Acordei com cutucões de Jonathan no meu braço e sua voz me chamando como se estivesse deixando um pesadelo pra despertar em outro, só que desse não havia escapatória. Eu não iria acordar novamente em minha cama e descobrir que tudo não passou de um surto psicótico pós bebida.
Abri meus olhos cautelosamente, adaptando-me a luz do poste logo acima da minha cabeça. Saí do carro desgostosa ao olhar aquele lugar horroroso que não parecia em nada com qualquer canto que já havia estado, nem mesmo pior da alta cidade era tão f**o quanto aquilo. A arquitetura era inexistente assim como o senso de direção dos moradores que fizeram questão de construir imóveis tortos e sem nenhum acabamento externo.
Quanto mais eu olhava aquilo, mais meu rosto se contorcia em um nojo indisfarçável. A pobreza já era suficientemente f**a nos livros de geografia e no noticiário, mas pessoalmente é ainda pior.
Percebendo que eu estava há um passo de voltar para o carro e sair cantando pneus dali, Jonathan agarrou um braço e me puxou para dentro de sua toca que era, por dentro, até que jeitosinha. A decoração era um tanto quanto exótica, havia fotos dele e de família e uns quadros de pombas bíblicas para todo lado. Aquilo era definitivamente bizarro. Mas também havia um esquema de cores até que fofo. A parede na qual a TV estava presa em um painel de madeira tinha um tom de vermelho parecido com o sangue em mim enquanto o restante era branco.
No chão um tapete felpudo branco contrastava com o piso de madeira falsa – era claramente falsa porque o barulho dos meus sapatos não correspondia – claramente era alguma cerâmica v*******a. E todos os móveis da sala mantinham o padrão de cores, exceto pela mesa de centro com tampo de vidro e pernas de metal preto. Ela estava abarrotada de contas de diversos bancos diferentes:
— Admita logo que é para isso que você me quer aqui. — apontei para as contas espalhadas na mesa. — Essa falsa moralidade já está patética, Jonas.
— Jonathan. — corrigiu ele irritado. — E já disse que não quero seu dinheiro sujo como você. Deixa os sapatos na porta e vai tomar banho, vou procurar alguma coisa pra você.
— Claro que é por dinheiro! Que outra razão essa perseguição que você está fazendo comigo teria? — minha objeção parecia óbvia. — E eu nem sei onde é o banheiro aqui!
— Talvez eu só queira me vingar de você e de pessoas como você que nos tratam como inferiores por não possuirmos roupas de dez mil dólares, Isabela. E isso por si só já me faria muito feliz. — seu sorriso forçado não alcançou seus olhos que permaneciam frios ao me encarar. — vem comigo.
Ele se dirigiu a escada de degraus largos próxima a porta de entrada que levava ao andar superior onde provavelmente estavam os quartos. Deixei minhas botas da LV no hall de entrada, temendo voltar e encontrá-las sendo anunciadas em algum site de produtos usados por cem dólares. Nunca se sabe até onde vai a inteligência de pessoas em tais condições:
— Seu quarto? — questionei quando ele abriu a porta para um quarto que me dizia muito pouco sobre quem vivia nele. Não havia simplesmente nada pessoal pendurado nas paredes acinzentadas ou sobre o criado-mudo branco ao lado da cama além de um abajur genérico e alguns comprimidos que não era capaz de identificar a essa distância.
— Sim. O banheiro é alí. — ele apontou para a porta a minha direita.
— E o que eu vou vestir?
— Tem algumas coisas que minha namorada deixou aqui. Você pode usar. — abriu o guarda-roupa e tirou de lá algumas peças de roupa. Um shorts de dormir preto minúsculo, uma camisa social branca que ele muito provavelmente usava para trabalhar e uma calcinha da tal namorada. Que humilhação!
Me tranquei no banheiro e logo liguei o chuveiro na expectativa de encontrar uma água quente para tirar toda aquela sujeira e sangue de mim e pensar sobre os meus próximos passos naquela situação, mas em vez disso, um jato de água gelada atingiu meu corpo, fazendo-me soltar um gritinho.
— Jonathaaaaas! — gritei inutilmente, pois ele provavelmente já sabia que a água estava gelada e não pretendia fazer nada a respeito disso, o que incluía fingir não me escutar.
Terminei o banho o mais rápido que pude e saí debaixo do chuveiro me tremendo feito um pinscher que minha irmã tinha quando mais nova, mas que havia morrido ano passado pela idade. Me enrolei na toalha e me vesti o mais rápido possível, dando o toque final com o perfume que ele próprio usava, uma vez que aquele sabonete de supermercado iria ficar impregnado no meu corpo. Ao menos o perfume era bom.
Saí do banheiro com meu cabelo ainda úmido, mas pelo menos já não pingava. Jonathan não estava no quarto, então aproveitei para vasculhar cada canto daquele buraco branco e vazio de personalidade em busca de algo que eu pudesse usar a meu favor para sair daquela enrascada. A única coisa que descobri foi que Nicole era sua namorada, o que dizia muito pouco sobre ele e mais sobre o m*l gosto dela. Guardei de volta a foto dos dois se beijando no criado mudo e continuei a procurar.
Me ajoelhei no chão coberto por um tapete felpudo tal como o da sala de estar, mas marrom para olhar embaixo de sua cama e finalmente vi algo que poderia me ser útil. Uma caixa cheia de papéis que não teria tempo de verificar todos. Se tudo aquilo não fosse contas atrasadas, então talvez eu tivesse uma pista. O primeiro papel que peguei era apenas uma cópia da certidão de nascimento. Sem pai registrado, típico de crianças periféricas, coitadinho.
O segundo era uma carta, mas não tive tempo de ler porque escutei passos no corredor. Coloquei a carta de volta na caixa e a fechei rapidamente, empurrando-a para debaixo da cama, exatamente onde estava. Jonathan abriu a porta quando estava me levantando.
Seu olhar inquisidor indicava que tinha sido pega fazendo algo suspeito, mas ele não perguntou nada como se soubesse que isso seria assumir que havia de fato algo lá digno de ser bisbilhotado e que ele se importaria se eu o fizesse:
— Pedi uma pizza. — anunciou — vem comer e tratamos de resolver os termos do nosso acordo.
Concordei apenas porque estava com fome o suficiente para degustar uma pedra e porque queria saber até onde ele achava que iria chegar com aquela chantagem.
Sentamos em lados opostos da bancada que separava a cozinha da sala. A pizza e a tensão entre nós, o anúncio de uma tempestade sobre nós dois e que o que já havia acontecido era apenas uma ventania que precedia a chuva:
— Se qualquer coisa acontecer comigo ou com qualquer pessoa próxima de mim, o vídeo vai parar em todos os jornais do país. — ele começou — Tenho certeza de que você já estava maquinando pedir para o seu pai me executar.
— Na verdade não, mas seria uma ótima ideia. — coloquei um pedaço da pizza de calabresa em meu prato.
— Bem, já não é mais tão boa ideia assim. — ele sorriu de canto com certo deboche no que finalmente parecia ser uma expressão honesta vinda dele. — Seu pai vai limpar sua barra, mas você vai dizer que não se sente segura e por isso vai contratar um segurança particular, no caso eu.
— Por quê?
— Não é da sua conta. — respondeu secamente. — Você apenas vai fazer isso porque eu estou mandando você fazer isso.
— Eu espero que você saiba que o seu joguinho comigo tem dia e hora para acabar. — interpus — Assim que meu pai se tornar presidente, é bom que você tenha suas passagens compradas pras ilhas canárias, porque você e qualquer um que já ouviu falar da sua existência vai sumir desse plano e não vai ter vídeo que me impeça de fazer isso acontecer.
— Se seu pai se tornar presidente, não quando.
— Se ele não se tornar, então você está ainda mais ferrado, meu caro. — sorri por conhecer bem os métodos da família pra se manter no poder. — Se eu fosse você, aproveitaria o momento pra me pedir um iate bem legal, dinheiro pra ter uma vida decente fora desse buraco.
— Eu não sou você e você não tem ideia do quão orgulhoso eu me sinto por isso. — rebateu ele.
— Bem, então deixe sua mãe doente morrer, se é que você tem mãe, por conta desse seu tão amado orgulho. Vamos ver quem vai te fazer companhia nesse buraco assombrado quando isso acontecer.
— Não ouse colocar minha mãe nessa conversa! — ele segurou o grito na garganta para não acordar toda a vizinhança.
— Eu coloco quem eu quiser nessa conversa a partir do momento que você ameaça a mim e a minha família, praticamente me sequestra, rouba meu celular e ainda me força a te colocar na minha casa! — rebati.
— Eu não roubei seu celular! Te devolvo amanhã quando minha segurança estiver garantida contra você e o seu pai.
— Mas o resto você não n**a.
— É o que é, tenho meus motivos para isso.
— Você não é nem um pouco melhor que eu ou meu pai, Jonathan.
Peguei a caixa de pizza e m dirigi ao sofá, deixando-o a reclamar na bancada.