4. Perdão e passado

1782 Palavras
Hazel Eu sempre tive que ser forte por alguém. Seja pela mamãe, pelo vovó ou até pelo Flynn. Nunca tive um momento para ser deliberadamente triste. Até quando minha mãe morreu, todos sentaram à minha volta esperando que eu chorasse, mas não. Doeu como o inferno, mas as lágrimas não vieram. Estava em choque. Eu nunca contei para vovó porque odiava o pai do Flynn. Ele era meu tio, único irmão do meu pai, mas não merecia esse título. Então, para mim ele era apenas pai do Flynn. Eu sei que para ela seria um baque saber o que o filho dela fez. Talvez ela nem acreditasse em mim. — Hum, esse bolinho de carne está uma delícia. — O Flynn falou, quebrando o gelo. Estávamos sentados à mesa. Eu, a vovó e ele. Eu não sei porque ele ficou, mas era o Flynn afinal. Sempre forçando a sua presença. O que eu sentia pelo Flynn era um misto de emoções. Ele era filho da esposa do meu tio, se tornou meu melhor amigo e nos apaixonamos posteriormente. Não era certo, afinal ele era da família, mas lutamos por isso com unhas e dentes. Namoramos por dois anos, ele foi meu único namorado. Eu estava apaixonada e só aceitei tudo e ignorei os sinais. Ele era controlador, abusivo às vezes, mas eu o amava. Só fui me adequando ao que ele queria. Até aquela noite. Ainda sentia o cheiro da chuva, o cheiro do perfume do pai do Flynn misturado com cigarro e uísque. O Flynn estava lá, ele viu com os próprios olhos, mas ainda assim ele disse: A culpa é sua, Hazel. Você incitou ele a isso. Bati com o garfo no prato. Eu adorava a comida da vovó, mas eu não conseguia lidar com as lembranças no momento. Não com o Flynn na mesa. — Você precisa falar, Hazzy. Você sempre faz isso, engole toda a raiva e não fala. — a vovó falou, soando irritada. Soltei o garfo no prato, fazendo mais barulho do que esperava. — A senhora disse que estava morrendo, vovó. O que claramente não é verdade. — Eu não falei nada disso, aquelas freiras são mentirosas. Eu te tirei daquele inferno e você devia me agradecer. — É um pecado falar assim. Elas são servas do Senhor. — Só se o Senhor tiver chifres. — Ela fez chifres com os dedos. Aquilo me deu uma vontade enorme de rir, mas eu disfarcei. Eu tinha que parecer furiosa. — Eu até parei de ir à missa aos domingos. São todos hipócritas. — Eu acho que eu deveria ir embora. — o Flynn falou, levantando da mesa. — É isso que você faz, não é Flynn? Foge quando as coisas ficam ruins. — Ele arregalou seus olhos verdes. — Hazel Bettany! — A vovó me repreendeu. — Está tudo bem, vovó. Ela só está um pouco cansada. — O Flynn falou. — Eu vejo você amanhã, Hazel. O olhei sério. Eu não queria ver ele amanhã e nem em dia nenhum. — Você não precisa voltar, Flynn. — Hazzy. Ele é seu primo, não se esqueça. — A vovó falou, sua testa franzida. — Está tudo bem, vovó. Eu já vou indo. — Leve os bolinhos para comer no caminho. — A vovó embalou os bolinhos no guardanapo e deu para o Flynn. Ele beijou a vovó e acenou para mim antes de sair pela porta. Respirei fundo, aliviada por não ter que encarar mais da sua presença. — Você quer me dizer o que aconteceu entre você e o Flynn, Hazel? — A ignorei. Eu não podia falar a verdade. Ela não aguentaria. — Eu não sei por que vocês acabaram, mas você precisa superar. — Claro, vovó. A culpa sempre é minha. — Não estou te culpando. Eu só acho que você guarda muita coisa para você, Hazel. Às vezes é bom desabafar. É muito melhor do que se trancar em um convento. — A senhora já me tirou de lá, vovó. Parabéns. — Isso quer dizer que você não vai mais voltar? — A animação em sua voz era evidente. — Eu não falei isso. — O que há, Hazel? Você não vê que aquele lugar não é para você? Você precisa parar com essa ideia e me dar bisnetos. Eu estou morrendo, Hazel. — O Flynn pode te dar uma porção deles. — O Flynn é adotado. — Nossa, vovó. Isso soou c***l. — Eu não estou mentindo. Será que uma velha moribunda não pode querer ter netos do seu sangue? — A senhora não está moribunda. — Você que pensa. Eu já tive dez paradas cardíacas desde que você foi embora. Eu posso morrer a qualquer momento e não tenho ninguém para continuar minha linhagem, porque meus filhos são inúteis. — Quanto drama, dona Clarice. — sorri e mordi um bolinho. — Isso aqui está ótimo. — Falei com a boca cheia. — Me diga uma coisa: a senhora conhece a minha madre superiora? — Ah, sim. Quando sua mãe se enfiou naquele convento, eu fui algumas vezes lá para lembrá-la de que ela tinha uma filha para cuidar. — Ah, mamãe esteve lá? — falei, surpresa. — Por que a senhora nunca me contou? — O assunto nunca veio. E sua mãe só foi lá para fazer obras de caridade, ela já tinha você e não poderia virar uma freira. Ela só estava com raiva do meu filho i****a. — Mas e todas aquelas coisas que ela escreveu no diário sobre sonhar em ser freira? Sobre estudar em um colégio de freiras e se arrepender de não ter seguido sua vocação? — Bom, quando sua mãe casou com o meu filho, ela não parecia querer ser freira. Depois ela começou a fazer algumas obras de caridade lá, quando o seu pai, você sabe, foi embora. Mas sinceramente, a sua mãe m*l ia à missa aos domingos. Aquilo era uma informação nova. — Nossa, eu via a mamãe de outra forma. — Você estava em choque, Hazel. Via as coisas de outra perspectiva. Você se trancou no quarto e não falou com ninguém por semanas e, quando saiu, só disse que ia para um convento. Eu sabia que não poderia convencê-la no momento, então deixei você ir. Só achei que duraria menos do que durou. — Vovó, eu realmente fui séria sobre isso. Eu não estou brincando sobre ser freira. — Me desculpe, querida. Mas o que vou dizer agora vai ferir os seus ouvidos de freira. Você precisa t*****r. — Vovó. — É verdade. Quem não transa vive estressado e criando problemas na cabeça. Você precisa arrumar um homem que te ame de verdade e que te ensine o que é o amor em todos os sentidos da palavra. O amor também é uma dádiva divina, querida. Deus fez Adão e Eva como um casal, não ele padre e ela freira. — Quando Deus fez Adão e Eva, foi com o propósito de habitar a terra. — Ah, não venha me ensinar a bíblia agora. Estou falando que você precisa de novo um namorado. Um de verdade agora. O Flynn é um menino, eu sempre soube que ele não conseguiria lidar com você. Mas você vai conhecer alguém, que vai te fazer esquecer essa ideia absurda de ser freira. Você vai ver. Eu queria rir. Aquilo não ia acontecer, meu coração estava fechado e não tinha acordo. — Você amava muito o vovô, não era? — Ah, sim. Seu avô me fez muito feliz. Mas quando ele morreu, eu tive alguns casos. A olhei horrorizada. — O que foi? É claro que seu avô era o homem da minha vida, mas ele estava morto e eu viva. E como eu disse, quem não transa vive estressado e você não ia querer me ver estressada. — Meu Deus, vovó. Você é impossível. — Nós sorrimos. Meu pai foi embora quando eu tinha dez anos, e a minha avó acolheu a mim e à mamãe. Meu pai só veio aqui uma vez desde então. Ele abandonou até a própria mãe. Acho que era demais para ele que tivéssemos ficado por perto. Era horrível pensar nisso, mas nós três dividimos a dor por um bom tempo. Até que a mamãe resolveu ir embora. Minha avó começou a digitar algo no celular. — Não sabia que a senhora tinha ficado fã de tecnologia. — Falei, apontando para o celular. — Ah, sim. É necessário. — ela falou, sua atenção voltada para a tela. Eu me levantei e coloquei os pratos na pia. — Querida, eu tenho uma ideia. — Ela falou com cautela. — Qual ideia? — Já que você está aqui, eu acho que você deveria dar um tempo nessa história de convento e ir viajar. — Viajar para onde? — Não sei, talvez a Flórida. — Por que eu iria para Flórida, vovó? Não tem nada para mim lá. — Talvez eu tenha alguém lá. Da família. — Soltei os pratos e a analisei. Ela fez aquele olhar que eu conhecia muito bem. Ela só fazia ele quando estava tramando algo, o que acontecia com bastante frequência. — Querida, servir a Deus não envolve perdão e tudo mais? — Não! A senhora não pode estar falando sério. Ele nos abandonou, vovó. — Mas eu não disse quem era. — Eu lhe conheço bem, vovó. Você está falando do papai. — Ele apareceu há alguns dias. Ele está mudado, filha. Ele se casou. — Que bom para ele. Ele está feliz e a minha mãe morreu após anos de infelicidade. — Isso ficou no passado, Hazzy. Você precisa superar. Você não aprendeu nada com aquelas freiras? — Tudo bem, eu posso perdoar ele, mas não preciso ir para a Flórida, não é? — Sim, mas pelo menos fale com ele. Ele quer te ver. Voltei minha atenção para a pia, terminando as louças. Minha vó tinha razão - perdão fazia parte do processo. E ele era o meu pai. — Talvez eu possa tentar ouvir o que ele tem a dizer depois de todos esses anos, mas não prometo nada. — Ah, ainda bem. Porque ele já está impaciente lá fora. A vovó me deu as costas, e saiu andando em direção à porta. Eu a segui. — A senhora armou tudo isso, não foi? Eu vir aqui, o papai lá fora enquanto jantávamos. Ela deu um sorriso fraco e se virou para abrir a porta. Meu coração acelerou quando ela abriu e eu vi meu pai, depois de tantos anos. Eu m*l conseguia sentir o chão nos meus pés. Era um misto de sentimentos que eu não conseguia descrever. — Oi, Hazzy.
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