Dorian, um pouco melancólico, retruca:
- Tenho que ir, preciso resolver coisas da faculdade – disse enquanto mantinha seu semblante preocupado.
- Agora? Ainda é cedo, você pode ficar comigo mais um pouco, né? Ficar assim com você é tão gostoso... – disse enquanto o abraçava apaixonadamente.
Dorian tirou os braços de Emil em sua volta e se manteve sério. Depois suspirou e disse:
- Sabe... Você partirá em breve, não é justo falar isso. Não é justo sentir isso agora.
Emil senta-se olhando fixamente em seus olhos e furiosa, dizendo:
- Você acha que tô brincando com você?
- Acho que está sentindo muitas coisas agora.
Emil virou seu rosto e emitiu um som de desaprovação, depois respirou fundo e o encarou novamente:
- Sabe... O único momento que senti algo bom e real sempre foi com você. Até achei que fosse seu jogo, mas você só estava sendo você. Você nunca percebeu como nos sentimos? Então tenha respeito pelo que sentimos – disse enquanto lacrimejava, com voz trêmula – eu te amo e cansei de jogar meu amor fora em busca de conforto em migalhas.
- De qualquer forma, não quero relacionamento a distância. Talvez... – disse Dorian enquanto respirava fundo, tomando coragem para falar – você só esteja abatida ainda.
Emil sorriu sarcasticamente com seus olhos cheio de lágrimas e disse decepcionada:
- Você só não sente o mesmo por mim ou tem medo de mim?
- Só não quero ser uma confusão!
- E eu só cansei de esconder que você é o amor que esperei e esperaria por uma vida inteira! – retrucou aos prantos.
- Emil... Estávamos bêbados, talvez isso tenha sido um erro. Foi divertido, mas há prioridades, e com certeza não sou uma delas.
Emil abaixou sua cabeça e enxugou seu rosto que encontrava inchado por causa do choro. Em seguida, olhou para Dorian e retrucou enfurecida:
- Talvez conhecer você tenha sido um erro. Quero que saia daqui e nunca mais volte. Suma daqui com seu orgulho e suas desculpas para não se permitir ser feliz. Não sou sua pelúcia que ficará sempre lá esperando você se lembrar. O mais triste é que você nem falou o que sentiu, você nem liga! Eu estava totalmente enganada e fui burra em achar que você se importa. Não quero ver você nunca mais, não quero lembrar do seu cheiro e nem seu nome!
Dorian apenas concordou com a cabeça e não falou mais nada. Deu meia volta e apenas disse “tranque a porta, quando puder”.
Dorian nem chegou a se mudar pra lá, infelizmente, mas o lado bom é não se preocupar com a mudança novamente.
O motivo de sentir raiva intensa e levantar essas indagações seria por ainda guardar todo aquele amor, mesmo diante de tais palavras frias e não repensadas ou pensar que seu tempo se perdeu nos emaranhados de um amor não correspondido? A dúvida ainda assolava, mas preferiu se punir com a mesma e apenas seguiu em frente acreditando que tudo não se passava de um amor unilateral.
Naquela quarta, até o céu chorou e as nuvens esconderam as lágrimas do sol, tudo estava tão melancólico. As sensações estavam cinza e o dia estava como um quadro em branco. Dorian desistiu de sua faculdade para estudar investigação forense e perícia criminal em outra, como disse na cartinha, e depois foi até a sua casa e refletiu sobre a sublime noite que tivera com sua melhor amiga detalhando o acontecimento da sua memória, como detalharia um artista ou um cozinheiro com seu amor ao trabalho, sorriu e até disse “espero que tenha uma boa viagem, Emil” e tentou deter seus pensamentos sobre Emil com onde faria sua faculdade e pesquisou os locais que tinha o curso desejado. Após alguns minutos, alguém liga para Dorian, que quase desliga instantaneamente, mas cogitou em atender e assim o fez:
- Quem é?
Em resposta, houve sons de alguns sorrisos que aos poucos cessaram:
- Sou a Ângela da facul, não lembra mais? – disse enquanto sorria.
Dorian suspirou e respondeu frustrado:
- Olha, não precisa me consolar porque a Emil pediu. Sei que têm coisas melhores pra fazer porque é ocupada. A gente se resolve depois e agradeço a preocupação.
- Que? Esqueceu que temos trabalho? Ia pedir pra marcarmos algum lugar pra fazê-lo, tá doido?
- Ah... Trabalho – retrucou Dorian enquanto coçava a cabeça e sorria. Desculpa, minha cabeça não ajuda.
- Tendi... A gente..., Meio que..., Podemos falar sobre isso em algum lugar, o que acha? Na biblioteca da faculdade ou em uma livraria.
- De antemão, quero dizer que será nosso último trabalho juntos.
- Tá bom, tá bom, não precisa ser chato. Quando esse terminar, você faz tudo sozinho – retrucou Ângela completamente rude.
- Calma aí, nada a ver com você, é que saí daí. Farei outra faculdade.
- Ah, perdão... Então você tem ideia, uma sugestão sei lá...
- Quero que seja honesta, está a fim de sair do conforto de sua casa pra fazer um trabalho? Posso passar aí, é mais fácil.
- Ok, ok, um estranho na minha casa mentalmente instável, arrogante e pé no saco? Por que não? Moro aqui no centro em um apartamento.
Dorian riu e respondeu sarcasticamente:
- Riqueza em detalhes, não tenho dúvidas de onde é agora.
- Ah, perdão; fica próximo à praça da bandeira. Você vai pra calçada do shopping Diniz e segue diretão até chegar em um prédio que têm apartamentos. Apartamento 412 e eu desço quando chegar e não se acostume: é o máximo de gentileza que faço a você.
- Acho que posso lidar com isso, então vou aí agora e volto ao anoitecer, se não tiver problema.
- Só se não trouxer comida, aí tem problema.
Ambos ficaram calados por alguns segundos, até Ângela falar algo rindo:
- Brincadeira, pode vir com as mãos vazias, mas não cozinho pra você.
- Posso sobreviver. Trarei um lanche então. Tchau, tchau.
Dorian desligou e foi até o quarto preparar seu material para ir a casa de Ângela, pegou às chaves do carro e quando estava prestes a sair, a campainha tocou. Dorian foi atender e para sua surpresa, era Emil um pouco abatida e séria:
- Podemos conversar? – perguntou Emil cabisbaixa e titubeante.
- Ainda mais? Achei que tinha dito tudo. Não acho que queira conversar, até porque estou de saída. – retrucou Dorian o mais rude possível.
- Não quero partir arrependida por perder um grande amigo como você. Talvez meus sentimentos se sobrepôs a nós! Por isso quero entender-me com você.
Dorian respirou fundo e massageou sua testa, logo depois; olhou seu relógio e disse:
- Realmente tenho que ir porque vou comprar coisas ainda. Veio falar pra se sentir bem? Surpresa: não estou decepcionado nem nada, entendi perfeitamente. Somos amigos ainda e boa viagem. Toma isso aqui – Dorian puxou uma caixinha e entregou a Emil abruptamente e sem cerimônia – abra quanto estiver em casa. – em seguida, deu um rápido abraço e um beijo na testa.
Emil ficou imóvel e apenas o viu partir um pouco cabisbaixa. Por um lado, um pouco aliviada por vê-lo bem, mas em dúvida se ele realmente estava bem. Após refletir, Emil entrou no carro e vislumbrou sua caixinha; infelizmente, sua curiosidade foi maior e ela abriu e viu um colar lindo. Ele tinha formato de um coração banhado a ouro, dentro dele tinha uma foto deles em miniatura, ainda fora do colar, continha as iniciais de ambos. Muito clichê, mas uma grande e bela forma de demonstrar seu carinho. Na caixinha, tinha mais uma carta escrita: não é um adeus, mas sim um até logo. Boa viagem, dra. Rendall.