Visita ao Psicólogo #1

1865 Palavras
Eram exatamente 7:40 da manhã numa sexta, dia 5 de março. Dorian levanta-se da sua cama e realizava coisas corriqueiras da vida. Ao escovar os dentes, sempre teve a mania de olhar o espelho e distorcer a realidade a sua volta, enxergando tudo como puro caos onde todos buscam ar de esperança para seguir. A distorção baseava-se em pôr uma “máscara” de uma suposta alegria para ignorar demônios murmurantes em si, aqueles que diziam que a dor é um fenômeno aceitável; seja de si ou das pessoas em volta. Aqueles que diziam que a vida é o maior teatro de todos: cada um com o seu personagem para agraciar ou dar vida para alguma peça. A sua forte crença em que a dor, a morte era, na verdade, uma bela comédia e verdadeiro prazer para atingir a verdadeira realidade vieram desde a infância. Sempre dizia “a verdadeira arte surge enquanto morre ou quando está morto”. Algo que resultou em muitas visitas para clínicas de psicologia. Distorcer a realidade, aceitar a realidade, aceitar a si e equilibrar tudo isso fazia-o entrar sempre em guerra consigo. Algo que passageiro, mas preocupante. Os seus problemas aumentaram após lidar com problemas da faculdade e demais, como: trabalhos da faculdade, cobrança das pessoas e de si, emprego e pessoas denominadas “vampiras”, contas, bullying. Sua recaída o trouxe então novamente para o psicólogo. Ao sair do banheiro, dirigiu-se a cozinha e pôs a fazer café. Então, de relance, surge um telefone que em seguida cai para secretária eletrônica: - Dorian? Aqui é Túlio, seu psicólogo. Vi a sua mensagem e respondi imediatamente, mas não tive retorno. Tentei falar com a sua mãe, mas ela disse que você é difícil de contatar! Rapaz... Não tenho dúvidas, haha... Não imagina como tentei falar com você, mas tudo bem. Então você está tendo aquilo novamente? Pode passar aqui às 9h da manhã? Pode ficar aqui até 11h, no máximo. Posso ajudar você... Pare de tentar isolar-se de tudo, rapá. Você não imagina quão enorme é seu potencial, só precisa querer ser ajudado, né? Hehe, venha aqui, por favor. Até logo. Mande mensagem pelo menos, por favor!! Dorian apenas parou, mas parece não ter importado-se suficientemente. Apenas deleitou-se do seu café. Logo em seguida, sua mãe também liga: - Oi filho, tudo bom? Como vão às coisas? Sei que não gosta de ligação e tudo mais... Falei com a sua melhor amiga, né? Sabe aquela moça linda, ruiva? Tu lembra, né? Emil! Falei com ela... Ela sente sua falta. Tentou falar com você tantas vezes. Ela disse que isso irrita. IRRITA SABER QUE VOCÊ DEVE ESTAR OUVINDO E NEM PEGAR O TELEFONE PEGA... Mas não sei, haha... Por que não disse o que estava acontecendo, filho? Tente nos visitar, poxa. Sentimos sua falta, eu, seus irmãos, Emil. Se cuida, viu? Beijos, amo você. Dorian sempre teve dificuldade para lidar com pessoas ou conviver com o mundo afora. Era difícil falar com ele ou até encontrar, pois a comunicação era prática e totalmente evitada. Após terminar o seu café, pois-se a pensar, olhou para o telefone e pensou “talvez devesse ligar... É o que preciso. É o que preciso. Droga sou cuzão demais. Vou ligar”, mas ainda hesitava. Foi então que tomou atitude e ligou para a mãe: - Mamãe? Sou eu... Você sabe. Estou indo ao psicólogo. Farei uma visita sim, mas não a convide. A faculdade de medicina é puxada! Não precisa colocar-me com o destaque. - Ai calma, menino, bom dia para você também. Por quê? Brigaram? Deixa de ser b***a! - Não, só não quero que ela vá. Deixa-a focar nos estudos. Se você chamar, saiba que ficarei descontente. Enfim, final do ano... Pode ser? - Sim, filho... Claro! Mas... Emil queria tanto te ver! Disse que ela seria a primeira saber disso, sabe? - Agora é problema dela, não devia ter dito algo sem saber, mas tudo bem. Diga que eu não quero. - Vish, credo! Tu tá horrível de conversar, viu? Vou falar para ela sim... Se trata a mãe assim, imagina os outros, seu grosso. - Tá... Vou desligar. Se cuida. Assim que eu chegar, mandarei mensagem. Te amo. - Tá, meu anjo. Se cuida. Mamãe te ama! Assim que deu 8:40 da manhã, Siglieri dirigiu-se até a clínica. Túlio estava surpreso em revê-lo. Não esperava que realmente viria. Assim que o avistou, disse a secretária “diga aos demais que houve um imprevisto e não poderei atender mais”, então a secretária retrucou “sim, sr. Madrazzi”. Logo, deu o abraço mais apertado em Siglieri, embora o mesmo nem importou-se em devolver o abraço. Dirigiram-se à clínica e prosearam: - Dorian Smith Siglieri. O impossível aconteceu hoje! Faz bem sair às vezes... Caminhar, sabe? Tudo para o bem-estar. Dorian sem expressão, fita-o com os olhos e diz: - Observe seu porte, Túlio, você falar de saúde - pelo menos física -, soa, no mínimo, contraditório. - Mai rapai, que é isso, hahaha! Seu humor é terrível. Enfim, mas quis dizer sobre sua mente. Você cuida do seu palácio, incluindo seu jardim? - Sei... E quanto ao palácio, sempre o visito. Cuido de tudo, creio que até demais. Porém, essas crises são previsíveis. - Teve relacionamentos ultimamente? No caso, íntimo - namorada ou namorado? - Sim. - E então? - Todos acabaram! Claro... E disseram que “estou sempre ocupado em mim”. - E o que dizia? O que acha? - Acho bom. Dizia que isso não era problema deles. Túlio então sorri e diz: - Meu Deus, Dorian, não é assim. - Que seja... Não é Deus, sou eu. Não vejo motivos para prezar esse sentimentalismo. Não fiz propaganda do meu eu ou juras de amor. Túlio ficou sério. Colocou uma expressão de desapontamento e disse: - Desde que chegou aqui, você só está me pisando. Está apenas olhando para você. Não vou cobrar essa consulta: considero-o como filho. Mesmo depois do que diagnosticaram, pus a provar que não é. Então está na hora de mudar... Senão, está perdendo tempo. Dorian pensou, ficou em silêncio, respirou fundo e perdeu-se com os olhos. Em seguida disse: - Conhece Jean Delville e sua obra “The Angel Splendors”? - Não... Mas prossiga. - Eu e Emil a amamos. Acredite: nossa ideia sobre a obra é no mínimo glamurosa, para não dizer extraordinária. Somos vaidosos ao criar uma ideia, tal como Deus. Conhecendo Jean, com certeza a obra traz a ideia do espiritualismo. Possível dualidade do anjo e o pecador que o acolhe: pode ser o anjo ou pecador que esteja escolhendo ser acolhido. No caso da obra, vejo o pecador mergulhado em desespero em ir para o inferno. O anjo olha graciosamente. De certa forma, parece envolvê-lo. A obra não destaca exatamente se ele salva ou não. A nossa mente, nosso palácio, têm anjos que o puxam alegoricamente para tal paraíso, pois sabem o que há na profundeza do mundo profano - inferno. Aversão ao belo, aversão a paz. O inferno representa as mais profanas atitudes do ser: seja consigo ou para os demais. O cortiço dos pecadores. Penso que a mente não é capaz de nos transformar em pecadores. Acredito veementemente que a alma - parte de Deus - é avareza da impuridade, inquietude humana e da aversão ao belo - o mundo profano. Deus conseguiu isolar uma parte de si criando determinado palácio para isso e um alter ego. Quem é culpado por suas más atitudes é tal de Satã. Deus libertou-se; agora é perfeito demais para lembrar do seu alter ego. Resumindo tudo: o anjo não faz nada, pois você é o anjo e o demônio. Você está apenas desfazendo-se de si. O homem sendo levado é você aceitando aonde ir ou entrando em conflito sobre qual parte mais se empenha: procure a obra e verá a cara de satisfação do anjo em ver o homem cobiçado de profanidade despencar. Ele está ciente do que houve. Túlio apenas o escutou atentamente. Completamente encantado e assustado com tal alusão. Então retruca: - Uau... Isso realmente é profundo. O que você quer dizer? Que parte alimenta? Quem você culpa por suas péssimas condutas? Dorian silenciou-se e novamente pôs a perder seus olhos. Olhou para Túlio e disse: - Não quero aceitar essa guerra. Não preciso criar meu próprio Satã e nem Deus em mim. Vivi melhor assim. Não quero ter problemas que tanto disseram antes. - Dorian, você tem que aceitar a sua mente como alicerce. Pontes têm alicerces! Deveriam lembrar primeiramente das colunas de sustentação, de cada alicerce; pois eles fazem a diferença. Mantém as coisas em pé. Você é maravilhoso, extraordinário: escutou o que disse? Sei dos problemas que tem. Tome providências. Você não é obrigado a isolar o que és, mas não deixe seu ego inflar. Assim como não é obrigado a tolerar certas coisas, assim também é com as pessoas, entende? Dorian então sorriu e disse: - Quero coragem... Forças. Aceitar a realidade como um alicerce é complicado. - Não... Sua mente. Ela é um alicerce. Não inverta. - Obrigado, Túlio... Não posso prometer, mas tentarei encontrar alguma ajuda além da nossa consulta. - A disposição, filho. Outra coisa: sabemos quem é você, Siglieri... Tira o que impuseram de você. Dorian calou-se... Então levantou-se e saiu. A consulta durou cerca de 1h e 37 minutos. Às 10:37 da manhã, estava voltando para casa, pois às 13h teria aula. Ao chegar em casa: comeu algo, tomou banho, arrumou os materiais e entrou no carro novamente. Antes de dar partida, enviou um áudio para Karina “oi, querida, tudo bom? Quero conversar com você. Não é sobre meu ódio dos Palazzi, não se preocupe, hehe, é sobre aquele problema que estava tendo na UFPB. Ainda vem pra cá para discursar novamente sobre astronomia? Gostaria muito de prosear. Creio que serás uma excelente aluna no futuro. Vou passar pelo açude ainda, quero falar com seu pai sobre o que estávamos organizando” e depois partiu. Enquanto dirigia, exatamente às 12:37, próximo ao bar dos Anucles, antes de descer, escolheu em ficar parado ao ver alguém que não esperaria... Ruan. Ao ver Ruan ateando fogo e atirando em Roberto, de imediato Dorian tento tirar fotos, porém ele derruba seu celular em meio ao desespero. Desmontando-o e perdendo o momento de fotografar. Porém, sua maior surpresa que o deixou congelado, foi em ver que sua amiga Karina conhecia Os Palazzi, os malditos corvos de Campina. Dorian esperou até Ruan partir para dar partida no carro. Assim que possível, dirigiu-se rapidamente para faculdade e mandou a mensagem “ei, desculpa, não deu pra passar aí. Tive que correr, pois tive que rever algumas coisas do seminário. Porém, podemos nos encontrar... Não sei se continuará sua palestra. Beijos”. Dorian sabia de algo valioso e pensou em como colocar isso a seu favor para impulsionar sua futura carreira. Porém, qual? De ser um repórter ou de guerrear com um dos maiores mafiosos do Brasil, dominador de quase tudo? Cobiçado em trazer à justiça contra Os Corvos, talvez não traga pensamentos de fatores conseguintes.
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