Capítulo 2

1971 Palavras
— Desculpa. — ele pediu com olhos suplicantes como se soubesse exatamente que sua carta de demissão estava em minhas mãos bem como uma taça de vinho tinta vazia cujo conteúdo estava espalhado por todo o meu vestido como uma pintura abstrata de muito m*l gosto. — Eu vou procurar alguma coisa pra te ajudar a limpar. — Você tem noção que sua falta de atenção acabou de destruir dez mil dólares? — sufoquei o grito em minha garganta para não chamar atenção para aquela cena patética. — Esse lugar já foi melhor em contratações. — rosnei com desprezo. — E vou deixar seu chefe saber disso... — Li o nome em seu crachá — Jonathan. Ele retirou a taça da minha mão com uma delicadeza inesperada para alguém que há poucos momentos quase quebrou-a em mim. Agora aquele pobre p****e começaria a me implorar por seu emprego e eu já o detestava por sequer cogitar que seu drama de vida iria me importar: — Nem perca seu tempo tentando me dizer que sua mãe está para morrer e seu cachorro tem sarna. Gaste suas energias com um currículo novo e agradeça por eu não te fazer pagar pelo meu vestido. — Dei-lhe as costas sem esperar por uma resposta e me dirigi ao banheiro a passos largos e pesados. O barulho do salto da minha bota contra o chão anunciava minha presença como os músicos reais, mas aquele desgraçado havia tirado todo o charme do meu visual e estragado minha noite de diversão que seguiria depois do bar. Iria ao outro lado da cidade, onde os paparazzis não se importavam de cobrir território. Dominada por gangues e povoada pela pobreza imunda de pessoas como Jonathan, o sul da cidade era um verdadeiro inferno do qual muito me interessava a parte do pecado. Encarei meu reflexo no espelho do banheiro. A ornamentação atrás de mim seguia a mesma linha do resto do restaurante: tudo tinha tons de marrom e preto, exceto pelas lâmpadas amareladas que destacavam a cor dos meus olhos castanho claro. Olhei para baixo, a mancha de vinho continuava a se espelhar pela minha roupa e eu só queria tirar a peça grudenta do meu corpo, mas teria que aguentar até chegar em casa. Peguei meu celular de dentro da bolsa com a intenção de chamar um táxi para me levar de volta para casa já que estava alta demais para me arriscar na direção, mas a bateria havia acabado e eu não tinha um carregador comigo. Soltei um gritinho de frustração. Teria que esperar do lado de fora no ponto de táxi às onze da noite. Todas as vozes na minha cabeça gritavam que aquilo era uma péssima ideia, mas que outra opção eu tinha? Voltei a área comum do bar e Jonas veio imediatamente em minha direção como se estivesse apenas esperando para que eu aparecesse. Revirei os olhos: — O que você quer? Derrubar queijo em mim e terminar de montar o prato? — cruzei os braços irritada. — Eu iria te oferecer um casaco. Está frio lá fora... — ele pausou como se buscasse as palavras que sua língua se recusava a dizer. — E te pedir para não falar com o meu chefe, por favor. — ele olhou no fundo dos meus olhos e senti um arrepio percorrer minha espinha. — Minha mãe realmente está doente e eu preciso desse emprego. Não aguentei e comecei a rir. — Eu preferiria sair daqui pelada a usar qualquer coisa que você tenha e apelide de casaco. — suas bochechas coraram de vergonha e seus olhos estavam gelados senão pela faísca de ódio. — E você poderia ter inventado uma desculpa melhor. — Não é uma desculpa. — ele segurava a bandeja com tanta força que as pontas de seus dedos estava esbranquiçada. — Bem, temo que não seja problema meu. — sorri e dei de ombros antes de me virar em direção a saída. Ao alcançar a porta, a nesca de ar frio envolveu meu corpo com tamanha intensidade que meus pelos se arrepiaram imediatamente. Realmente era uma noite gelada e eu quase me arrependi de não ter aceitado os trapos do João, Jonas? Quem se importa. Do Grace até o ponto de táxi mais próximo eram dois quarteirões completamente vazios, afinal era segunda-feira e poucas pessoas escolhiam o primeiro dia da semana para caminhar em uma noite fria como aquela. Me abracei para me proteger do frio e impedir que o vento atingisse a mancha molhada, tornando-a ainda mais fria. Estava tão distraída pensando em formas de não morrer de frio com aquele minivestido que não escutei os passos atrás de mim aumentarem, passos pesados e muito bem calculados para serem de alguém simplesmente caminhando casualmente. Engoli a seco meu medo e abri o zíper da minha bolsa em busca da minha faca retrátil que sempre carregava para p******o. Conselho sábio do meu pai, eu o agradeceria mais tarde se conseguisse sair dessa. Olhei de soslaio a calçada atrás de mim. Meu perseguidor era um homem alto, todo vestido de preto e com o rosto parcialmente coberto por uma bandana, seu cabelo era preto como suas roupas, contrastando a pele branca. Aquilo com certeza não era um assalto e certamente também ele não estava sozinho. Apressei o passo na tentativa de chegar a algum lugar com pessoas, qualquer bar, um motel que fosse. Meu coração batia com força contra as minhas costelas me deixando ofegante. Ele alcançou minha cintura pouco antes que eu pudesse virar a esquina em direção ao ponto de táxi onde uma mulher estava sentada, os headphones sobre suas orelhas a impossibilitariam de escutar quaisquer gritos meus ou dele. Muito provavelmente meus. Ele me puxou para um beco sem qualquer delicadeza e me empurrou contra a parede sem pronunciar uma palavra sequer. Minhas costas latejavam, mas não iria ceder tão facilmente. Apertei meus dedos em volta do cabo da faca, mas ainda não era o momento, pois se ele a visse antes de que eu pudesse colocar minha não perto de seu pescoço, estaria perdida. — O que você quer de mim? Dinheiro, eu posso te dar o quanto quiser! — sabia que ele não estava atrás de dinheiro, mas precisava o distrair. — Me deixe ir e ninguém vai saber disso. Meu pai vai te recompensar por isso. — aquele homem poderia se considerar morto na realidade. Ele ignorou minhas súplicas e apertou ambas as mãos em volta de meu pescoço, tirando-me do chão como um saco de batatas: — Nós queremos você, querida. — sussurrou em meu ouvido e apertou com mais força e eu já lutava por ar, meus pés se debatiam no ar como uma reação automática. Fechei meus olhos e parei de me debater com alguns últimos espasmos falsos. Ele começou a libertar minha garganta quando liberei a lâmina da faca em minha mão e a enterrei em seu pescoço, pegando-o de surpresa. Usei toda a força que me restava para deslizar o metal por toda a extensão de seu pescoço de lado a lado. O sangue espirrou em meu rosto com uma violência chocante, chutei-o para longe de mim, ainda vivo e tentando estancar o sangue com as próprias mãos. O desespero em seus olhos enviava calafrios por todo meu corpo. Tentei me afastar o máximo possível dele, meu coração ainda batia aceleradamente em choque enquanto meus pulmões lutavam para recuperar o ar. Eu respirava ofegante e meus pés se moviam sem qualquer direção, apenas sabia que tinha que me colocar o mais longe possível daquele homem. Nós queremos você. Ele disse “nós”. Alguém mais poderia aparecer a qualquer momento e eu não estava em condições de lutar com um grupo inteiro sem minha faca que estava ainda junto do cadáver que eu havia feito. Engoli a seco a realidade das minhas palavras. Tinha que sair dali. Comecei a correr, mas uma parede de músculos se interpôs entre mim e a rua. Era tarde demais, pensei, mas quando levantei a cabeça para encarar meu algoz, lá estava Jonas, exibindo um sorriso medonho: — Você... você armou isso... — dei alguns passos em cego para trás e ele me seguiu. — Você jogou vinho em mim de propósito... claro. — Eu? Tem um homem morto logo atrás de vocês e a arma do crime pertence a você. — ele levantou uma sobrancelha em questionamento mesmo que sua sentença fosse uma afirmação, uma dura afirmação de que eu estava em maus lençóis. — ah, quase esqueci. O sangue dele está em você. Eu deveria chamar a polícia agora mesmo. — Ele tentou me atacar! Foi legítima defesa. — tentei me defender enquanto dava mais passos para trás, tentando colocar uma distância entre mim e aquele desgraçado e seja lá que ameaça ele tinha naquela mente ardilosa. — E você tem provas? — diante do meu silêncio ele continuou — Ah você poderia ter inventado uma desculpa melhor. — ele parafraseou o que eu havia dito a ele mais cedo, seu olhar gritava vingança e cada poro de sua pele parecia derramar seu ódio por mim. Tropecei na perna sem vida do meu algoz e cai de b***a no chão. Soltei um gemido de dor pela queda, pelas minhas costas, minha garganta dolorida e sobretudo minha cabeça que girava a milhões em busca de uma saída daquela situação: — Ah, quase ia me esquecendo. Eu gravei você matando aquele pobre coitado. — balançou o celular. — Então você deve ter gravado a parte em que ele estava me enforcando também. — revirei os olhos. — Você tem alguma ideia de com quem está falando, seu paspalho de m***a? — me levantei do chão usando o ódio como impulso. — Eu poderia te m***r em cima de um palco para toda a cidade ver e nada iria me acontecer. Meu pai tem poder pra te mandar pro inferno junto com toda a corja da sua família, seus amigos, sua namorada, até a p***a do seu cachorro. — Eu sei bem quem você é e de quem é filha, Isabella. — meu nome soava como veneno em seus lábios. — E é por isso mesmo que eu tenho certeza de que seu querido papai odiaria ter a campanha eleitoral estragada por uma filha homicida. — ameaçou. — Eu posso mandar esse vídeo agora mesmo para o gabinete da Ângela e nós assistimos ao que a maior concorrente do seu pai vai fazer com esse material que, não, não inclui a parte em que ele te enforca. Meu pai me mataria se algo do tipo acontecesse. Na verdade, ele iria fazer muito pior que me m***r, iria me deixar na rua da amargura para lidar com isso como qualquer pessoa normal faria, ou seja, na cadeia. Diria a população que não iria acobertar os erros de sua filha, ainda que a amasse, pois presava pela constituição acima de qualquer coisa. Acertei um t**a em seu rosto. A pele branca rapidamente começou a ficar vermelha onde minha mão o tocou e logo em seguida ele virou seu rosto de volta pra mim e disse: — Eu sugiro que você comece a me tratar como um rei, Isabella. Ou melhor, como se sua vida estivesse nas minhas mãos, porque ela realmente está. — o tom de sua voz era tão gelado que até o contentamento de me ver naquela situação parecia ter sumido. — O que você quer? Posso te dar a p***a do dinheiro que quiser pra você apagar esse vídeo e ficar de boca fechada. — cedi a sua chantagem. Não havia mais muitos caminhos além deste. — Não quero seu dinheiro sujo. — cuspiu as palavras — eu quero que, para começar, você me apresente ao seu pai como seu mais novo segurança particular. — É o que?
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