- Nada a ver! Martin expressou também através de “The Temptation of St Anthony” o Santo Antônio sendo tentado por diversos demônios também. Sua dedução é uma linha tênue ao conectar-se com a obra.
- Sim, verdade! Porém, o santo está resistindo calmamente. Você não o vê em desespero. Não vê o que esta obra retrata. A transmutação dos mundos. Aqui, ele demonstra o arrebatamento e o inferno. Algo que Martin colocou bem, porém não dá para entender assim “existe inferno, senhores”. É mais como “o m*l não me atinge”.
- Hmmmm, boa colocação. Porém, descartou as obras como: The Temptation of Saint Anthony, de Matthias Grünewald, Melancolia I, de Albrecht Dürer retratando a agonia de ser tentado pelo pecado... Ou arrastado por demônios.
- Realmente, Emil, - disse enquanto largava o celular e iniciava suas gesticulações – porém, a interpretação tende mais para a parte renascentista alemã – tratando-se de Dürer. A obra Melancolia I baseia-se mais no autorretrato dele do que algo propriamente religioso. O movimento renascentista trouxe a tona o antropocentrismo! Nem preciso dizer mais nada. Quanto a obra de Grünewald; você trouxe-me esta dúvida. Maaaas! O toque é ainda mais macabro. A forma que usa a complexidade simbólica e a caricatura é seu principal marco. Acredito veementemente que a forma de demonstrar A morte, Juízo Final, Paraíso e Inferno é só dele. Nem falarei dos sete pecados que estão expostos. Dá pra notar que a obra se assemelha a um olho. Qual olho está em todos os lugares e vê tudo e enxerga Cristo emergindo da tumba – como marco da ressureição, talvez. Olha as letras em latim, bem abaixo: Cave cave dominus videt, alertando que Deus vê. Esse macabro é próprio do Jeroen van Aken.
Emil então se calou, desconfiada e disse:
- Tem alguma coisa errada aí... Você já sabia, não é seu nojento?
Dorian então gargalhou sem parar e deitou-se na cama. Então, após retomar seu fôlego, disse:
- Claro que eu sabia quem era.
- Você não presta!
- Hahaha! Nunca prestei.
Emil olhou para Dorian, pensativa, então perguntou:
- Quem vê seus pecados, Dorian... Hein?
- Além de mim? Mais ninguém. Assim basta. – Retrucou Dorian ríspido e fechado, sem dar margem para debates.
- Sabe... Não preciso ser Sherlock. Conheço você e mesmo sendo chato, amo demais você. Não trocaria você por ninguém! Conheço quase tudo de você e você sabe. Sei que n**a alguma coisa de você... Deixa-me ser o seu olho de Deus e enxergar seus pecados. Você já é o meu e enxerga os meus pecados.
Dorian calou-se, não buscou nem meias-palavras para expressar-se. Após alguns minutos, disse:
- Não quero olhar os sete pecados, não quero olhar minhas 4 últimas etapas do meu eu. É o suficiente conviver com minha ideia de paraíso. Por mais que exija isso, você também n**a ou prefere não aceitar certas coisas.
Emil então desviou seu olhar e mudou de assunto. Em seguida, deferiu o golpe:
- Não irei mais cursar jornalismo. Pretendo cursar medicina e fora do estado. Talvez lá em São Paulo.
- Sei... Espero que dê certo. – Retrucou com uma tonalidade sem sabor e sem sequer olhar em seus olhos.
- É... Vai dar. Agora sei por que nenhum relacionamento, tanto meus quantos seus não deram certos. Somos só mais uma pintura sem graça. – disse Emil enquanto sorria de canto, afastando-se um pouco de Dorian.
Dorian então se levantou, aproximou-se de Emil e sentou-se ao seu lado, dando o abraço mais apertado em Emil, como se soubesse que sua viagem era algo mais profundo. Como se fosse seu olho de Deus e disse “você pode tudo, suas turbulências transformaram-te em uma mulher espetacular. Não irei te segurar! Quero que vá e não olhe para trás. Não arrependas-te! Um dia iremos nos reencontrar”. Emil desmanchou-se em lágrimas e devolveu o abraço. Aceitou como sua moradia, como seu mundo verdadeiro. Algo recíproco. Soltou-se e disse “amar-te-ei, mas não sabia se ficaria bem sem que eu ficasse por aqui,.. E eu sem você. Mas não é o fim, né? Manteremos contato! Custe o que custar! E irei perturbar sua mãe – disse enquanto sorria e olhava para seus olhos” Ambos levantaram-se da cama e dirigiram-se pela cozinha. Emil pegou seu celular e disse:
- Vamos fazer o melhor bolo de chocolate da... Tudo Gostoso. Se for r**m, a gente diz a eles.
- É... eles dão a receita, não as mãos!
Ambos sorriram! Fizeram a maior bagunça na cozinha. Brincaram como duas crianças e tropeçaram algumas vezes, mas sempre um segurava o outro. Quando o bolo foi colocado no forno, Emil simplesmente despiu-se e disse “você me sujou demais, bagunceiro, me dê uma toalha para banhar-me” Dorian ficou constrangido; logo retruco:
- Emil, vá ao banheiro primeiramente! Assim não.
- Que foi? Você sempre viu minhas fotos particulares – retrucou enquanto sorria e o fitava com seus lindos olhos –. Fala como se fôssemos t*****r! Isso seria estranho. Somos melhores amigos, não é?
- Sim... Vou pegar a toalha. Vá ao banheiro, por gentileza, sua maluca – disse Dorian enquanto caminhava até o quarto.
- Tá, seu chato.
Então Emil foi ao banheiro e Dorian deu a rolha à ela. Sentou no sofá e pensou quão aquele dia faria falta. Não só aquele dia, mas o fato de alguém muito importante partir e saber que não fará contato. Dois mundos ausentes de Deus, dos olhos de Deus, exigindo o mínimo de sentimento para um possível adeus.
Assim que Emil saiu do banheiro e trocou de roupa, tirou o bolo do forno e colocou a cobertura de chocolate. Após concluir, chamou Dorian. Separou o prato de ambos e experimentaram. Dorian ficou sério e disse:
- Interessante... Realmente é o melhor bolo!!
- Claro, né? Somos imbatíveis!
Emil deleitou-se do bolo e disse:
- Hmmmmm, que delícia! Não esperava que fosse ficar tão bom.
- Esperava um desastre, haha, mas foi: só na organização. Está impecável.
- Sai, Chef, hahahaha!
- Haha, sim... Lavei suas roupas e coloquei para secar. Logo irá largar minhas roupas, não é? Aí poderá ir.
- Ui, que hominho! Hehe... Obrigado, você é um amor. Na sexta estarei partindo. Resolvi tudo já. Creio que você era o único digno de saber da minha partida. Nem Ângela sabe disso.
Dorian então fez uma expressão triste e perguntou:
- Sexta? Achei que fosse bem depois.
- É...
- Bom, então, verei suas roupas. A secadora deve ter feito um bom trabalho...
- Sim...
Dorian retirou-se da mesa e tirou as roupas da secadora e avisou a Emil que estariam no quarto de hóspedes. Dorian não voltou para cozinha, foi terminar alguns trabalhos da faculdade. Emil arrumou-se, chamou Dorian e disse “se cuida, meu repórter”. Dorian retrucou “Se cuida, minha médica. Quando sair, não bate a porta”. Por birra, Emil bateu a porta para enfurecê-lo.
A amizade desses dois estava além de todas as interpretações artísticas, além do que podemos definir de amor, amizade e sinceridade. Algo que eles prezam. A ideia que tinham estava além de “isso que é verdadeira amizade ou amor”, era eles mesmos, sem máscaras. Despidos e conhecedores dos próprios pecados. Dorian escolheu isolar-se, como de costume. Nos primeiros meses, Emil ficaria revoltada, mas depois lidaria bem com isso. Era Dorian. Perderiam contato e não teriam notícias mais do que fizeram! Tudo acabaria e morreria em uma tarde sobre obras e culinária? Ou enrolados em uma cama após uma aventura de carícias que transbordou de amor e pura libido. Pensar que sentiria aquele gosto pela última vez é mais reconfortante do que pensar quando será a próxima ou se estaria tudo bem. Fato é que Dorian estava muito mais pronto em dizer adeus do que expressar o que realmente sente, que seria “fica” ou “ vou com você”. Dorian saiu com cuidado, preparou o seu café e preparou-se para partir. Andou lentamente ao banheiro para não acordá-la e tomou banho. Após o banho, se arrumou, apreciou Emil dormindo como um anjo, sem pudor e tranquila e deu um beijo em sua testa a fim de se despedir, mas Emil acabou acordando e até puxou ele para cama com um lindo sorriso e disse “fica”.