Hazel
Caminhei apressada pelos corredores do convento, mas acabei me distraindo quando passei pelo corredor de vitrais. Eu amava aquele lugar. A luz do sol brilhava intensamente através do vitral, criando uma tapeçaria de cores no chão e nas paredes da sala. Os raios de luz atravessam os diferentes tons de azul, vermelho, verde e amarelo. Uma figura central no vitral, representando Jesus Cristo em uma pose de serenidade e misericórdia. Ele estava cercado por santos e anjos, cujas silhuetas pareciam dançar e flutuar em meio às cores vibrantes. Cada detalhe era meticulosamente trabalhado, desde a expressão suave no rosto de Jesus até as asas delicadas dos anjos. Era magnífico, exatamente como minha mãe tinha me descrito na infância.
Uma das coisas que me fez resolver ficar neste lugar há pouco mais de um ano foi o ambiente. Eu me lembro de como a minha mãe descrevia os conventos em sua cidade no Novo México. Como seus olhos brilhavam quando ela falava com alegria sobre a beleza do lugar, a arquitetura, as esculturas, como era incrível servir a Deus acima dos prazeres do mundo e principalmente como as freiras eram amarosas e bondosas. Bom, talvez as freiras fossem amorosas e bondosas lá no Novo México, aqui elas eram malvadas e cruéis. Quando cheguei aqui, conheci algo chamado: a crueldade das freiras. Sim, freiras podem ser bastante cruéis, ainda mais quando se trata de penitências e ensinamentos. Mas usar o nome de Deus para justificar a sua crueldade tornava tudo mais fácil, para elas pelo menos.
Sempre que uma noviça fazia algo, ela ouvia que não tinha vocação. Isso me fazia questionar diariamente o que eu estava fazendo ali. Sem contar as orações infinitas, noites sem dormir e dando voltas descalças em pedras frias no convento para expiação dos pecados. Montanhas de pressão psicológica. E, sim, o chicote nas costas era verdadeiro. Não era bem um chicote, é mais uma forma de torturar nossas mentes.
— Hazel! — A irmã Betina gritou para mim. Sua testa franzida. — Você sabe que a madre superiora te chamou na sala dela?
— Ah, sim. Eu já estava indo para lá.
— Agora ela está ocupada. Você precisa fazer as coisas na hora que lhe é solicitado. Tanto tempo aqui e não aprendeu nada? — Ela murmurou algumas maldições e apertou o rosário em suas mãos, passando por mim furiosa.
Aquela era a atitude que eu odiava. Demonizar pequenas coisas.
A irmã Betina começou comigo, mas ela já fez seus votos há pouco e agora acha que é melhor que as noviças. Ela está no clube das freiras agora.
Atravessei os corredores em direção à sala da madre superiora, depois me sentei na frente da sala e esperei. Aquela não era a primeira vez que eu era chamada até lá. Meses atrás, em duas minhas andanças noturnas pelo convento, eu vi uma das freiras sair correndo da parte de trás do jardim, um dos monges saiu logo atrás dela. Eu não pensei nada de início e nem era da minha conta o que eles estavam fazendo. O fato é que eu tinha insônia noturna e andar pelo convento à noite se tornou um hábito. Eu me lembro do olhar da irmã Carmen naquele dia- ela me olhou como se eu fosse o próprio d***o e deu uma justificativa absurda sobre o ocorrido. Não era minha conta o que eles faziam às escuras no jardim. O evento teria ficado entre nós se ela não tivesse me denunciado para madre superiora por algo que não fiz. Ela disse que me viu saindo várias vezes do convento de madrugada com roupas mundanas. Aquilo era um absurdo sem procedência. Eu odiei a irmã Carmen por dias afins e nem rezando consegui tirar aquele sentimento de mim.
A madre superiora acreditou na irmã Carmen, mesmo eu contando o que havia visto naquela noite. Eu fui punida e as freiras passaram a me odiar. Isso me fez questionar a minha vocação. Será que eu queria estar em um lugar onde as pessoas me odiavam e não assumiam os seus próprios erros?
Os questionamentos se fortaleceram quando eu o vi. Os olhos azuis mais lindos que eu já vi. Sua pele bronzeada contrastava com as diversas tatuagens em seu corpo. Não pude olhar por tempo suficiente para ver todos os desenhos, mas eram muitos, por todo o seu peitoral e braços. Meu coração nunca bateu tão forte na vida e tentei me convencer de que foi pelo susto.
Desculpe, mas por que alguém como você ia querer passar a vida em um convento?
Nunca alguém tinha me perguntado o porquê de eu escolher ser uma freira. Minha avó havia questionado antes, mas foi mais como uma conversa furiosa sobre a merda que eu estava fazendo com a minha vida.
Eu conheci um mundo antes dali. Eu não nasci em um convento, não fui criada em um colégio de freiras. Além das histórias da minha mãe, eu não tinha muito. Não era algo que estava no meu sangue, eu precisei forçar para estar ali.
A porta da madre superiora se abriu e a irmã Carmen saiu de lá. O ódio brilhou em seus olhos e eu senti a raiva queimar meu peito. Era muita ousadia ela ficar com raiva de mim por algo que ela mesma fez. Ela segurou a porta e se afastou para eu passar.
— Boa sorte, Hazel. — ela falou, assim que passei por ela.
Prendi a resposta na minha garganta e respirei fundo. A madre sentada em sua mesa lendo algum documento com seus óculos de leitura. Ela parecia ser a única pessoa sã ali, exceto que não acreditou em mim. Ele me olhou por cima do óculos e apontou a cadeira à sua frente.
Sentei e esperei ela terminar de ler os papéis e voltar a atenção para mim. Ela me analisou, depois apontou o indicador em direção ao meu peito.
— Onde está o seu escapulário?
Coloquei a mão em meu peito. A peça fazia parte do uniforme, mas eu nunca lembrava.
— Madre, eu… — ela levantou o indicador para que eu me calasse.
— Pelo que me lembro, meses atrás eu conversei com você, Hazel. – não respondi porque sabia que ela me queria calada, apenas assenti para ela. — Você me dá tanto trabalho que eu não sei o que fazer com você. — ela balançou a cabeça em negativa.
— Madre, o que fiz exatamente? Eu cumpri todas as regras impostas, mas continuo recebendo punições e chamadas de atenção.
— Cumpre todas as regras, exceto quando recebe homens misteriosos no pátio do convento.
Meus olhos arregalaram e meu rosto queimou. Com certeza, a noviça do outro dia deu com a língua no dente.
— Isso foi um engano. Aquele homem entrou aqui. Ele estava machucado, então eu coloquei gases em seus ferimentos e ele foi embora.
— E eu não deveria ser avisada? Já que a segurança do meu convento está em risco.
— Não é bem assim…
— Hazel, eu já ensinei diversas noviças como você. Elas vêm aqui com um sonho aleatório de servir a Deus, mas nem chegam a fazer os votos. No meio do caminho elas entendem que não tinham vocação. Mas você é uma incógnita para mim. Você é uma boa menina, é disciplinada, apesar de ter dificuldade em seguir regras. Cumpre as tarefas e castigos, ajuda todos. É acusada injustamente e mesmo assim não revida.
— O quê? Se a senhora sabe que fui acusada injustamente, por que me puniu?
— Porque você teve uma semana para dizer o que a irmã Carmen andava fazendo em nossos jardins e ainda assim não falou. Você poderia ter gritado e acordado o convento inteiro quando um estranho invadiu, mas você o ajudou. Você é tão boa que esquece de você Hazel. As freiras podem ser cruéis. Não deveriam, mas podem. Quando nós estamos no meio de lobos, nós devemos agir como caçadores.
Eu m*l conseguia acreditar que ela estava me dizendo isso.
— Madre, eu não entendo. Eu pensei que a senhora me chamou aqui para me punir.
— Eu deveria, mas não. Eu te chamei aqui para perguntar: o que você quer?
— Como assim?
— Eu atrasei os seus votos em meses, mas você não reclamou. Você nunca sequer se perguntou por que ainda não fez os votos.
— Eu achei que iria fazer no final do semestre.
— Mas é isso que você quer, Hazel?
Aquela pergunta de novo.
— Sim.
— Por quê?
— Como assim por quê? Eu amo a Deus, eu gosto do trabalho de caridade.
— Isso são coisas que não precisa você ser uma freira para fazer, Hazel. Você conheceu a vida lá fora, são geralmente com essas pessoas que nós temos mais trabalho. E você me parece que está aqui seguindo o sonho de outra pessoa, não o seu. No começo, parece aceitável, mas depois começa a pesar.
Já estava pesando.
Tentei analisar a situação. Minha mente girando entre o certo e o errado.
Ela estava certa, eu conhecia o mundo lá fora e sabia como era c***l. Eu não queria estar no mundo lá fora.
— Está tudo bem, querida. — a madre superiora afagou a minha mão. Aquele foi um gesto de carinho inesperado.
Ela se apoiou na mesa e se levantou, caminhando até a minha lateral.
— Eu te chamei aqui para dizer que sua avó ligou. Parece que ela não está muito bem de saúde.
— O quê? — a adrenalina queimou nas minhas veias. Eu queria correr dali de volta para casa. — Ela está no hospital?
— Agora está em casa, mas você precisa ir.
— Meu Deus. A vovó…
— Você está livre das suas obrigações aqui, Hazel. É seu direito voltar e fazer seus votos se quiser, mas servirá como um tempo para você pensar no que é realmente importante para você. No momento, a Clarice precisa de você. — ela sorriu e afagou minhas bochechas. — Você é a cara da sua mãe.
— A senhora conhecia a minha mãe?
— Como eu disse, muitas passaram por mim. — ela sorriu e voltou a sentar na sua cadeira.
O que aquilo queria dizer? Tinha alguma coisa que eu não sabia sobre a minha mãe e aquele convento?
— Agora, vá. Suma da minha frente antes que te dê mais algumas punições. — ela apontou para a porta. — E mande lembranças para a Clarice.