Sasuke rezou três Ave Marias em cinco segundos. Sakura olhava pra ele com uma cara de quem poderia matar um boi e enfiar goela abaixo nele. Ele ficou lá parado que nem um pedaço de madeira morta, não porque quisesse ouvi-la, mas porque estava paralisado de medo mesmo.
Se movesse um músculo, morreria. Ou ficava e ouvia, ou corria para morrer depois.
– Um filho? – ele fez aquela pergunta retórica que toda mulher faz segundos antes de explodir a bomba – Você tem um filho e não me disse nada?
Ela andava de um lado para o outro na frente dele, enquanto Sasuke ficava sentado no sofá com cara de morte matada esperando a hora de levar uma frigideira da cabeça. A rosada estava até fazendo aquelas poses sem sentido que mulher gosta de fazer para tornar o momento ainda mais dramático.
– Sakura, amor, é que... – não adianta cara, ela não vai te deixar falar.
– Vai dormir no sofá, de novo, amanhã a gente termina essa conversa!
Agora sim as coisas estão realmente sérias. Enquanto a discussão rolar e ela estiver extravasando, ta tudo bem, mas se ela deixa a discussão pro dia seguinte é porque as coisas realmente estão ficando feias pro seu lado. Chore, porque a surra vai doer.
E ela não esperou ele dizer mais nada, dessa vez nem sequer deu um travesseiro e um lençol pra ele, ela simplesmente foi para o quarto e fechou a porta sem mais nem menos. Tudo bem, ele não iria dormir nada mesmo, tinha que aproveitar a sua provável ultima noite de vida.
(...)
Sakura não falou mais absolutamente nada, na manhã seguinte ela nem sequer olhou na cara, estava com uma carranca que dava até medo. Sasuke que não é burro nem nada, também não disse nada, ele não podia arriscar piorar mais as coisas, elas já estavam ruins por si só.
Ela só falou com ele depois que chegou do trabalho, ainda com aquela mesma cara de ódio, e para deixar Sasuke com mais medo ainda, ela não largava aquela bolsa, e ela já estava começando a imaginar que ela estava armada e iria mata-lo a qualquer momento.
Paranoia é uma coisa que também acontece com os homens, não é só com a gente.
– Eu quero conhece-lo. – foi a primeira coisa que ela falou olhando diretamente nos olhos dele, só pra intimidar – Quero conhecer o seu filho.
Sasuke não sabia se aquilo era bom ou r**m.
– Tem certeza que quer? – o rei das perguntas suicidas ataca novamente, alguém compra um manual de perguntas que nunca devem ser feitas pra esse cara, por favor.
Ela entortou o bico, apertou a bolsa, inflou as bochechas e soltou o ar, tudo para tornar os momentos de terror ainda mais cinematográficos.
– Sasuke.
Só foi preciso essa palavrinha mágica pra ele pegar a chave do carro e sair correndo em direção à porta. E ela saiu atrás dele que nem um vilão de filme de terror, com passos bem lentos, mesmo assim sempre o acompanhava.
Entraram no elevador com ela ainda toda emburrada e ele com medo de ser assassinado e deixado ali mesmo para ser encontrado fedendo depois. Nenhuma palavra a mais foi trocada durante o trajeto até o carro – o dele claro, porque no carro assombrado da Sakura não entrariam tão cedo.
Sakura sentou, cruzou as pernas, pôs as mãos nos joelhos e ficou olhando pra frente. Sasuke simplesmente dirigiu, com tanto medo que quase não acertava o buraco da chave. Saíram dali e durante todo o trajeto ela continuou olhando pra frente sem dizer absolutamente nada, e isso que era o perigoso. O ataque poderia vim a qualquer momento sem ele perceber.
Somente quando entraram em uma propriedade, que mais se parecia com uma pequena fazendo no meio da cidade toda murada, e avistaram uma linda mulher de cabelos pretos lisos sentada na varanda, que ela foi falar alguma coisa.
– Aquela é a mãe do seu filho? – ela perguntou sem nem olhar pra ele, estava concentrada na mulher.
– Não, aquela é a minha mãe! – ele respondeu todo orgulhoso, e que mãe ele tinha!
– Não acredito, ela não parece ser mais velha que você.
Nossa Senhora das plásticas, querida, uma santa muito forte pra quem já passou dos 50 anos, quem sabe no futuro ela não te ajude também.
Sasuke sorriu de lado, e parou o carro ali perto. Sakura desceu tentando parecer uma boa pessoa, desfez todo aquele molde de assassina que ela estava e pôs na cara o melhor sorriso que ela tinha, tudo pra sogra não achar que o filho tinha se casado com uma louca. E a medida que se aproximavam mais Sasuke notava o quanto sua esposa era bipolar. A louca.
– Mãe! – ele foi abraça-la, olha que filho carinhoso – Cada dia que se passa fica mais linda!
Pra quem não sabe, a mãe de Sasuke, Mikoto Uchiha, era uma modelo aposentada, e mesmo depois de anos longe das passarelas ainda era continuava sendo um ícone de beleza, e é claro, o tempo pra ela parecia não ter passado, já que a mesma ainda apresentava um corpo esbelto e um rosto jovem e sem nenhuma ruga.
– Obrigada, filho! – ela agradeceu com um sorriso mais brando do que as nuvens – E deixa eu adivinhar, essa é a sua esposa, Sakura?
Sakura ficou muito feliz em saber que pelo menos seu nome sua sogra sabia, já que a mesma nem tinha parecido no casamento do filho.
– Sim, eu sou a Sakura.
E as duas se abraçaram, aquele típico abraço de sogra e nora, que sorri na cara e por trás está fazendo cara de vômito. Vamos dar um desconto, Mikoto ainda nem se acostumou com a esposa do filho mais velha, iria demorar um pouco para se acostumar com Sakura.
– Nós viemos ver o Júnior.
Sim, esse é realmente o nome do moleque, Sasuke Júnior, Juninho para os mais íntimos, e esses “mais íntimos” eram... Só a vovó mesmo.
– Ele está no quarto dele.
Eles entraram na casa, e dessa vez Sakura estava tão focada que nem parou para ficar olhando para os móveis com aquela cara de boba que ela costumava fazer. Eles simplesmente subiram a escada, e a cada degrau que subiam Sasuke repensava se valeria mesmo à pena deixar o filho conhecer a madrasta maluca que ele tinha.
Sakura estava decidida, e nada no mundo a faria mudar de ideia, em alguns segundos ela iria conhecer o Júnior. E quando abriram a porta do quarto...
Acreditem em mim, ela esperava conhecer um pré-adolescente de 13 anos ou mais, mas não, não era nada disso, era um quartinho bem fofo, e no meio dele, tinha um berço. E foi somente naquele segundo que uma coisa que ela não tinha imaginada surgiu em sua mente.
– Mas é um bebê. – foi a primeira coisa que ela disse, no segundo que olhou para dentro do berço e viu uma criancinha mordendo um boneco de plástico e babando em tudo.
Ele tinha os cabelinhos pretinhos que nem os do Sasuke, e uma pele branquinha, os olhinhos pretos que nem os do pai, era Sasuke cuspido e escarrada. Simplesmente a coisa mais fofa que ela já tinha visto.
– Você não me deixou falar, eu queria te contar, mas você simplesmente não quis me ouvir. – ele parecia bem magoado.
É, o jogo virou, Sakura.
– Júnior tem oito meses, a mãe dele morreu dois meses depois que ele nasceu, ela não tinha família, então a guarda veio diretamente pra mim, como eu sempre estava ocupado demais pra cuidar dele, pedi a minha mãe que cuidasse dele por uns tempos, até que eu acertasse tudo na empresa pra poder ter tempo pra ele.
Sakura não sabia mais o que era ver Sasuke triste, e era uma tristeza diferente da ultima vez, ele parecia magoado, a errada na história agora era ela, e não ele, dessa vez Sakura quem tinha sido insensível, não tinha parado para escuta-lo. Ele tinha os seus motivos para não ter contado, agora ela via, aquela história ainda doía muito nele.
– Sasuke, desculpa, eu não deveria ter ficado com tanta raiva, o filho é seu, você quem escolhe o que acha que é melhor pra ele. – ela estava se sentindo péssima, segurou no braço dele, e o abraçou, um dos poucos abraços sinceros que eles já tiveram.
– Tudo bem, eu não deveria ter escondido, eu só estava esperando o momento certo pra te contar, e você ficou falando que queria um filho, não é que eu não queria ter um filho com você, eu só acho que não daria certo, você sabe que o nosso casamento não é de verdade, sabe que temos um prazo de validade.
Na verdade ela estava se esquecendo daquele detalhe, como se nunca mais fosse se separar dele, como se aquele contrato não existisse. Talvez sentisse aquilo porque estava acostumada a sentir, sempre se casando achando que é a ultima vez que se casa, achando que vai dar tudo certo, e no final não dá. Ela só queria que fosse diferente pelo menos uma vez.
Ela não queria um marido que fosse durar para sempre, ela queria uma lembrança que fosse durar para sempre, ela só não queria ficar só no final de sua história, e um filho traria essa segurança a ela, alguém que fosse ser seu mesmo depois que partisse.
– Eu entendo, termos um filho vai ser uma coisa muito estranha, vamos ter que seguir nossas vidas depois que nos separarmos, foi uma coisa tola minha, deixa pra lá. – ela sorriu, mas ele sabia que aquele sorriso era falso, ela ainda tinha aquela vontade de ser mãe.
E ele queria poder deixar ela feliz, prometeu que deixaria.
– Sakura, e se eu levasse o Júnior pra morar com a gente lá em casa? – na cabeça dele essa seria uma ótima ideia.
E felizmente, na cabeça dela também. Sakura abriu um sorriso de orelha a orelha.
– Morar com a gente?
– Claro, você poderia cuidar dele como se fosse seu filho, e o Júnior teria a figura de mãe que ele precisa.
Crianças precisam de ter uma mãe, por mais loucas que elas pareçam ser.
– Oh Sasuke! Eu iria me sentir a mulher mais feliz do mundo!