Os amigos do pastor estavam em choque. Não conseguiam esboçar mais nada. Ruan então olhou para eles e disse:
- Sabe sobre águias? Sabia que elas voam beeeem alto! Os seus ninhos são feitos em montanhas ou árvores de grande porte. A sua velocidade aproximada é de 100Km/h. Isso não vai ajudar vocês... Não sei.
Ruan faz um leve sinal com as mãos e diz “tragam as facas que pedi e ajudem-me”, em seguida, exige que todos fiquem de joelhos e diz:
- Conhece a águia de sangue? Era como as tribos nórdicas executavam infratores que perturbavam a ordem dos deuses. Eles colocavam a vítima deitada com o peito para baixo – Ruan gesticulou para que fizesse exatamente o que pediu –, não façam agora... Mas... São feitas incisões na altura do tórax para ter acesso às costelas que serão separadas da coluna vertebral. Que será nada mais e nada menos que as asas, sabe? Então... – Ruan anda devagar até Marcos com a sua faca – Os pulmões são removidos da caixa torácica. Gostaria muito que ficassem acordados, pois dá um sutil toque de beleza. Irei polvilhar sal nas feridas e deixar vocês por aqui mesmo... Recado dos Palazzi.
Antes que Ruan realizasse a primeira incisão, diz “ah, antes que eu esqueça... Que desleixo! Não gritem, caso queiram passar pelos portões de Valhala” e fez primeira incisão com seus amigos. A igreja estava um lamaçal de sangue e a música Ma bouche rit repetia sem parar, dando um toque sombrio e mudando algumas vezes seu tom. A igreja parecia uma casa de horrores, os gritos das vítimas por todo canto como se não tivesse fim. Havia momentos que a faca prendia-se e Ruan a puxava de volta com toda força. Ora usava a marreta para facilitar seu trabalho com mãos, ora utilizava as próprias mãos para separar as costelas. Ruan trouxe o pedaço do inferno para o dito reino de Deus naquele dia... Sorria, deleitava-se do que fazia e dizia “será uma obra prima”.
Após terminar, Ruan lavou a mão as mãos nos fundos da igreja e citou a oração dos Palazzi em voz alta. Conforme avançava com oração, os Palazzi o acompanhavam:
Camminerò senza sosta
Nel sangue dei miei nemici.
Glorificherò i miei amici e
Onorerò il tuo sangue versato.
E ascolta il sussurro dei corvi!
La morte non arriva mai, perché è con me. La morte non arriva mai, perché ... è ... con me!
E vai caminhando até o seu palanque de terror. Magno olha para Ruan diz:
- Amarramos as mãos e os pés na cruz de Péricles, também colocamos gasolina. Mais alguma coisa?
- Somente isso... Ficarei aqui apreciando as chamas e voltarei para casa. Estou com fome e farei lasanha. Fredo dirá como foi, mas não vou até. Estou cansado! São 15:38 já... Tempo passa rápido. Quero que digam aos nossos policiais o que houve e deixe-os fazer o seu trabalho.
Magno tira o seu cigarro quase no fim e oferece a Ruan, que te bom grado aceitou. Ruan anda calmamente até o corpo de Péricles, dá uma última tragada e canta:
Holding hands
Skipping like a stone
On our way
To see what we have done
The first to speak
Is the first to lie
The children cross
Their hearts & hope to die
Bite your tongue
Swear to keep your mouth shut
Ask yourself
Will I burn in hell?
Canta suavemente, finalizando-o:
Burn the witch
Burn to ash & bone
E arremessa seu cigarro no crucifixo invertido que havia colocado Péricles. Os três corpos mutilados com Águia de Sangue e a brutalidade feita com o pastor... Trouxeram uma imagem tenebrosa para o altar. Todos os Palazzi que acompanharam Ruan olhavam para o altar como quem diria “Ruan enlouqueceu de vez”. Ruan escorou-se por um tempo no banco e deleitou-se da visão, como o apreciador da arte. Após alguns minutos, levantou-se, jogou o cabelo para trás com as mãos e retirou-se da igreja, entrando no carro sem dar uma sequer palavra.
Ao chegar em casa, tomou banho, ligou a televisão e iniciou os preparativos da sua lasanha. Assim que chegou o horário do jornal, a primeira notícia que se seguia era “Possível serial killer – pastor e os seus amigos são brutalmente assassinados”. Ruan não presta tanta atenção, mas quando ouve o repórter dizer “Dorian será nosso convidado e falará a respeito sobre o que houve. Dorian está na linha? Boa tarde” Ruan para e olha para televisão atentamente. Dorian então além dar informações sobre o ocorrido, discursa:
- Opa, boa tarde. O que estamos vendo é consequência de uma péssima escolha! Sabe a quem deram poder para representá-los. Ele agora está em casa, descansando... Está em paz! Enquanto várias famílias entram em desespero com as suas atrocidades. A primeira notícia que sai sobre os envolvidos e ainda dizem “suspeito”?, claro que foram os Palazzi. Ele não é diferente só porque nos ajuda... Ele deve estar na cadeia! Com aqueles que cometem crime contra o nosso Brasil... O Brasil que muitos lutamos para construir. Não tenho mais o que discursar... Só isso.
O repórter ficou mudou brevemente e disse “esse então é o desabafo do nosso querido aspirante à repórter, mais informações sobre o caso, atualizaremos você telespectador”. Ruan sorri e diz “a criança ganhou docinho” e continuou com a sua tarefa.
Durante as 2h da manhã, ouve-se um ruído da porta da sala, algo como se ninguém mais tivesse que escutar. Era Carlo e Alfredo entrando de fininho, pisando com cuidado para não alertar quem estivesse na mansão.
A mansão dos Palazzi era originalmente uma estação velha que foi derrubada e transformada em mansão. A casa mais glamorosa de todo o Quarenta. Não tinha muros, seria uma mensagem do tipo “quem vai nos atacar?”.
Ao dar mais um passo, assustam-se com a luz acesa repentinamente amena do abajur que tocava levemente o rosto do Ruan, seu ombro e sua poltrona. Ele estava com o seu pijama – que era engraçado, por sinal, pois era calças branca cheia de ararás e uma camisa de gatinho – bem sério e fantasmagórico. Alfredo e Carlo param de imediato e permanecem mudos. Então Ruan diz:
- E aí... Deve ter sido trabalhoso, não é? Pra chegar uma hora dessas...
Ambos permanecem com a cabeça baixa e o rosto levemente virado para o lado oposto de Ruan, como se quisesse esconder algo. Após ambos permanecerem mais um pouco no silêncio, Alfredo diz:
- Estávamos resolvendo.
Carlo afirma com Alfredo, dizendo “é isso aí... Estávamos resolvendo”. Ruan deslumbra-os e diz sarcasticamente “é isso aí... Orgulho da família” se levanta e se dirige até o interruptor da sala. Ao acender a luz, enxerga ambos com o terno sujo de sangue, com o rosto surrado e completamente bagunçado! Como se ambos tivessem entrado na máquina de lavar – ou em uma garrafa.
Ruan respira fundo, olha ao redor e fita-os com os olhos, como se soubesse de tudo o que houve... Mesmo sem trocar tantas palavras. Em seguida, Ruan diz:
- Cadê os carros, caminhões que foram com vocês? Cadê as mulheres e os homens que foram com vocês? Não é possível que agora, neste exato momento, exista milagre. Diga-me.
Ruan aproxima-se de Alfredo e segura seu rosto como se tivesse examinando-o. Em seguida, olha para o terno gasto do mesmo e diz:
- Olha isso! O que vocês resolveram lá, hein? Tenho a madrugada inteira. Digam o que houve sem evitar a verdade.
Alfredo olha para Carlo, respira fundo e diz:
- Dispensamos os Palazzi que enviou conosco, requisitamos só quatro deles e partimos.
Ruan pega a garrafa de gin e diz, “Carlo, vá pra casa! A sua mulher, ao chegar do trabalho, ligou para cá preocupadíssima. Fredo, para meu escritório. Não se esqueça de onde parou”, Carlo pensou um pouco, olhou para Alfredo e despediu-se de ambos. Ruan e Alfredo foram até o escritório. Ao sentar na poltrona da mesa de escritório e encher o seu copo com gin, realizou um leve sinal com mão para que Alfredo continuasse falando, prosseguindo com o relatório:
- Então... Com estava dizendo; quatro uniu-se a nós e partimos. Não queríamos passar imagem de hostilidade para eles...
Ruan soltou um leve sorriso de prepotência, encheu novamente o seu copo e disse:
- Queria passar que impressão para nosso inimigo? Que semeamos paz? Não fode comigo, Fredo! Acorda pra realidade!!
- Acontece é que estamos lidando com pessoas. Na favela, há pessoas lutando por uma vida digna e interromper isso por uma guerra de gangues não é justo.
- Sim, sim, Fredo! E os meus investimentos intensos em zonas periféricas é nada? Estou com a p***a de um projeto grande de restruturação. Favela é a marca da nossa luta, e os nossos planos é o marco de mais uma conquista nossa. Guerras de gangues são terríveis! Mas e policiais que mataram crianças durante este conflito, durante a p***a de uma operação? Eu aviso sobre as minhas visitas pra evitar isso... Mas continue.