o cadáver encontrava-se. O homem estava desprovido de qualquer vestimenta, erguido através de alguns suportes de aço, com os braços e pernas amputados cirurgicamente e com os olhos vendados, a venda tinha a silhueta dos olhos marcados com sangue e vestígios de sangue caindo dos olhos, como se fossem lágrimas. A frente do corpo estava a “balança da justiça”. Em seguida, dois policiais se aproximavam; eram Jean Felipe e Amanda Barbosa. Ao avistar Ruan, ambos o cumprimentam.
Jean era n***o, tinha o cabelo crespo e estatura média. Tinha uma aparência juvenil e um senso de justiça incrível, brincalhão e atraia facilmente amizades, tento por sua pompa quanto pelo carisma. Ele e Amanda eram os únicos policiais que discordavam dos Palazzi e tentavam colocar Ruan sob julgamento. Amanda era baixa, n***a com olhos escuros, cabelo curto e escuro e tinha um corpo médio. Uma aparência cativante e que às vezes, lembrava uma jovem de 17 anos, embora ela tivesse 29, mesma idade de Jean. Tinha uma personalidade forte e ideia certa para lidar com justiça e injustiça sobre todas as ocasiões. Era fechada, focada e tinha espírito de independência exacerbado. Procurava sempre apreciar sua própria companhia.
Jean olha para o corpo como Ruan, e diz:
- É... No inicio achávamos que fosse coisa dos Palazzi, mas pelo seu rosto, está tão surpreso quanto nós. Como foi às coisas em Brasília? Soube que quem deixou na administração lá, Anthony, está causando um alvoroço.
- Acho que o foco não é nada fora da cena do crime, Sr. Felipe. Os crimes anteriores tinham a mesma característica? Tem a lista de suspeito?
Jean cruza os braços, encara Ruan bem sério e diz:
- É confidencial, Ruan. Falar nisso! Sabe de alguma coisa sobre o pastor Péricles e Roberto Anucle?
Ruan olha para Jean como se quisesse dar um tiro nele naquele momento, mas apenas respira fundo e diz:
- Não sei por que pergunta. Sabe a resposta... De qualquer forma, preciso saber o que tem nesse crime que não nos anteriores. Pode falar essa p***a logo?
- Cuidado, Ruan... Ainda sou policial e estou fazendo meu trabalho. Posso prender você... Sabia disso?
Ruan joga o cigarro próximo do Jean, aproxima do seu ouvido e diz:
- Pode tentar meu querido! Agora diga o que quero saber.
Jean solta um leve sorriso e diz:
- Que seja então... Enfim. Todos do mesmo jeito. São arrancados os membros e jogados no açude, os olhos também são removidos. Aparentemente por último. Todos os procedimentos são feitos cirurgicamente, segundo legistas. A balança, a venda... Tudo do mesmo jeito.
- Hmmm... Tem algum detalhe que não revelaram pra p***a da imprensa?
- Sim. – Jean anda um pouco mais a frente e aponta para boca do corpo erguido – Percebeu que a boca está colada? – Jean faz um leve sinal com o dedo indicador solicitando que Ruan se aproxima. Ao aproximar-se, Jean discretamente diz – Legista encontraram o dedo indicador dentro – em seguida, retomam suas posturas – você tem alguma ideia de quem seja? Imagino que sua lista seja imensa!
- Tenho uma leve ideia... Querem passar uma mensagem: a justiça está impelida de exercer seu poder. A balança está vazia, ela não pode trilhar e aplicar seu poder judiciário, pois está sem pernas e braços. Sua imparcialidade está ferida, não pode enxergar, logo: o que seria imparcial é tomado por cegueira. E o dedo indicador está apontando quem seria o culpado.
Jean coloca a mão no rosto demonstrando o quão estupefato ficou e disse:
- Noooossa, você poderia sair dessa vida de gangster e trabalhar na polícia. Tem mais perfil.
- Não entenderia, Jean...
- Sei...
De repente, Jean perde seu olhar de Ruan, como se tivesse avistado algo mais interessante. Jean espremeu seu olhar, demonstrou uma leve alegria e disse “não acredito! Ruan conversa com Amanda, vou ver um negócio ali” e partiu, deixando Ruan e Amanda a sós. Ruan tossiu para descontrair e disse:
- E aí... Vida difícil, não é?