💋 CAPÍTULO 2

1017 Palavras
O sol ainda nĂŁo havia rompido completamente o cĂ©u de Roma quando Amara chegou ao Palazzo. O ar da manhĂŁ era frio, Ășmido e pesado. Cada passo ecoava no silĂȘncio dos corredores, como se o palĂĄcio inteiro observasse sua presença, como se as paredes tivessem olhos. Carregava sua pasta de couro com os instrumentos de trabalho, luvas, pincĂ©is, solventes e lĂąminas. Ferramentas de restauração e de disfarce. Naquela manhĂŁ, ela deixava de ser Amara. Era Isabella Romano. A mulher de aparĂȘncia calma, sorriso controlado e passado inexistente. Mas, por dentro, o coração batia rĂĄpido. Era o primeiro dia sob o olhar direto de Lorenzo De Santis o homem que, sem saber, estava ligado Ă  ruĂ­na da vida dela. O SalĂŁo de Caravaggio estava silencioso quando ela entrou. As cortinas deixavam entrar faixas de luz dourada que atravessavam o ar empoeirado. No centro, a pintura esperava, coberta por um lençol branco como um corpo antes da autĂłpsia. Amara prendeu o cabelo e calçou as luvas. A ponta dos dedos tremia levemente enquanto removia o tecido. Sob o vĂ©u, o rosto de SĂŁo Pedro emergiu rachado, ferido, mas ainda grandioso. Ela se inclinou, estudando as fissuras na tinta, o desgaste nas bordas. Aquela pintura carregava histĂłrias escondidas e talvez segredos mais valiosos do que qualquer confissĂŁo. — Trabalhar sozinha, signorina? — a voz grave e rouca ecoou atrĂĄs dela. Amara quase deixou cair o pincel. Virou-se, e o encontrou ali . — Lorenzo — apoiado no batente da porta, observando-a. Sem terno hoje, camisa branca aberta no colarinho, mangas dobradas atĂ© os antebraços, mostrando as veias salientes e o relĂłgio caro. Parecia menos chefe e mais homem. Mas era justamente isso que o tornava mais perigoso. — Costumo me concentrar melhor sozinha, senhor De Santis — respondeu, recompondo-se. Ele se aproximou devagar, como se saboreasse cada passo. — NĂŁo confia na companhia dos outros? — Confio quando conheço as intençÔes. — Ela levantou o olhar, firme. — O senhor me parece um homem de intençÔes complexas. Um sorriso discreto apareceu nos lĂĄbios dele. — Complexas, ou perigosas? Ela inclinou a cabeça, fingindo inocĂȘncia. — Às vezes Ă© a mesma coisa. Lorenzo parou atrĂĄs dela, tĂŁo prĂłximo que ela podia sentir o calor do corpo dele mesmo sem ser tocada. O perfume dele amadeirado, intenso misturava-se ao cheiro de tinta antiga. — Deixe-me ver o que tanto a prende a essa tela — disse ele, baixando a voz. Amara sentiu o coração acelerar quando ele se inclinou sobre o ombro dela. O rosto dele quase roçava o dela. A respiração dele tocou o pescoço dela como uma confissĂŁo muda. Ela manteve os olhos na pintura, tentando se concentrar. — Caravaggio pintava a dor com uma beleza que incomoda. — Sua voz saiu baixa, controlada. — Ele via pureza no sofrimento. — E vocĂȘ, Isabella? — murmurou Lorenzo, prĂłximo demais. — O que vĂȘ na dor? Ela respirou fundo. — A verdade. Por um instante, o silĂȘncio pesou entre eles. Ele virou o rosto, e seus olhos encontraram os dela. A distĂąncia era mĂ­nima, Tensa, Quase elĂ©trica. — Verdade — repetiu ele, como se testasse o sabor da palavra. — É curioso. Quase ninguĂ©m aqui fala sobre ela. Amara forçou um sorriso. — Talvez porque ninguĂ©m aqui esteja pronto para ouvi-la. O olhar dele se estreitou. — EstĂĄ me provocando, signorina Romano? Ela respondeu sem recuar. — Apenas sendo honesta, senhor De Santis. Lorenzo segurou o pulso dela com firmeza, nĂŁo com violĂȘncia, mas o suficiente para fazĂȘ-la sentir o poder que ele exercia mesmo em gestos sutis. Os dedos dele eram quentes, a pele ĂĄspera. Um toque que dizia tudo o que as palavras nĂŁo ousavam. — Aqui dentro, Isabella — murmurou, os olhos fixos nos dela atĂ© a honestidade tem um preço. Ela engoliu seco, mas manteve a compostura. — E o senhor estĂĄ disposto a pagĂĄ-lo? Um segundo de silĂȘncio. Depois, ele soltou o pulso dela e deu um passo para trĂĄs. — Talvez — respondeu com um meio sorriso. — Mas eu nunca compro algo sem testar o valor antes. Ele caminhou atĂ© a janela, acendendo um cigarro. O gesto parecia simples, mas carregava controle e domĂ­nio. — Fale-me de vocĂȘ — ordenou, sem olhar. — De onde vem, Por que escolheu Roma. Ela respondeu com a frieza de quem havia ensaiado, — Florença. Estudei restauração na École du Louvre. Vim a Roma por causa da oportunidade. Sou fascinada pela forma como os italianos tratam a arte. Ele deu uma risada curta. — Tratar nĂŁo Ă© bem o verbo, nĂłs a possuĂ­mos. — Virou-se, olhando diretamente para ela. — Como tudo o que valorizamos. O olhar dele era uma promessa e uma ameaça. Amara manteve-se firme. — Talvez algumas coisas nĂŁo possam ser possuĂ­das. — EstĂĄ enganada — respondeu, aproximando-se outra vez. — Tudo tem um dono, Isabella. Às vezes, sĂł falta coragem para admiti-lo. O coração dela acelerou. Ele estava perto demais. Demais. Lorenzo baixou o olhar para a boca dela, e por um instante, o tempo parou. Ela sentiu o impulso o desejo de recuar, de escapar, mas tambĂ©m o de se aproximar. Um fogo interno que ela nĂŁo queria sentir, mas que queimava mesmo assim. Ele ergueu uma mecha do cabelo dela, deslizando os dedos atĂ© o ombro. — Tem mĂŁos delicadas — murmurou. — MĂŁos que escondem força. Ela respondeu, num tom quase sussurrando, — Força e segredos, senhor De Santis. O sorriso dele voltou, lento, perigoso. — Gosto disso. — O toque se afastou, mas o efeito ficou. — Continue o trabalho, Isabella. Quero ver o progresso Ă  noite. E lembre-se. — Sim? — perguntou, sem conseguir disfarçar o tom rouco. — A arte pode ser restaurada. As pessoas, nem sempre. Ele saiu, deixando para trĂĄs o rastro do perfume e a tensĂŁo. Amara soltou o ar preso. Os dedos ainda tremiam. Por fora, ela era uma profissional fria e controlada. Mas por dentro havia algo nascendo que ela nĂŁo queria reconhecer. Desejo. Curiosidade. Perigo. E no meio disso tudo, uma promessa silenciosa. Entre eles, nada seria simples. Nem puro. Nem seguro.
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