Pré-visualização gratuita Capítulo 1
A iluminação fraca de tom alaranjado compunha o clima calmo e sensual do Grace, um bar nobre localizado no centro da cidade, mas não o centro popular, e sim aquele que a entrada era selecionada a partir do seu poder aquisitivo. Eu estava no topo da pirâmide assim como todos os outros rostos familiares que frequentavam o Grace, mas não poderia me sentir mais sem chão naquele momento, sozinha com um copo vazio de Whiskey a minha frente, meus dedos esguios contornando a borda em que há poucos minutos estava meus lábios.
Bati o vidro no balcão de madeira maciça envernizada para complementar perfeitamente a cor das lâmpadas sobre minha cabeça e atrás da parede de bebidas mais a frente onde os bartenders trabalhavam freneticamente em drinks luxuosos que eles nunca teriam a honra de provar. Sorri com a ideia. Pobres coitados.
Uma garota de longos cabelos castanhos presos em um r**o de cavalo já desajeitado pela agitação da noite veio me atender. Seu crachá dizia Nicole, o nome soava muito bem na minha mente, poderia continuar chamando-a a noite inteira só por isso, mas decidi que seria abusar da minha sorte, afinal estava segura dentro daquelas paredes, mas não fora delas. Principalmente quando meus pais não faziam a mínima ideia de que a filha do mais amado candidato à presidência estava enchendo a cara em um bar. Um arrepio que indicava o perigo que estava correndo ao estar ali percorreu minha espinha:
— Então, qual o pedido? — Nicole repetiu com um sorriso falso pendurado desajeitadamente em seu belo rosto, reconhecia a expressão que via tantas vezes no espelho antes de fazer uma obrigação pública.
— Esquece... acho que vou embora. — soltei uma risadinha bêbada — Já estou um pouco alta. — fiz uma pausa — Onde é o banheiro mesmo?
— É só entrar naquele corredor — ela apontou para a parede no fundo do recinto, onde uma a******a em estilo árabe dava acesso aos banheiros. — À direita estão os femininos.
— Obrigada. — Sorri para ela antes de me levantar, carregando comigo apenas minha bolsa de mão prateada que combinava perfeitamente com meu vestido curto de alças também prateado, mas com um fundo azulado. Ele brilhava assim como eu própria. Meu pai dizia que se eu fosse ao menos um pouco como ele, inclinada a política, ganharia a todos com apenas um sorriso. Ele não estava errado sobre isso.
Não pude evitar que um sorrisinho maroto se desenhasse em meus lábios com a ideia de manipular todo o país em torno dos meus desejos como uma rainha vitoriana. Entretanto, como se estivesse escrito nas estrelas, meu sorriso sumiu tão logo aqueles olhos azuis tão claros quanto as águas do mar de Ibiza cruzaram os meus e anunciaram a tragédia que se sucederia.