Hazel
Era bom vestir roupas normais novamente. E sentir o cheiro do ar limpo no lugar de velas e incenso era especialmente incrível. Quando você passa um tempo trancada em um convento, o normal começa a parecer incrível.
— Você pode parar ali. Em frente aquela casa com o jardim florido. — falei ao motorista.
Ele parou o carro e eu dei uma nota de vinte dólares para ele.
— Você pode ficar com o troco.
— São apenas cinquenta centavos, senhorita. — resmungou.
— Você pode juntar com os outros cinquenta que com certeza alguém deixou. Pare de ser m*l-agradecido e abra o porta-malas.
Desci do carro e corri para tirar minha mala do porta-malas.
— Espere. Eu ajudo. — a voz conhecida fez meu corpo gelar. Eu esperava tudo, menos vê-lo aqui.
Flynn Richardson era o meu primo adotivo, meu ex-melhor amigo e ex-namorado. Eram títulos demais para uma pessoa só. Ele puxou a minha mala, colocando as rodinhas no chão.
— Não precisa.
— Me deixe ajudar, Hazzy. — não, ele não tinha mais o direito de me chamar assim. O olhei feio e ele tencionou o maxilar.
— Hazel, eu pensei que você tinha superado isso.
— Superado o que exatamente? Não aconteceu nada que eu precise superar. E me dê a minha mala, eu posso carregar ela sozinha. — puxei a minha mala dele.
— Caramba, Hazel. Você passou anos no convento. Eu pensei que tinha aprendido a perdoar.
Olhei para ele, minhas narinas queimando de raiva. Eu não acredito que ele estava falando isso mesmo.
— Foram dezessete meses. E não, Flynn. Você não vai ser o centro das atenções hoje. Onde está a vovó?
— Está no hospital.
— O quê? Eu pensei que ela estava em casa. Meu Deus, precisamos ir até lá.
— Calma, foi só um exame de rotina. Ela já está a caminho de casa. Se for para o hospital, não vai encontrá-la. Você pode sentar na varanda e esperar.
— Por que não dentro de casa?
— Porque está trancada.
Subi até a sacada da casa, fui até o jarro de flores que ficava ao lado da porta e peguei a chave enterrada na areia. As flores estavam murchas, assim como a maioria das rosas no jardim.
— Por que ninguém regou as flores da vovó? Ela ama esse jardim.
— O quê? É nisso mesmo que você está pensando agora?
— E no que eu deveria pensar?
— Sei lá, você foi embora sem me dizer nada. Passou meses num convento. Nós não nos falamos há muito tempo, Hazzy. — Me dava náuseas quando ele me chamava pelo meu apelido de infância.
— Você não pode estar falando sério. — Coloquei a chave na porta e tentei abrir, mas senti sua mão tocar o meu braço.
Pulei para frente, batendo na porta. Foi instintivo e o Flynn entendeu o recado porque logo me soltou. Ele bufou e sentou na cadeira na frente, com os braços cruzados.
— Não, Flynn. Você não tem o direito de ficar com raiva de mim. Você sabe o que fez.
— Eu sinto muito ter te traído, Hazzy. Eu sei que errei.
— Você sabe que não é sobre isso. — um alerta acendeu em seu rosto e seus olhos ficaram raivosos. Ele mexeu nos cabelos e deixou a cabeça cair para trás, bufando de raiva.
Aquele era um assunto proibido para ele. Encarar a verdade dos fatos era demais para Flynn Richardson e toda a sua família.
— Eu pensei que ser freira mudaria você.
— Eu não sou freira. Eu não fiz os meus votos.
— Isso quer dizer que você desistiu? – um brilho diferente surgiu em seu rosto.
— Não, Flynn. Eu não desisti. Eu estou aqui pela minha avó.
Ele tencionou o maxilar.
— Está bem. Vamos tentar só ser amigos, está bem? Por favor. Pelos velhos tempos?
Aquele pedido envolvia muitas coisas, inclusive enterrar a verdade. Mas eu tinha mudado, não era? Eu era uma nova pessoa que aprendi a perdoar.
Sentei na cadeira ao lado dele e observei o lugar. Minutos de silêncio nos seguiram até que ele falou:
— Eu pensei que você chegaria aqui vestindo um hábito, não em um vestido.
Olhei para os tênis nos meus pés. O vestido florido cobria o joelho, diferente dos vestidos curtos que sempre usei na vida. Eu tinha acabado de fazer dezoito anos e perder minha mãe quando entrei no convento. Estava no auge da minha fase rebelde. Eu tinha decidido que iria perder minha virgindade com o Flynn quando encontrei ele na cama com a minha melhor amiga, Susan. Foi uma dor tão grande, que pensei que nunca iria sentir aquela dor na vida. Então, cheguei em casa e encontrei os policiais na entrada. Todos os vizinhos na rua me olhando com o olhar de compaixão. O que se seguiu foi uma sessão de dor que queria apagar da minha memória.
— Como ela está?
— Quem?
— Ela está ótima. A pressão dela subiu, mas não foi nada de mais.
— Eu não acredito. Ela mandou eu vir até aqui com o pretexto de que estava m*l.
— Ela não te chamou para isso.
— E para que foi?
— Isso você tem que perguntar a ela. Ah, aí está. — ele apontou para o carro que estacionava em nossa frente. — Hazel, desculpa. Eu esqueci de te dizer que… — eu não ouvir mais o que ele falou. Assim como não via mais o chão abaixo dos meus pés.
Só vi o pai do Flynn descer do carro e minha respiração deixou o meu corpo. Não havia ar ou calor na minha pele. Senti o gelo dominar minha espinha e um vazio invadir o meu peito. Aqueles olhos de cobra me olhando como se tudo fosse normal. Um meio sorriso subiu na lateral da sua boca, enquanto ele caminhava até a lateral do carro. Ele estava vivendo normalmente, o miserável.
Levantei e fui até a porta, a chave parecia brasa na minha mão.
— Hazel, por favor. — o Flynn falou ao meu lado. — Você precisa superar.
— Vá se f***r, Flynn! — aquela foi uma palavra feia, que me renderia algumas punições no convento. O Flynn me olhou, horror em seus olhos. Eu geralmente não falava assim, ou sentia tanto ódio. Apenas alguns minutos de volta para casa e já ferrou com os meus meses de expiação.
Entrei na casa da vovó e corri em direção às escadas. Eu estava arfando enquanto tentava encontrar o ar. O Flynn me seguindo de perto.
— Hazel! Você está bem? — ele me parou com um puxavante.
— Me solta! Se você quer fazer alguma coisa, desce lá e manda seu pai ir embora.
— Eu vou, está bem? Eu vou agora, mas você precisa se acalmar.
— Vai! — gritei.
O Flynn correu, descendo às escadas, que eu nem tinha notado que tinha subido. Meu coração batia descompassado, meu corpo parecia quente e, ao mesmo tempo, gelado. Entrei no banheiro e me tranquei lá. Sentando no vaso, contei várias vezes, tentando me acalmar. Mas as lágrimas caíram insistentemente. Jurei para mim mesmo que isso não me abalaria novamente, mas alguns minutos de volta e eu já estava me acabando em lágrimas.